Seguro quer lei do mecenato "mais atrativa" para apoiar cultura

O Presidente da República defende a cooperação entre público e privado no apoio à cultura.

O Presidente da República, António José Seguro, pediu hoje uma lei do mecenato "mais atrativa”, para incentivar a cooperação entre público e privado no apoio à cultura, num discurso na abertura do festival literário Babell, no Porto.

“Este festival mostra que as entidades e instituições públicas e privadas podem associar-se para fins culturais de relevo. Esta associação é não só meritória, mas necessária. Está no coração da própria democracia e chama-se simplesmente cooperação. Devemos incentivá-la, quer com uma lei de mecenato mais atrativa, quer com a noção de que a responsabilidade social da riqueza pode contribuir para que o mundo da cultura não dependa apenas de financiamento público, mas do interesse, da paixão e do compromisso da sociedade civil, das famílias, das fundações e do mercado”, declarou.

O discurso do Presidente da República encerrou o ato de abertura do Babell, uma coorganização da fundação da Livraria Lello com a Câmara do Porto, antes de ter visitado a expansão da livraria, da autoria de Álvaro Siza Vieira, e a instalação "A4", montada nesse espaço por Ai Weiwei.

Sobre o mecenato cultural, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, explicou aos jornalistas, à margem da sessão, que a versão “que saiu do Parlamento e foi promulgada pelo Presidente da República já este mês, autorizando as alterações a este regime, está na parte de “finalização do processo legislativo interno do Governo”, tendo como “inovação a criação do Título de Iniciativa Cultural”.

“Vai permitir que qualquer iniciativa, independentemente da natureza jurídica do seu promotor, possa candidatar-se a ser uma iniciativa cultural elegível para mecenato cultural”, resumiu.

Na abertura do evento, que decorre até à próxima segunda-feira, António José Seguro saudou o “belo dia” na cidade, que hoje vive o feriado municipal associado ao São João, e fez uma defesa do livro e da palavra, como “extensão da memória e da imaginação”.

“No mundo de hoje, continuamos a pensar que aquilo que aprendemos de verdadeiro está nos livros, na sua leitura individual, na sua comunicação discreta. A sociedade do espetáculo, a sociedade dos media, devora parte dessa autenticidade que atribuímos ao livro. Mas não pode fazer-nos esquecer que ele é uma das invenções mais belas e mais perfeitas da humanidade e que a revolução da leitura e da literacia foi uma das mais importantes da nossa História moderna”, acrescentou, na rua em frente à Livraria Lello.

Seguro saudou outros festivais literários, do Festival Utopia ao Correntes d’Escritas, passando pelo FOLIO e pelo Literatura em Viagem, para gabar a “caminhada que uniu livreiros, editores, autores, autarquias, entidades públicas e privadas” que acreditam no livro como “um antídoto contra o extremismo, o esquecimento e a exclusão”.

“Esta caminhada acompanhou o amadurecimento da nossa democracia, a democratização da leitura, o crescimento das redes de leitura pública. (...) Precisamos de ideias, de criatividades e de criadores”, afirmou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, interveio na sessão para elogiar “aqueles que se atrevem a sonhar e a pôr de pé o maior festival literário alguma vez organizado em Portugal”, mesmo que a Torre de Babel não possa “rivalizar com os Clérigos”, sendo o festival “uma espécie de arranha-céus da literatura e das artes em Portugal”.

“Durante os próximos dias, a cidade do Porto abre-se ao mundo e ao futuro através da força universal do livro. Abre-se a ideias, narrativas e autores que nos oferecem uma visão inconformada e inspiradora do nosso tempo”, disse o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte (PSD-CDS-IL).

Citando Valter Hugo Mãe para lembrar que “ler é esperar por melhor”, o autarca lembrou a “relação antiga, profunda e afetiva com os livros” da cidade, evocando alguns dos seus autores mais célebres, para reivindicar para o Porto a “vocação como cidade-livro”.

“Uma cidade é feita de pessoas e de histórias. Das histórias que herdamos, das histórias que contamos e das histórias que escrevemos juntos. Ser uma cidade-livro é garantir que a literatura não fica confinada aos lugares onde habitualmente a encontramos”, referiu.

Da organização, o comissário, Rui Couceiro, salientou os mais de 150 jornalistas acreditados e os mais de mil profissionais a trabalhar no festival, garantindo que este “já é, por certo, o maior evento literário jamais feito em Portugal”.

“Sem livros, não há cidade. Que comece o Babell, que comece a cidade-livro”, declarou, por sua vez, a administradora da Lello, Aurora Pedro Pinto.

A edição inaugural do Babell, que custou mais de três milhões de euros só à fundação da Livraria Lello, sem contar com o investimento municipal, arranca hoje, decorre até segunda-feira e apresenta dezenas de conversas entre autores, incluindo dois vencedores do Nobel da Literatura, a polaca Olga Tokarczuk (2018) e o húngaro László Krasznahorkai, mas também concertos, exposições e espetáculos.