Shane MacGowan: o romântico rufia dos Pogues

A fábula trôpega de 'Fairytale of New York' é das canções mais humanistas de sempre.

Dir-se-ia que com a morte de Shane MacGowan, e com a precipitação das emoções, que o Natal sem ele passará a ser menos brilhante e de cores mais baças. Mas, na verdade, teremos sempre connosco o grande tema natalício dos Pogues de que foi vocalista, 'Fairytale of New York', a dar ainda mais magia à época das decorações de luzes faiscantes de ruas e das montras a simular neve. Mas 'Fairytale of New York', tema de 1987, vai ainda longe, fora do alcance do mercado, ao fundo da alma, aos bolsos rotos de um casal de vagabundos que sonhava.  

Shane MacGowan era a alma dos Pogues: celta, punk, romântico, rufia, genial. O cantor passou o início da infância no campo da pobre Irlanda, numa casa sem luz e sem água, até emigrar com a família para o sul de Inglaterra. Durante esse período de difícil integração na sociedade inglesa, ouvia-se e dançava-se folk irlandesa na casa dos seus pais. Essa infância de MacGowan influenciaria, e de que maneira, a música dos Pogues que se formariam em 1982.

Durante a vida boémia em Londres, o bastante jovem Shane MacGowan testemunhou  a explosão do punk em 1976, Shane MacGowan destacou-se pela sua agitação no meio do público, em concertos dos Clash e dos Sex Pistols. Como espectador, já atraía a objectiva dos fotógrafos, e é até captado com um casaco da bandeira da Grã-Bretanha.

 

Era a altura em que qualquer um podia formar uma banda. Shane MacGowan não foi excepção e deu voz aos Nipple Erectors, onde revelou logo duas aptidões: o carisma em palco e o jeito para as canções, incluindo baladas. O seu estilo de cantar rufia e a sua alma punk foram aprimorados nos Pogues. Para uma banda de música irlandesas republicanas, os Pogues apareceram na pior altura, durante uma campanha anti-IRA e em que havia um forte sentimento anti-irlandês na sociedade inglesa. A estreia ao vivo num bar londrino, ainda sob o nome de The New Republicans, foi diante de militares britânicos que os atiraram com o que tinham à mão, isto é, fish & chips. 

Também na Irlanda, os Pogues são rejeitados nesta difícil primeira metade dos anos 80. A mistura de folk irlandesa com punk é mal vista nalguns sectores mais conservadores da Irlanda, por trazer de volta alguns fantasmas de folk delinquente. Ainda por cima de uma banda vinda de Inglaterra que tocava música celta, como era o caso dos Pogues.

 

Os Pogues aparecem em contraciclo com um período dominado pelos sintetizadores e pelo neo-romantismo, como um bando de punks com lata para fazer folk irlandesa. E conseguiram-no de forma bem diferente, inventando uma nova fórmula: o folk-punk.

Shane MacGowan berrava como um punk, o flautista Spider Stacy dava cabeçadas violentas na pandeireta. Os Pogues pareciam uma comédia. O desdentado Shane MacGowan, com as suas orelhas de abano, pintou com as cores irlandesas uma banda que era quase toda composta por ingleses. Os Pogues eram os londrinos mais irlandeses de sempre.

Em 1984, os Pogues lançam o seu primeiro álbum, "Red Roses for Me".

 

Shane MacGowan expôs ao público rock o charme das canções de pub irlandesas. As músicas com bafo de Baco herdam o humor negro dos Dubliners, em especial de Ronnie Drew, mas o vocalista dos Pogues é mais directo e menos codificado. Os Pogues e os Dubliners juntam forças em 1987 na versão do tradicional 'The Irish Rover', um conto ébrio narrado pelo único sobrevivente de um barco desgraçado e naufragado.

 

Genuinamente irlandeses, mesmo que londrinos, os Pogues atraem um numeroso público jovem descendente de irlandeses. Shane MacGowan torna-se a voz dos irlandeses sem terra, renegados pelo país Natal e nunca totalmente integrados na sociedade inglesa.

Melancolia e festa intercalam-se nos Pogues. Quando a melancolia toca mais, as canções de Shane MacGowan distinguem-se pela sua sensibilidade. É o que acontece na canção de 1986, 'A Rainy Night In Soho'.

 

Os Pogues foram crescendo de pub em pub, de sala em sala, até finalmente encontrarem a sua grande canção natalícia, o tema Fairytale of New York, que ao fim de mais de trinta anos continua a ser recuperada nesta época. Os Pogues inventaram a canção natalícia mais trôpega de sempre, sobre o emigrante irlandês perdido em Nova Iorque, na vagabundagem alcoólica, que termina a noite de Consoada numa cela. 'Fairytale of New York' é um diálogo brilhante entre Shane MacGowan e a cantora Kirsty MacColl, do sonho nova-iorquino ao som do swing de Sinatra até à linguagem de rua.

A canção demorou três anos a ser lapidada até de repente Shane MacGowan ter o rasgo de convidar a mulher do produtor Steve Lillywhite que estava ali no estúdio, a versátil Kirsty MacColl.

O tema folk ganha uma grandiosidade sinfónica, inspirado pelo pico da emigração irlandesa para Nova Iorque nos anos 80. O actor Matt Dillon faz de polícia no vídeo, onde vemos Kirsty MacColl encostada no piano tocado por Shane MacGowan, com uma garrafa e um copo à mão e um cigarro a fumegar no cinzeiro. O vídeo onde caem flocos de neve e bêbados no chão termina com a dança entre Shane MacGowan e Kirsty MacColl a sonharem a sua valsa.

Os vagabundos têm finalmente a sua canção de Natal e a talentosa Kirsty MacColl viu finalmente a sorte sorrir-lhe com um tema à sua altura.

 

Os Pogues estavam então no apogeu das suas potencialidades quando gravaram este álbum de 1988 "If I Should Fall from Grace with God", que regista uma maior participação de outros membros da banda.

Uma das mais grandiosas é mesmo de Philip Chevron, chama-se 'Thousands Are Sailing' e claro é sobre emigração.

 

No auge da sua popularidade, os Pogues vêm em 1989 a Portugal e enchem o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e o Pavilhão das Antas, no Porto. O concerto de boa memória no Coliseu dos Recreios é interrompido quando Shane MacGowan se apercebe que perdeu o seu anel de estimação. A banda de Shane MacGowan influencia a música portuguesa, sobretudo bandas como os Essa Entente e os Sitiados.

Música e álcool e drogas confundem-se na vida de Shane MacGowan, até à destruição e ao despedimento da banda. O cantor entra num Baco sem saída. O comportamento errático de Shane MacGowan leva à sua saída dos Pogues em 1991.

Brilhante a cantar histórias sobre vagabundos bêbados, Shane MacGowan forma os Popes e torna-se finalmente uma figura respeitada na Irlanda ao longo dos anos 90. Nessa altura, fez em 'Haunted' um dueto com outro ícone da música irlandesa que morreria também neste ano de 2023, Sinéad O'Connor, .

 

Os Pogues reagruparam-se neste século apenas para concertos esporádicos, já com Shane MacGowan de volta. 

Shane MacGowan morreu com 65 anos. Ele era o homem das boas festas. Brindemos a ele e à sua eternidade.