Simone de Oliveira: quem vive assim vive por gosto
Aplausos de pé. Aplausos demorados. Aplausos à mulher que hoje disse adeus aos palcos mas não a nós.
"Amor, amor, amor, amor, amor presente". Muito amor. Tanto amor. Também gratidão - de um lado e do outro. E liberdade. Liberdade a sério. A verdade da liberdade. Enfim, um privilégio existir assim. É o que pode caber nas reticências de "Sim, sou eu... Simone" - o último espetáculo de uma das nossas grandes vozes, acolhido graciosamente no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. A sala estava cheia e o coração ficou. Nas reticências cabem 65 anos do percurso honesto e destemido de Simone de Oliveira pela existência artística e 84 pela existência. Percurso, palavra que a própria prefere em vez de carreira, que foi celebrado com uma troca sincera de agradecimentos e muitos aplausos de pé. "Termino a minha carreira nos termos que eu quis e quero", disse-nos, comovida com os afetos do público mas inquebrável no desígnio de terminar em grande.
Simone de Oliveira despediu-se dos palcos, mas foi uma despedida que nunca será um adeus. "Subirá" ao palco, enquanto o tempo for tempo, o mundo for mundo, a canção for canção ou a poesia for poesia - nem que seja ao palco das memórias bem acomodadas ou ao palco do futuro quando reinventada nas gerações que queiram herdar de si a paixão pelo canto, pela vida, pelas palavras, pela força. Simone de Oliveira permanece em nós. "Um artista pode ganhar uma nova vida, um novo fôlego. Só espero que continuem a reinventar-me. Só assim é que eu renasço", confidenciou-nos, às tantas. Talvez tenha sido por isso que, ao longo do espetáculo, Simone gentilmente entregou algumas das suas canções a artistas que andam nisto há menos tempo, vozes que escolheu de diferentes esquinas musicais. Entregou-as a DJ Kamala, Carlão, Edmundo Inácio, Rúben Madureira, FF, Sissi, Marisa Liz e Aurea. Contamos tudo mais à frente.
Os arranjos e pormenores do espetáculo foram tecidos com extremo cuidado, profundo respeito e amor. A direção musical ficou nas mãos de Nuno Feist e a encenação nas do irmão, Henrique Feist, dois companheiros e cúmplices de Simone que soltou a voz ainda atrás do pano, para cantar 'Preconceito' - a primeira da noite. Só a voz bastou para arrancar um aplauso demorado ao público que, de imediato, se levantou para a receber. Elegantemente vestida de preto, com tiras brancas a percorrer os braços, a figura de Simone foi aparecendo no palco, enquanto a cortina ia sendo levantada, sem grandes pressas. "Escolhi a canção 'Preconceito' porque ainda existe. Ainda é uma triste realidade", disse. "Temos de lutar para que deixe de existir", lembrando que também assim se exercita a liberdade. "Ser livre são as palavras que vos deixo neste último espetáculo".
As palavras "livre" ou "liberdade" soam bem na voz de Simone. Sempre soaram. São, aliás, a espinha dorsal dos desígnios de uma mulher que, como bem sabemos, além de impressionar sem esforço os que se cruzam consigo e de inspirar de autenticidade quem lhe segue os passos, coloca a força dessa liberdade na voz. Tal como a liberdade também a poesia lhe é cara. Simone cantou e honrou a expressão de poetas ao longo da vida. Esta noite, declamou a arte de alguns. 'Não Sei Quantas Almas Tenho', de Fernando Pessoa, foi o primeiro a ser ouvido, em silêncio, na sala lisboeta. Seguiu-se a canção 'Vida', envolvida em sopros e cordas, e mais um poema - agora de Ary dos Santos, amigo de casa de Simone.
Sete Letras, elegia à volta da palavra "saudade" (escrita precisamente por Ary dos Santos), antecedeu a solenidade de 'No Teu Poema', que escorreu, com beleza e imaculada, do piano e da voz. 'Tango Ribeirinho' seguiu-lhe as pisadas até ao momento em que ouvimos outra partilha confessional e saudavelmente retrospetiva de Simone. Lembrou outros ofícios, além do ofício do domínio da canção. Lembrou o teatro, o cinema, a televisão e até a rádio. E lembrou os palcos. Tantos que foram. "Pisei palcos em várias partes do mundo. Fui agraciada, premiada. Perdi a voz, ganhei outra. Reinventei-me. Agora quero estar leve, sem horários, sem stress. Quero aprender sem obrigação", contou-nos. 'Pingos de Chuva', a canção que veio a seguir, foi caindo, com calma e contemplação, ao som do violino e do piano e com a elegância natural de Simone enquanto encostava o microfone ao peito.
O dramatismo intensional de 'Degrau a Degrau', com Simone envolta num cenário avermelhado, só foi serenado com outro poema - agora assinado pelo poeta David Mourão-Ferreira. "Foi um dos poetas que cantei", disse-nos antes de dar vida a 'E Por Vezes'. O piano acompanhou.
"Tenho a curiosidade do futuro", contou-nos, porém, sem nos surpreender. Conhecemos a voracidade de Simone pelo que se esconde no mistério do que está por vir. "Fui rebelde. Vivi uma vida muito bem vivida. A sério. Usando a frase do meu amigo Fernando Tordo, a minha vida é aquilo que eu quiser", acrescentou ao desabafo e debaixo de um sentido aplauso.
Se o espetáculo estivesse dividido em atos, como no teatro - outro posto artístico de Simone -, seria agora o momento do início do segundo, com a entrada em cena dos tais convidados que mencionámos em cima, à exceção do DJ Kamala que deu ao público uma transformação improvável da 'Desfolhada' não muito depois das primeiras canções.
Carlão, vindo do lado direito do palco, juntou-se, com emoção e reverência (até se ajoelhou!), a Simone no tema 'Não é Verdade', canção que esta noite ganhou rimas, outro ritmo e que acabou com os dois nos braços um do outro. Depois de gabar os olhos do músico, Simone confidenciou que a tarefa de convencê-lo a subir ao palco não foi propriamente fácil. Percebemos porquê. É uma aventura para meter respeito. "Tive de lhe dizer que não mordo", contou com um sorriso.
"O que me dá esperança no futuro é ver a malta nova a cantar bem. É importante para mim e é importante para a cultura do país. Será que daqui a dez anos ainda vão cantar 'laralaralaralara’ [da canção Desfolhada]?", questionou a dada altura. Claro que sim, Simone. Assim será 'até que a voz nos doa' e mesmo que doa. Edmundo Inácio, o jovem cantor que subiu ao palco logo depois, deve achar o mesmo. Coube-lhe a responsabilidade de cantar o 'sagrado' Sol de Inverno e sozinho, com Simone "na primeira fila", a esboçar um sorriso confiante por ver que o legado está em boas mãos.
Já perto do final, a cantora agradeceu a uma multidão de gente. Simone não se esqueceu de ninguém. Agradeceu a todos os que lhe deram a mão para trilhar o percurso que hoje celebrou. A todos. Público, técnicos, contra-regras, costureiras, a senhora que esta tarde lhe levou o café, comunicação social, músicos, maestros, colegas e poetas. "Aprendi com todos".
'Apenas o Meu Povo', já com a cortina quase a fechar, chegou de forma surpreendente. Simone cantou-o com mais seis vozes. A de Henrique Feist, que apareceu no corredor que separa a plateia, e as de Rúben Madureira, FF, Sissi, Marisa Liz e Aurea - que estavam entre o público, bem camuflados com as máscaras ainda obrigatórias nas salas.
Antes da despedida, Simone lembrou os amigos. E, com a luz que tem, devem ser tantos. "Amigos que tanto amo. Que mais bonita se torna a vida convosco por perto", disse antes de chamar o músico Armando Ribeiro que entrou com o saxofone para embrulhar a canção 'Foi Assim'.
"És grande", gritou uma voz do público. "Sou um bocadinho mas já fui maior", respondeu Simone, com graça e leveza, antes de agarrar a aguardada 'Desfolhada' e de a segurar na voz por mais duas vezes (tendo sido a segunda no encore) e pela última vez.
"Faz hoje espantosamente 53 anos que cantei esta canção na Eurovisão, uma coincidência que até me foi dita esta tarde porque eu não sabia. Como é que uma frase e uma música ou frases e músicas podem mudar a vida de uma pessoa?", perguntou aos que estavam na sala, rematando a reflexão com um agradecimento ao compositor Nuno Nazareth Fernandes, que compôs a música para a letra de Ary dos Santos.
A 'Desfolhada' começou ao piano, desaguou em palmas e prolongou-se em cantoria a uma só voz. "Até sempre. Até já", disse-nos, por fim, a gloriosa Simone. O aplauso final estendeu-se até a sensação de dormência invadir os braços do público. Só não sabemos se os braços ficaram dormentes pela (mais do que merecida) duração das palmas ou se pela vontade de abraçar Simone e o tanto que a Simone significa para nós. A segunda hipótese. Até já, Simone.





























