Simone de Oliveira: "quero sair pela porta larga"

Cantora finda percurso de 65 anos na próxima terça-feira, com o concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Há duas coisas que andam sempre com Simone de Oliveira: um crucifixo e um porta-chaves do festival da Eurovisão de 1969 (com a sigla da emissora espanhola do evento RTVE, no verso). Esses dois objetos estarão com a cantora, na sua noite de despedida, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 29. A lotação está esgotada para a saída em glória de um dos nossos maiores ícones da canção.

A agradabilíssima conversa com Simone começa na II Guerra Mundial mas termina no futuro, para onde a artista sempre olhou.   

Viveu a II Grande Guerra em menina. O que lembra desses tempos?
Lembro-me muito bem das senhas de racionamento. Eram uns cartões amarelos para um quilo de açúcar, um quilo de arroz. Lembro-me muito bem do meu pai pôr nas janelas papel em cruz por causa dos bombardeamentos. Nessa altura, eu morava nos Olivais [em Lisboa]. O meu pai era gerente de uma fábrica. Nós tínhamos lá casa, lembro-me disso perfeitamente. 

 

Percebia o que estava a acontecer, mesmo sendo uma criança?
Não, querido, não.

Já havia a noção de que Hitler era uma pessoa má?
Mais tarde. Com sete ou oito anos, não. 

Esperava estarmos a viver uma guerra horrível outra vez?
Infelizmente, penso que estamos. O Putin conseguiu uma coisa extraordinária: unir a Europa. Isso foi uma coisa brilhante, tendo em conta países desinteressados como a Suíça estarem com a Europa. Lamento pelo povo russo que imagino que não gostasse de ter aquele senhor a comandar. O Putin ou acaba sozinho, ou mata-se... ou o matam. Não desejo a morte a ninguém, sou contra a pena de morte, mas reconheço que na cabeça daquele senhor, há qualquer coisa que não está a funcionar bem a nível pessoal e médico. Há ali qualquer coisa que deu uma volta qualquer que acho que ninguém entende. Será que se entendem quando ele anda sozinho naqueles enormes palácios. Tem uma fortuna louca. Vi na televisão todas as casas e palácios que ele tem. Cabiam exércitos lá dentro, não percebo porque é que esse senhor tem tantas casas. Mas já houve outros assim que acabaram mortos.    

À maneira russa, como a família do último Czar, Nikolai II.
À maneira russa.

Agora, falando sobre os 65 anos de carreira...
Não gosto de chamar "carreira", prefiro "percurso". Acho sempre que a carreira é o 28 ou o 45. Não sei por onde passam, se pelo Alto Pina, se por Alvalade. Tenho que lhe dizer uma coisa que pouca gente sabe: nunca andei de metropolitano. É vergonhoso dizer isto: nem sei como se anda de metropolitano porque tive a possibilidade de em muito nova ter carro. A minha vida foi toda ir estrada acima, estrada abaixo a conduzir sozinha, de dia ou de noite ou de madrugada, com sol ou com chuva. "Noites perdidas, sombras..." [Simone esboça um pequeno canto de um verso do que parece ser 'Tudo Isto É Fado', cantado por várias fadistas, incluindo Amália Rodrigues]. Um dia destes gostaria [de andar de metro]. Sei que há estações de metro lindíssimas. Gostava que um dos meus netos me dissesse: "vamos ali dar três voltas de metropolitano para a avó ver". Não quero ir lá para cima, em cima de uma nuvem, a pensar que nunca andei de metro. 

 

Nunca ter andado de metro não deixa de ser uma revelação surpreendente para uma alfacinha como a Simone.
Nunca andei de metro por várias razões, sobretudo porque tive carro muito nova. A primeira vez que comprei um carro chorei muito, porque tinha juntado aquele dinheirinho para um Volks Solo branco. Cheguei a casa e chorei muito. E o meu pai perguntou-me: "mas tu não querias ter um automóvel?". "Pois, mas eu agora não tenho dinheiro2. Lembro-me perfeitamente, eram 37 contos [37 mil escudos].

Nunca teve aquela vontade de se enfiar numa linha de metro?
Com esta minha juventude, eu não vou sozinha. E também não tenho coragem para pedir aos meus netos: "olha, vem ali com a avô dar uma volta de metro". Pelo menos, quero ir uma vez, para eu não estar nesta absoluta ignorância.  

Não é tão bonito como andar de elétrico.
Por acaso, eu gostava de fazer uma viagem de tuk tuk por Lisboa.      

Qual foi a primeira vez em que se sentiu cantora?
Foi só na altura do 'Sol de Inverno', em 1965 [com que venceu o Festival da Canção]. Nessa altura, apanhei um grande susto porque olhei para mim e disse-me: "é capaz de ser um caminho que tenho que fazer", com a paixão e a entrega que tenho. 

Costuma-se dizer que não há nada como a primeira vez. Mas a segunda vez em que venceu o Festival da Canção foi mais especial, não foi?
A 'Desfolhada' é-me entregue em quarta mão. Não fui a primeira escolha para cantar a 'Desfolhada', porque ninguém queria dizer: "Quem faz um filho, fá-lo por gosto". Ninguém queria dizer. O José Carlos Ary [dos Santos], que não me conhecia, perguntava: "onde está aquela mulher muito grande?", porque eu pesava 85 quilos naquela altura. Fico a conhecer o José Carlos Ary, porque tive um restaurante de má memória, onde ele foi ter comigo. Quando ele me dá o texto, eu já o tinha lido. O José Mensurado [antigo jornalista da Rádio Televisão Portuguesa] tinha levado para uma boîte da Avenida da Liberdade que hoje não existe - onde passou a estar a Pastelaria do Marquês - um embrulho com aquela letra, "que é daqueles poetas comunistas que escreve para a Amália". Quando vieram ter comigo, eu não disse, mas já tinha lido aquilo. Quando me perguntaram se eu era capaz de cantar [A Desfolhada], respondi: "sou". Tanto que fui que "Quem faz um filho, fá-lo por gosto" ficou até hoje. Foi uma coisa de pátria. Aquela chegada à Santa Apolónia continua um bocadinho inexplicável.    

 

Sentiu revolta com o 15º e penúltimo lugar no Festival da Eurovisão?
Não senti revolta por uma razão: estávamos todos numa sala, os maestros e os cantores. Estava eu e o Ferrer [Trindade] cá atrás. Eu nunca pensei que a canção pudesse ganhar. Só tivemos uma vaga noção disso porque no ensaio geral, feito para os jornalistas, tinha sido posto a funcionar pela primeira vez um quadro eletrónico. Pela votação da sala, Portugal tinha ficado em 3º lugar. A única pessoa que não acreditou nisso fui eu. Houve uma ceia no hotel, depois do festival. Por mero acaso, a delegação portuguesa foi a última a entrar. Eram mesas redondas com as bandeiras do seu país. Quando a delegação portuguesa entrou, as mesas todas levantaram-se. Nós todos pensámos que ia alguém muito importante atrás de nós. Olhámos para trás para ver se vinha alguém. Chegámos à mesa e há um grupo de estudantes de Setúbal que entraram no hotel e foram pondo as capas no chão. Só me lembro do Dr. Bívar, o homem das relações públicas da RTP, me dizer: "não se chora, não se chora". A mulher dele foi levada para casa porque chorava muito. Eu consegui não chorar e levaram uma boneca para a minha filha. Quando chegamos às quatro ou cinco da manhã, o hotel ainda estava iluminado. Entrámos e estava um ministro espanhol que me disse: "não venho como ministro, mas como espanhol, pedir-lhe desculpa do que fizeram ao seu país". Só chorei quando cheguei ao quarto, porque me telefona o Raúl Solnado, que estava com o Canto e Castro e o Carlos Cruz, e diz assim: "tu aqui!". E é aí que comecei a chorar desalmadamente. Só foi aí que chorei. Caí da cama para o chão a chorar. É engraçado porque me diziam à entrada do hotel "deve ser muito amada no seu país", porque eu tinha um telegrama de um navio que estava num oceano não sei aonde e de outro navio que estava ao pé de Angola. Tive as coisas mais raras. Todos nós, os intérpretes e os diretores de orquestra, recebemos nos camarins um porta-chaves, que me acompanha até hoje, a dizer Eurovision 1969 [com o símbolo do emissor espanhol RTVE no verso], que tenho na mala. Anda há 53 anos comigo, posso mostrar-lhe.        

 

Como é que foi essa receção calorosa na Estação de Santa Apolónia, onde uma multidão a esperava?
Eu agarrei num megafone para uma janela que não se abria há uma eternidade. Era uma mesa, em cima um banco, para aquela janelinha lá em cima. Como é que as pessoas sabiam a canção, eu não sei. Como havia dois funcionários da RTP que tinham medo de andar de avião, viemos de comboio, que levou dez horas da fronteira do Alentejo a Santa Apolónia, porque as pessoas estavam na linha para o comboio não andar. A partir de Vila Franca [de Xira], o comboio já não andava, rastejava. Ninguém percebia porquê. De Santa Apolónia, ligam para a RTP a dizer que estavam na estação "umas 500 pessoas". "Está bém, está bem". "Olhe, agora, estão duas mil". "Não". "Olhe, agora, estão 23 mil". Já lá estava a Guarda Republicana a cavalo. No outro dia, vi os seis minutos [de imagens] que ainda não tinha visto. Porquê? Não lhe sei explicar. Na Primavera Marcelista, o "Quem faz um filho, fá-lo por gosto" era uma frase que não se dizia.

E também havia aquele termo de "Casca de noz desamparada" na 'Desfolhada'.
Que o lápis azul [a censura] não percebeu. E também não perceberam 'A Tourada' [também com letra de Ary dos Santos, tema com que Fernando Tordo venceu o Festival da Canção em 1973]. Continuo a não perceber como é que essas duas canções passaram na censura. 

Mas os portugueses devem ter percebido.
Felizmente, perceberam.

A 'Desfolhada' foi a sua primeira canção com letra de Ary dos Santos. Era excitante a sensação de receber uma letra escrita por ele?
Só comecei a receber letras do Ary dos Santos quando perdi a voz. Estive três anos sem cantar. Eu perco a voz logo a seguir à 'Desfolhada'. E aparece um programa muito importante, o "Zip-Zip". Comecei a perceber o tom a mudar. Não cantava da mesma maneira, não respirava da mesma maneira. Não é que eu renegue nada até aos 25 anos. Havia uma outra forma. Se não conseguisse ter esta voz que eu tenho, tendo perdido a outra, eu hoje não estava aqui a cantar. Começo a perceber que tenho que dar a volta tanto à minha forma de cantar e de respirar, como aos textos. Mesmo que eu nunca tenha pedido um poema a alguém, foram me dando coisas. Fui cantando da melhor forma que conseguia. Nem a minha geração, nem a seguinte tiveram a sorte que estas novas gerações têm, que têm aulas de canto. Dantes dizia-me: "olha vai aí e canta". Hoje há cantores que têm patrocínios de cremes. É engraçado, nunca me deram um patrocínio. Não é que eu queira, porque nunca pedi nada a ninguém. Só se for um cigarro. Se me derem um maço, eu aceito. 

Caiu no goto da Amália. Isso foi uma honra para si?
Primeiro, foi um espanto. A Amália foi-me apresentada seis vezes. Estava eu no Coliseu, quando a Amália passou com a sua corte e o José Fialho, que estava ao meu lado, pergunta-me: "não te levantas?". "Não, não me levanto, já fui apresentado a essa senhora seis vezes". Ela passou, tirou uma rosa e cumprimentou-me: "olá Simone, está boa?". "Sim, estou boa". Às dez da manhã, liga-me: "ó Simone, vamos para Paris". E depois desligou. E eu pensei: "vamos para Paris?". "E porquê?”. "Senhora Amália, vamos para Paris?". "Vamos para Paris!". "Vamos para Paris fazer o quê?". "Ó Simone, você vai para o meu espetáculo no Olympia [sala histórica de Paris]". "Oiça lá, eu não tenho dinheiro para fazer esses fatos". "Não tem problema nenhum, a menina vem cá a casa". Os três fatos que levei para Paris, três túnicas, foram feitos pela costureira da Amália, provados no quarto da Amália, com ela a fumar - ela fumava dois maços [por dia] de Marlboro vermelho. [A Amália] tinha metro e meio. Estava encostada à porta a dizer-me: "você sabe que tem um nariz com muita personalidade". "Sei, sei, tenho espelhos lá em casa". E de repente, caio no Olympia, com o Duo Ouro Negro, os trapezistas do [circo] Cardinale, a Amália. No primeiro dia que fomos ao bar, como éramos portugueses, só nos davam o que pedíamos depois de pagarmos. Isso foi uma coisa que nos magoou muito. Passados dois dias perceberam que "esta malta é boa, tomem lá tudo o que quiserem".    

 

Como é que a Simone, a viver num país a preto-e-branco marcado pelo Antigo Regime, via o mundo lá fora?
Nunca tive muito tempo para ver os sítios. Fui sempre a trabalhar. Eu ia aos sítios para me vestir, pintar e cantar. Tive muito medo na Argentina. Buenos Aires é uma cidade que não pára. Pensei: isto às três da manhã é capaz de haver algum silêncio para a minha pobre cabeça. Foi a primeira vez que vi o Aznavour a fazer um anúncio em espanhol. Era um anúncio de um champanhe. Eu, que adorava o Aznavour, não queria acreditar. Uma bica [café] custava o valor de dez escudos e em Portugal eram quinze tostões. Um gin custava dez a quinze contos. Só não passámos fome porque uma pessoa que estava ligada ao festival era portuguesa. A minha geração e a geração seguinte à minha - o Paulo de Carvalho e o Fernando Tordo - viveram uma época que as outras já não viveram, que não sabem, porque nunca lhes foi explicado. 

O que ia na sua cabeça nos minutos anteriores à atuação na Eurovisão, com a responsabilidade de representar todo um país? Ficava mais nervosa do que era normal?
Não me diga nada. "De que país vem?". Sei lá". "Como é que se chama?". "Sei lá". Foi a Amália que me levou ao Maracanãzinho. "De Portugal, Simone de Oliveira". Eu não entrei. O senhor teve que me dar um soco nas costas, porque se assim não fosse, ainda hoje lá estaria. Eu no Maracanãzinho, com 45 mil pessoas, diante do júri com o Chico Buarque, a Amália, a Yma Sumac. Não ganhei o prémio de interpretação porque o ministro brasileiro exigiu que o Brasil ficasse em primeiro. Eu estava em terceiro. A Alemanha passa para segundo e a França para terceiro.    

A Amália precisava de uma maçã reineta para cantar em palco. O que é que a Simone mais precisa antes de subir a palco?  
Um café, uma gota de whiskey e um cigarro. 

E vai precisar disso para o concerto no Coliseu?
Vou. E vou precisar de calma. "Porque é que eu estou nisto? Quero ir para casa", é sempre aquilo que digo. "Não me apetece. Não vou. É que não vou, não sou capaz". Isso não vai acontecer. Lá que vou pedir um cigarro e um gole whiskey, isso vou pedir de certeza. 

O que é que o público pode esperar do seu espetáculo de despedida?
Que eu esteja de alma inteira, viva de coração. Não sou outra coisa, chamo-me Simone e canto cantigas. O resto foram vocês todos que me puseram cá em cima. Continuo a ser igual a mim própria, mais velha e com mais rugas, com este peso enorme dos poetas, dos músicos e amigos, a quem devo muito. Devo à gente da rádio e da televisão. Devo muito aos jornais deste país, fui sempre muito bem tratada por vocês todos. Aqui vai o meu agradecimento sincero e absoluto. 

 

O que lhe levou a pôr um fim à sua carreira? E que Simone vamos passar a ter?
Vamos passar a ter a mesma Simone que está à sua frente, sem a preocupação de se vestir e pintar. Penso que ao fim de 65 anos, chega. Vamos sair com a cabeça no sítio, com a voz no sítio e sem fazer uma coisa de que tenho pânico: ridículos. Quero sair com a cabeça no sítio pela porta larga. Penso que isso vai acontecer. Acho que estou bem de cabeça, bem de voz. Acho que estou bem apoiada pelas pessoas que me acompanham há 30 anos e sabem muito bem a pessoa que sou. E sei que estão a fazer tudo para que eu esteja confortável. 


 

 

As fotos no corpo da notícia são cortesia da artista e da sua promoção.