De fato e sem gravata. Obama fala de IA, liderança e democracia em Lisboa
De fato cinzento e sem gravata, Obama abriu com um "obrigado" em português e lembrou descendentes de portugueses que o acompanharam na Casa Branca, entre eles o conselheiro David Simas, o fotógrafo Pete Souza e recordou Bo e Sunny os cães de água portugueses que fizeram parte da família.
Barack Obama defendeu esta noite, em Lisboa, que a inteligência artificial vai transformar profundamente a economia, a política e a vida social nos próximos anos, mas alertou que a tecnologia não pode substituir o julgamento humano, a empatia nem a democracia. O antigo Presidente dos EUA falou no Game Changers Forum, na MEO Arena, numa conversa sobre liderança, resiliência e mudança.
“Sinto-me em casa”
De fato cinzento e sem gravata, Obama subiu ao palco a agradecer a receção e disse sentir-se “em casa” em Portugal, um dos países de que mais gosta. Brincou com a alteração do ritmo de vida desde que deixou a Casa Branca: dorme mais do que dormia quando era Presidente e passa mais tempo com a mulher e as filhas.
O antigo líder norte-americano explicou que, através da Obama Foundation, trabalha na formação de jovens líderes de todo o mundo, jornalistas, empresários e parlamentares, para enfrentarem desafios como as alterações climáticas. Referiu também que abriu o Obama Center, em Chicago, e que está a escrever atualmente o segundo livro de memórias da sua presidência.
IA exige coordenação internacional
Para Obama, a inteligência artificial será uma das grandes transformações dos próximos cinco a dez anos. Comparou o ritmo atual ao da industrialização: haverá ganhos de produtividade, mas também menos necessidade de pessoas em algumas profissões, "com consequências sociais, económicas e políticas profundas".
O problema, sublinhou, é que a tecnologia avança muito mais depressa do que a capacidade de resposta das sociedades e dos governos. Vamos ter de criar regulamentação, defendeu, alertando que os modelos evoluem rapidamente e aprendem e treinam-se a si próprios, mas podem tornar-se perigosos quando integrados em sistemas críticos como a saúde ou a aviação.
Obama considerou que os Estados Unidos e a China são os países mais avançados em inteligência artificial, mas que a falta de confiança mútua torna a regulação e a coordenação internacionais um grande desafio. Defendeu que a regulação deve começar nos Estados Unidos, reconhecendo que a China é “outro país” e que será necessário coordenar respostas entre nações.
O que as máquinas não substituem
O ex-Presidente destacou as qualidades humanas que acredita continuarem a ser decisivas: cuidar dos outros, ensinar e prestar cuidados. Um bom professor dá confiança a uma criança, algo que uma ferramenta como o ChatGPT pode complementar, mas não substituir; da mesma forma, uma máquina pode calcular a dosagem de um medicamento, mas não consegue tranquilizar um doente.
Obama alertou ainda para o risco de estas profissões, tradicionalmente exercidas maioritariamente por mulheres, continuarem a ser mal remuneradas. Defendeu que o valor humano não se resume à eficiência: amizade, família, solidariedade e sentido do que é importante na vida continuam a ser território humano.
“A democracia não é eficiente e nós queremos democracia”, afirmou, lembrando que muitas das decisões que tomou como Presidente não eram politicamente óbvias, mas eram as que considerava corretas para as pessoas.
Decisões que não cabem aos algoritmos
Recorrendo ao exemplo da Síria, Obama explicou o dilema que viveu enquanto Presidente entre responder ao sofrimento causado pelo regime de Bashar al-Assad e respeitar a ordem internacional, numa situação em que os EUA não tinham sido diretamente atacados. Não podemos passar esta decisão para um algoritmo. "É preciso decidir”, disse lembrando que um Presidente não deve avançar para uma guerra sem aprovação do congresso.
Foi essa convicção que o levou a afirmar que nunca poderá existir um modelo de inteligência artificial sem intervenção humana a decidir quando lançar um ataque nuclear. Para Obama, formar as próximas gerações com ética, valores e respeito por outras culturas é tão importante como desenvolver competências tecnológicas.
Quanto à indústria tecnológica, disse conhecer bem os líderes das grandes empresas, lembra-se do os ver crescer durante a sua presidência, e considerou que, apesar de muito inteligentes em alguns aspectos, muitos têm uma formação demasiado "restrita", com pouca relação com os romances clássicos, a música, as artes ou a literatura.
Liderança em tempo de medo
Obama argumentou que, em períodos de disrupção, como este que vivemos, as pessoas tendem a sentir-se inseguras e a fechar-se em identidades sectárias ou nacionalistas. Lembrou a Europa, que vive o mais longo período de paz e de prosperidade da História, e citou o exemplo da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto como alerta para o perigo de uma liderança que exalta a própria “tribo” exigindo a derrota ou a destruição da outra.
Os líderes, defendeu, devem representar o seu povo, a sua cultura e a sua história, mas devem ser ser capazes de reconhecer e respeitar os outros, e que existe uma humanidade comum. “Esta é a liderança de que precisamos”, sublinhou.
Democracia é frágil
O antigo Presidente sublinhou que a democracia é muito recente na história da humanidade e assenta numa ideia frágil: a igual dignidade de todos os cidadãos perante a lei. Essa ideia, disse, tem de ser continuamente alimentada.
Alertou para o regresso de nostalgias de sociedades hierárquicas, em que as mulheres e as minorias conheciam “o seu lugar”, e defendeu que é preciso afirmar um país em que filhos e filhas tenham as mesmas oportunidades e em que vizinhos sejam iguais.
Obama criticou ainda instituições que se tornaram demasiado burocráticas e tecnocráticas, capazes de falar sobre os problemas mas lentas para agir. Referindo-se à Europa, reconheceu o progresso, a prosperidade e a paz alcançados nas últimas décadas, mas avisou que, quando as pessoas sentem que a habitação é inacessível e que tudo exige dezenas de reuniões, a frustração cresce e abre espaço a líderes que prometem governar quebrando regras.
De Chicago à Casa Branca
Obama recordou que não pensava ser político quando estava na universidade. Foi influenciado por Martin Luther King e pelo movimento dos direitos civis nos EUA, além de Gandhi, e começou por trabalhar ao nível local, na organização comunitária em Chicago.
Aprendeu, disse, que a mudança começa quando as pessoas têm espaço para falar por si e são ouvidas, sobre as escolas, os bairros, a criação dos filhos ou os espaços públicos. Referiu o movimento pelos direitos LGBTQIA+ nos EUA como exemplo: avançou porque pessoas corajosas reclamaram o seu lugar, até que a perceção social mudou e os políticos agiram.
Como Presidente, dizia ouvir todas as perspetivas na Situation Room, incluindo as dos mais jovens e dos que estavam “atrás” dos chefes. “Eles sabiam mais do que os seus chefes”, afirmou, defendendo que foi eleito não apenas pelos discursos, mas porque deu poder aos jovens.
Contra as bolhas digitais
Obama lamentou o enfraquecimento das formas tradicionais de encontro comunitário, igrejas, sindicatos, associações, que criavam relações e sustentavam a democracia. Hoje, com todos “agarrados ao telefone”, as interações são mais virtuais e tendem a criar bolhas.
“Quando conhecemos as pessoas, elas são mais complexas”, disse, argumentando que as ligações humanas se constroem nas interações diárias e não em teoria ou a nível nacional.
“Yes we can”
O maior desafio atual, resumiu, é que muitas pessoas sentem que as coisas lhes acontecem sem terem controlo. É preciso criar oportunidades para que sintam poder de decisão sobre as suas vidas: nas escolas, nas empresas e na política.
Nas escolas, criticou o modelo em que os professores “debitam” e os alunos ouvem, defendendo projetos em que os jovens tenham de resolver problemas. Com a IA, avisou, haverá uma tentação ainda maior de usar atalhos e deixar a tecnologia decidir por nós.
Obama apelou a mais tempo e menos pressa: relacionar-se, cozinhar, comer em família ou conversar no mercado são experiências que não se reduzem à eficiência. “Os prazeres da vida não são rápidos”, afirmou.
Começar pelo primeiro passo
No fecho, Obama encorajou cada pessoa a escolher uma causa, seja um ambiente de trabalho mais respeitador, a comunidade onde vive, um problema concreto, e a usar a influência que tem para fazer a diferença.
Recordou que, quando entrou na política, percebeu que os adultos nem sempre sabem o que fazem e que ninguém é mais qualificado do que cada um para começar. “Comece um projeto. Se precisar de aprender mais, procure quem saiba mais. Aí a mudança acontece.”
Citou Nelson Mandela como exemplo de quem deu o primeiro passo: encontrar um propósito, avançar, e depois dar o segundo. “Acabas por vir a falar em frente a milhares de game changers, em Lisboa”, concluiu.
