Silence 4 com a "grande família" na MEO Arena

Primeira de duas noites seguidas na grande sala do Parque das Nações, em Lisboa.

Os Silence 4 estiveram nesta sexta-feira na MEO Arena, como se estivessem em sua casa. O facto da MEO Arena ser um pavilhão que pode chegar às 20 mil pessoas é só um pormenor. A banda de Leiria partilhou com os seus muitos milhares de espectadores uma zona de conforto onde se foi feliz. Foi uma noite de reavivamento de memórias e histórias, e com muitos afetos e emoções à mistura.

Os Silence 4 escolhem iniciar um espetáculo de grande envergadura da forma mais discreta, com ‘Goodbye Tomorrow’, aos sussurros, em regime slowcore, não muito longe do som dos Red House Painters de quem David Fonseca era admirador. Tínhamos que ver os Silence 4 a olho nu, sem ecrãs a ampliá-los e à antiga.

À segunda da noite. ‘Old Letters’, começa o efeito Imax, com quatro telas enormes e verticais e um palco redondo e listado, cheio de luzes. A cantora Sofia Lisboa puxa pelo público, a tentar reações. E David Fonseca relembra a história já contada de a editora só os contratar se apresentassem temas em português. Uma das cartadas da banda aspirante era um tema com Sérgio Godinho, ‘Sexto Sentido’. Não esteve cá Sérgio Godinho. Mas a parelha vocal entre David Fonseca e Sofia Lisboa esteve bem avivada na sala do Parque das Naçóes.

‘Borrow’ só pegou à segunda. O sucesso mais imprevisto dos anos 90 foi cantado a meias com o público. Sofia Lisboa passarica pelo palco e assume muitas das despesas vocais do tema, enquanto ergue os braços no ar, sempre a procurar a interação com o público.

Parecíamos estar muitas vezes na sala de estar dos Silence 4, com trocas de comentários entre eles, mas com uma multidão enorme a ouvi-los. Por exemplo, Sofia Lisboa confessa apaixonar-se por David Fonseca sempre que escreve em português. Estava dado o mote para o tema ‘Não Sei Dizer’, e de repente, os Silence 4 soam a outra banda. O seu intimismo agiganta-se ainda mais.

Mas nada é mais intimista que o momento em que David Fonseca e Rui Costa se sentam quase lado a lado, para interpretarem Cry e ainda uma “versão de um versão”, um descarnamento ainda maior do tema dos Erasure, ‘A Little Respect’, só a dois. Mas a dessincronização obriga a um segundo take.

Depois, Sofia Lisboa faz um discurso sentido de incentivo à doação de sangue e de medula, e invoca a sua experiência pessoal de um passado de luta contra um cancro. A cantora inspira uma enorme ovação, em solidariedade com o que viveu há mais de dez anos, quando tentava superar uma leucemia. Este discurso sentido aconteceu antes da canção ‘Angel Song’.

Paulo Pereira é o quinto membro dos Silence 4 em palco, com um desempenho essencial nas teclas. Às vezes, Paulo Pereira é bem mais do que o quinto membro, tal como se nota em ‘Not Brave Enough’, quando entramos pelas canções adentro do segundo álbum “Only Pain Is Real”. Na balada ‘To Give’, o trabalho teclado é ainda mais essencial, até chegarmos a ‘Only Pain Is Real’, uma música mais empolgada, muito encorpada pelo baixo volumoso e cintilada pelos vários efeitos dos teclados.

‘My Friends’ é o mais próximo do rock e da algazarra que os Silence 4 têm no seu reportório. É o tema que levanta toda a sala e não ‘Borrow’. ‘Sleepwalking Convict’ é o fade out do concerto, com Sofia Lisboa a cantar sentada no chão. 

No encore, os Silence 4 tocam um dos temas do recente álbum “Rarities”, ‘Transplantation’, antes de tocarem ‘Breeders’, que reflete a imagem típica dos Sileve 4, com David Fonseca a comandar tudo com a sua voz forte, Sofia Lisboa a reforçar a camada vocal de forma mais aguda enquanto anda pelo palco enquanto que Rui Costa manobra o seu baixo de canhoto com um braço do instrumento que o supera em altura 

As três músicas finais do concerto tornam qualquer cadeira um objeto inútil. O público não mais se sentou a partir do momento em que ouviu ‘A Little Respect’, agora só a versão, já com a banda toda envolvida, até porque mudando-a dá a legitimidade para a tocar outra vez,

Sofia LIsboa enaltece a “grande família” que enche a MEO Arena, enquanto David Fonseca lembra o berço das canções, ainda quase no anonimato. Volta-se a ‘Borrow’, enquanto que Sofia Lisboa sai do palco para abraçar o público. A assistência substitui as vezes vocais de Sofia, que já está no papel de espectadora. Outro bis é o de My Friends, com o seu andamento à Lemonheads, a fechar o concerto de quase duas horas.