Sérgio Godinho: "a definição de liberdade é na prática. É saber quando está ameaçada"

O músico, compositor, escritor e um dos nomes maiores da cultura portuguesa celebra hoje 75 anos. É também o dia em que dá início a uma série de concertos no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Conversámos com Sérgio Godinho sobre os concertos, os desafios do "novo normal" e a liberdade.

 

Sérgio Godinho celebra hoje 75 anos. É também o dia em que o músico, compositor e escritor começa uma série de concertos no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Seria apenas um único espetáculo, mas a corrida aos bilhetes fez com que fossem acrescentadas mais três datas: dias 1, 15 e 21 de setembro

No passado dia 21 de agosto, Sérgio Godinho lançou 'O Novo Normal', o primeiro original desde a edição do disco "Nação Valente" de 2018. Se a pandemia teve o poder de confinar o mundo a quatro paredes, não pôde confinar o impulso criativo e irrequieto do músico que, no próximo ano, vai celebrar 50 anos de canções

O contexto pandémico serviu a criação do novo tema que também vai ser ouvido no Teatro Maria Matos. Para a composição musical, Sérgio Godinho rodeou-se de Nuno Rafael, o seu director musical e o motor dos Assessores que asseguraram a instrumentação. Samuel Úria, novo em matéria de parcerias com o veterano Godinho, deu uma ajuda na composição da música. Joana Linda realizou o vídeo que documenta o regresso ao estúdio depois do confinamento.

É o olhar, mais do que apurado, de Sérgio Godinho, sintetizado em quatro minutos, sobre o que é, afinal, o "novo normal", uma outra "frase batida" que se pode desdobrar em inúmeras reflexões.

Na forma de canção e ou dando corpo à realidade que estamos a viver, o "novo normal" serviu de ponto de partida para uma troca de impressões com um dos nomes mais importantes da música portuguesa. Aos 75 anos, Sérgio Godinho, mestre da palavra e do significado, continua a intuir a liberdade e a fazer do palco uma casa privilegiada de afetos e emoções. Parabéns, Sérgio Godinho.
 

Antes deste novo normal, houve o confinamento. Como é que viveu esses meses?

[Essa fase] acaba por estar refletida na canção. O tema 'O Novo Normal' é uma espécie de fresco. Foi um tempo estranhíssimo para todos nós, nunca vivido desta maneira. Eu estava fora de Lisboa, num sítio onde, apesar de tudo, tinha algum espaço. Não é a mesma coisa que estar confinado dentro de quatro paredes, num apartamento. Quando isto tudo começou, houve uma certa dificuldade em nos concentrarmos noutras coisas que não nas notícias diárias, no que ia acontecendo. Pouco a pouco, embora isso continuasse a estar presente, pude continuar a tratar de assuntos criativos. Foi no seguimento disso que, um pouco mais tarde, surgiu esta canção. Todos os dias trabalho um bocadinho. É uma forma de pensar noutras coisas. Vou a meio de um terceiro romance e estou a trabalhar num livro de poesia, que era para sair este ano mas afinal só sairá no próximo. Acho que é importante termos outros assuntos em mente que não este assunto hegemónico que já nos cansa a todos.
 


Que pensamentos é que o invadiram durante esse período? Foi mais otimista, mais pessimista ou ambos, dependendo dos momentos?

Não sei se usaria a palavra otimista. Creio que sou mais positivo que negativo. Acho que vejo as coisas de uma forma mais positiva, porém, as notícias encostaram-nos a um canto. É como digo na canção: 'há cidades inteiras por onde rasgaram invisíveis poeiras'. Começou por ser uma ventania longínqua, chamemos-lhe assim, que se foi aproximando. É uma situação muito preocupante, mas para a qual temos de estar preparados. Temos de viver com isso. Há dias mais pesados, sim. Tenho um amigo que esteve internado e chegou a estar ventilado. Felizmente, já está em casa, está fino. Mas são, sobretudo, as consequências que me preocupam. As consequências, a nível de trabalho e de sobrevivência, são bastante desanimadoras. Tinha vários concertos marcados para o mês de abril, além de um novo projeto. Foi tudo adiado ou cancelado. Uns foram adiados, outros cancelados. 

Sentiu logo um impulso criativo para compor uma canção ou esperou para amadurecer as ideias?

Só comecei a compor no segundo mês. De repente, comecei a pensar que a frase "o novo normal" estava muito batida. Quis encontrar uma forma de a retratar, de tentar confiná-la, no sentido de síntese, nos quatro minutos de uma canção. (risos) Não foi uma coisa imediata. É raro escrever em cima do acontecimento. Preciso de um certo recuo, gosto disso. Não sou um imediatista. As coisas não me saem assim. Não saem logo feitas. Deu bastante trabalho. É um trabalho laborioso para encontrar a frase, a rima e a métrica certas para depois conjugar com a música. É um trabalho progressivo A música também levou algumas transformações. O Nuno Rafael e o Samuel Úria estiveram a colaborar na transformação da música. Foi um trabalho partilhado.
 


É uma canção isolada ou está a trabalhar noutras canções?

Neste momento, é uma canção isolada. Tenho estado a compor para outros. Às vezes componho a letra e a música, outras vezes só escrevo a letra. Fiz duas canções para o último disco dos Clã, ['Oh Não! Outra Vez' e 'Tudo no Amor']. Estou a pensar cantar nos espetáculos do Maria Matos uma dessas canções, a 'Tudo no Amor'. Também estou a fazer uma canção para o Camané. Mas não tenho nenhum projeto com um conjunto de canções, um disco. Estou noutras zonas criativas, mas foi bom voltar a compor, embora por razões que não são as melhores.  
 

 

Em relação à letra, gostaria de falar consigo sobre algumas frases, apesar de cada pessoa poder fazer a sua própria leitura. Quando canta: "um terreno minado de acasos", o que é que isso significa?

Eu nem gosto muito de explicar precisamente por isso. Cada um terá a sua leitura e é isso que torna a letra interessante. São as leituras múltiplas que tornam interessante o alcance de uma canção. De qualquer maneira, falando simbolicamente, é sobre a ideia de quando pomos um pé à frente do outro não sabermos se o chão vai explodir. Essa metáfora das minas de guerra tem a ver com este bicho invisível que não se sabe muito bem onde se esconde e onde se mostra. A canção tem várias metáforas desse estilo. 
 

 

E "escolha bem as audácias". Que audácias são essas?

Quer dizer que temos de arriscar um bocadinho. Não podemos viver no medo. Essa frase vem na sequência de outras frases, como "mantenha as distâncias", "respeite os espaços", "refreie as audácias". "Escolha bem as audácias" é sobre as audácias a que nos podemos permitir dentro desta autodisciplina que gostaria que toda a gente tivesse, mas que nem toda a gente tem. Eu próprio tenho de escolher algumas audácias. Se assim não fosse, não sairia do quarto ou da minha sala. (risos)

Também canta que "nada vai ser igual". O que é que acha que mudou para sempre?

Isso foi uma reação ao slogan "vai ficar tudo bem". É um slogan que considero ser um pouco bacoco, apesar de bem-intencionado. Claro que não pode ficar tudo bem. Sobretudo nada vai ficar igual. Para já, ainda estamos numa fase em que temos de nos proteger. Temos de ter cuidado a vários níveis. A nível respiratório, como é evidente, mas não só. Temos de ter cuidado no ato da partilha e no facilitismo em que podemos cair. Acho que ainda haverá muitas consequências, nomeadamente na saúde e na economia. Toda a gente fala das várias vacinas que estão a ser estudadas, mas podemos estar a dar um passo maior que a perna. Há vários casos assim. Na Rússia está a acontecer isso. Até tudo isto estar normalizado, será o tal "novo normal". Viemos de um trauma grande, acho que ainda vai demorar muito tempo até ultrapassarmos isto. É preciso que a vacina seja eficaz, temos de saber por quanto tempo é que será eficaz e ainda tem de estar disponível para toda a população. Em Portugal, felizmente, o movimento antivacina não tem muita expressão, mas há países onde não só há esses movimentos como há pessoas que estão contra o uso de máscara. São coisas básicas de proteção e até de solução do problema.

Há algum aspeto positivo que possa resultar desta experiência coletiva, inédita no mundo contemporâneo, tendo em conta as diferentes reações de cada país ao mesmo problema?

Para já, convém tirar de lá o [Donald] Trump. (risos) A política nem sempre é consensual dentro de cada país. Falei no caso do Trump porque as coisas estão terríveis nos Estados Unidos. Pode acontecer algo de positivo que é ele não ser reeleito. Se o Trump fosse reeleito, seria algo dramático e muito trágico. Acontece o mesmo noutros países. Estou a pensar no Brasil, por exemplo. Nem toda a gente concordará com o [Jair] Bolsonaro. Espero que não. Sei que não. A política oficial de cada país, muitas vezes, é uma falta de política, como é o caso do Brasil. É uma espécie de desvario, uma política de "deixa andar" horrível. Sobretudo tem de se encontrar estratégias comuns. Na União Europeia já se esboçou algo nesse sentido. Até se fez mais que isso, mas há países com interesses muito diferentes uns dos outros. Falo a nível económico porque, neste momento, tudo passa pela economia. É outra crise, outro vírus. Essas soluções económicas comuns, mesmo que o consenso seja mínimo, são absolutamente necessárias.  

 



E em relação à suspensão forçada da vida dos palcos, como é que olha para os apoios do Governo para o setor?

De modo geral, a nossa vida de artistas, neste caso de músicos, é muito precária. É assim desde sempre. É evidente que, no meu caso, tenho os direitos de autor, embora não sejam uma fortuna em Portugal. Mas nós vivemos sobretudo dos concertos que fazemos. Se não houver trabalho, não se come. Há muitos casos extremos. [A atividade] está a regressar a pouco e pouco, apesar de uma forma muito condicionada, mas acho que o poder político também tem de ser mais ativo. Primeiro, reagiu com apoios absolutamente ridículos, depois alargou mais os cordões à bolsa mas foi dando tiros ao lado. Há um comportamento errático da parte das entidades culturais que considero lamentável e preocupante.
 



E acha que o setor está suficientemente unido para a luta?

É um conceito muito difícil de definir. Há interesses comuns, mas não há uma frente unida a nível ideológico, de escolhas. Estamos todos a sofrer diariamente as consequências nas nossas vidas e, nesse sentido, há uma espécie de solidariedade natural que é importante. Não pude ir à manifestação que os técnicos de palco, da luz, do som e os roadies fizeram recentemente mas aplaudi no meu Facebook. Isto é um trabalho conjunto, de grupo. Quando vou para a estrada somos cerca de doze pessoas. Há gente da produção, da luz, do som, os próprios músicos, etc. Tudo isto é um trabalho coletivo. O facto de estar no centro das atenções num concerto não desfoca tudo o que está ao lado.
 



O Sérgio foi um dos signatários da carta aberta que juntou mais de 200 escritores lusófonos contra o racismo, a discriminação e populismo. Sentiu que era importante juntar a sua voz a esta causa, nesta altura?

Foi quase natural. Os acontecimentos recentes e o advento de partidos e movimentos de extrema-direita, xenófobos, racistas, populistas, demagógicos obrigam a essa reação. É uma reação que tem de ser desdobrada em ações concretas por parte de todos nós. Nos concertos falo desse género de coisas. Outros falarão noutros fóruns. Acho que é importante. 
 


No dia 31 de agosto, celebra 75 anos. Nesse dia arranca também a série de concertos que vai dar no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Como é que está a preparar o alinhamento para o concerto que também é a sua festa de aniversário?

Eu faço 75 anos. Ainda por cima é uma data redonda. Ia fazer uma festa para os meus amigos, mas, como é evidente, não é viável. Já basta as festas em que toda a gente sai de lá infetada. Não queremos ser um triste exemplo. Foi então que surgiu a ideia de estarmos no palco, que é o nosso território natural. Não é propriamente um concerto dedicado aos meus 75 anos. São as minhas canções, existem por elas próprias. Foram sendo compostas e cantadas ao longo dos anos. De certo modo, vai servir para refrescar um pouco o material. Vou cantar algumas canções que não estavam no repertório há muito tempo ou que nunca estiveram. Vamos tocar 'O Novo Normal', claro. A ideia é não fazer exatamente o mesmo concerto. Serão concertos com características diferentes para não dar sempre a mesma coisa às pessoas. Tudo isto sobrepõe-se ao facto de fazer 75 anos. É um pretexto. (risos)
 



Tem estado a acrescentar datas, não tarda é uma residência... (risos)

O Teatro Maria Matos não é muito grande e só se pode ter metade da lotação. Como o primeiro concerto, a 31 de agosto, esgotou logo, abrimos as restantes datas. (...) É bom que isso aconteça, que o público responda. O público quer concertos. Lá está, também é um ato de ousadia. É uma audácia ir e estar num concerto, apesar de uso da máscara. Fico muito contente porque o palco é o meu terreno natural. Eu sinto-me em casa no palco. Interajo com o público, com os músicos. Há energias e emoções que se transmitem de um lado ao outro. Sinto falta disso.
 


São emoções que se transmitem mesmo que o sorriso esteja coberto...

E de que maneira! Se eu fosse cego também sentiria as emoções e as vibrações das pessoas. Claro que o público ter máscara não ajuda, mas nós, no palco, estaremos sem máscara.

Aos 75 anos, qual é a sua definição de liberdade?

É algo muito intuitivo. É uma definição que existe desde que me conheço. A definição de liberdade é na prática. É a tentar praticá-la. É saber quando está ameaçada. É tentar não cair nas armadilhas que nos acorrentam, que, muitas vezes, nos prendem. Nem sempre é fácil. Afetiva e amorosamente, a minha vida teve vários capítulos. Nas escolhas profissionais e perante a vida, perante o que se faz é saber preservar essa noção que, no fim de contas, não cabe numa única palavra, embora essa palavra seja a palavra liberdade. Mesmo na minha canção, 'Liberdade', eu digo que só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, etc. [A palavra liberdade aplica-se] a muitas outras coisas como a justiça ou a sede de melhorar as nossas condições e as condições dos outros. É uma palavra que tem múltiplos significados.     
 




Sérgio Godinho também deu a mão à União Audiovisual, grupo informal que está a ajudar os profissionais do setor que estão a atravessar dificuldades devido às consequências da Covid-19. Quem quiser poderá levar para os concertos bens alimentares não perecíveis que serão posteriormente distribuídos pela UA a quem mais precisa.