Selma Uamusse: "o Womex é decisivo para a minha carreira"

Cantora é um dos nomes lusófonos que atua no grande evento de world music.

Entre as 0h45 e a 1h30, da noite de dia 20 (para 21), Selma Uamusse vai estar em ação no palco do Cineteatro Capitólio, uma das várias salas do circuito ao vivo da edição deste ano do Womex, a grande feira de World Music que decorre entre hoje e dia 23 em toda a cidade de Lisboa.

Aproveitando a invulgaridade de um festival desta dimensão voltar a acontecer no nosso país pelo segundo ano consecutivo (no ano passado, o Womex assentou arraiais no Porto), Selma Uamusse vai jogar em casa, não só pelo seu showcase ser em Lisboa, como pelo facto de atuar numa sala que bem conhece - a cantora já atuou no Capitólio como convidada dos espetáculos dos GNR e de Stereossauro e já organizou nesse espaço dois espetáculos de solidariedade.   

A paisagem sonora da música moçambicana vai ser bem mais do que um cenário neste concerto de Selma Uamusse para delegado ver e não só.

O que estás a preparar para este concerto? 
Há uma grande expetativa. É a minha terceira candidatura ao Womex. Tive esta coisa bonita de ver finalmente a minha candidatura aceite. Calhou ser em Portugal, apesar do júri ser sempre o mesmo. Estou muito feliz em poder fazer a apresentação do meu showcase nesta feira que eu acompanho há muito tempo. Pensei em muitas coisas mas decidi que o que eu iria apresentar seria o último álbum, consolidadíssimo como ele está, sem inventar ou criar um acontecimento especial. Vou fazer aquilo que faço sempre, é um concerto de comemoração, quase uma cerimónia. Vou manter-me fiel aos meus princípios, não criando demasiada pressão para mim. Acho que vou fazer o que tenho feito no último ano, que é apresentar o meu último álbum, o "Liwoningo", com algumas lembranças do outro disco, "Mati". É onde estou confortável [nas músicas de "Liwoningo"]. Tenho que estar confortável e feliz. Há muitas razões para celebrar: uma nova maternidade, a ultrapassagem de uma pandemia, o facto de ser em Lisboa e novos caminhos que estão a ser traçados.

 

Claro que vais contar com instrumentação muito usada em Moçambique como o timbila [parente próximo do xilofone] ou o mbira [oriundo do vizinho Zimbabwe].
Enquanto Selma Uamusse, a minha base tem sido os instrumentos moçambicanos. Obviamente, vai continuar a ser dessa forma e o contexto assim o pede. Tenho o privilégio de ter um percussionista maravilhoso, o Nataniel Melo, que sendo um português do Porto domina uma série de instrumentos tradicionais moçambicanos. Eles lá estarão, a par da guitarra e da parte eletrónica. Vai ser um concerto normal, só que com mais ganas ainda.

Sendo a tua primeira atuação no Womex, isso provoca-te mais excitação ou nervosismo?
Estaria a mentir se dissesse que não há nervosismo. Mas posso dizer que é muito raro eu não me sentir nervosa antes de começar um concerto. Até preciso de um impulso de nervosismo para poder atuar de outra forma, com mais energia e em que as palavras têm imenso poder e são basilares na linguagem musical. Eu não canto em português, tenho alguns temas em inglês. Isso acaba por ser uma espécie de dificuldade que sinto que pode haver na comunicação. Além das palavras, há também a intenção que está inerente às mensagens das canções e eu tento muito trabalhar isso quando eu estou a comunicar e as pessoas não entendem o que estou a dizer. Por isso, o lado mais espiritual e da alma do que fazemos é tão importante. Como tenho atuado bastante fora de Portugal e fora de Moçambique, é muito interessante que as pessoas se possam emocionar, mesmo quando canto nas línguas [nativas] de Moçambique. Essa é uma parte espantosa que a música tem. Eu, pessoalmente, também trabalho muito esse lado da comunicação na forma como falo e sobretudo na postura que tenho em palco, seja quando danço de forma frenética, seja nos momentos de contemplação e, às vezes, até de choro.

Representando tu a música moçambicana, sentes que isso é um estimulo maior, atendendo que há um conhecimento muito maior da música de Angola ou de Cabo Verde do que de Moçambique?
Para onde quer que eu vá, se perguntar por um nome de um músico moçambicano é muito difícil as pessoas conseguirem dizer. As pessoas conhecem a Cesária Évora, o Bonga, o Paulo Flores. Dentro da África lusófona, há muito mais conhecimento daquilo que é local até mesmo em São Tomé, estou a pensar nos Calema, ou na Guiné, do que em Moçambique, que tem ficado um bocado escondido, não porque não existam enormes talentos. Infelizmente, tem sido muito difícil exportar a música moçambicana, em particular a música tradicional do país. Eu não faço música tipicamente tradicional, mesmo utilizando os instrumentos tradicionais e as nossas línguas. Se por um lado seria muito menos complicado comunicar em português, ou vir de um contexto angolano ou cabo-verdiano, por outro lado ele é muito desafiante para mim no processo criativo para aquilo que faço para comunicar. Acabo por me sentir uma embaixadora da cultura e da música moçambicanas. Isso para mim é uma honra e um prazer, porque estando localizada neste percurso de diáspora, acabo por ter uma outra facilidade de chegar a outros públicos e as pessoas ficam sempre muito curiosas com os sons do timbila e do mbira, com a fonéticas das línguas de Moçambique, com as capulanas [tecidos do país] que estou a usar. Para mim, esse privilégio de dar a conhecer uma pérola que está ainda escondida causa alguma ansiedade e nervosismo mas também me faz sentir muito honrada. Quando estou a falar em embaixadora, não me estou a auto-intitular. Sou alguém que apresenta polirritmias e polifonias que são tão desconhecidas do público em geral. Pelo meio, eu própria vou aprendendo sobre a minha própria cultura. Vivo em Portugal há muitos anos, tenho muito de portuguesa e tenho muita curiosidade de saber muito da cultura do meu país. Estou em constante aprendizagem e há um exercício muito bom para todos nós, músicos e não-músicos, que é a consciência de que nada sabemos e que estamos em constante aprendizagem. Trabalhar artisticamente a nossa ignorância tem imenso valor.   

 

Que Selma Uamusse vamos ter em 2023?
2023 vai ser um ano mais focado em tocar fora. Vai ser um ano mais centrado em mim e no mercado exterior. Estou já a trabalhar com algumas agências que se mexem no circuito internacional. Mas também espero que seja o ano do novo disco. Já estou a trabalhar num novo álbum, num terceiro filho musical. A seguir ao Womex vou para o México em nome próprio e, a seguir, vou estar em Espanha. Vem tudo num pacote harmoniosamente construído. Eu e a minha agência temos estado sempre a trabalhar para podermos internacionalizar ao máximo a minha música, a minha mensagem e a minha arte. Em 2023, vamos poder ter um percurso mais alongado fora de Portugal. Depois, volto para gravar o disco e fazer as mil colaborações que amo fazer, com o Rodrigo Leão, o Moullinex... Vou ter uma colaboração no próximo disco da Surma. 

Sentes que este Womex vai decidir muito o teu próximo ano?
Sempre quis muito tocar no Womex. Não aconteceu antes não só por não o merecer, como não era ainda o tempo certo. Com dois discos, já consigo falar melhor sobre o que é a minha identidade, que pode mudar. Toda a ansiedade que sinto em relação a esta feira é por intuir que este é um momento muito decisivo para a minha carreira futura. Quero acreditar que muitas coisas boas vão acontecer nesta Womex. Muitos de nós debatemo-nos com a oportunidade de poder mostrar o que é a nossa arte. Só o facto de ter 200 delegados e poder ter um que acredita e que faz sentido pode abrir muitas outras portas... E é com isso que estou a contar. É como nos concertos, às vezes tocamos para dez mil ou cem mil, outras vezes tocamos para dez. Mas se houver uma única pessoa que fique tocada com aquilo que estamos a fazer, a nossa missão já está comprida. Que essas portas possam ser abertas, mas se for só uma janela, está tudo bem. Com frutos futuros ou não, vai ser um marco muito importante do meu trabalho.