Skunk Anansie: a fúria dos inconformados

A banda inglesa voltou ao Coliseu de Lisboa de onde saiu debaixo de uma chuvada de aplausos numa noite de rock, suada e de quase normalidade.

Quase primavera, uma noite relativamente amena e Lisboa a parecer-se cada vez mais com uma cidade que, aos poucos, reclama para si a agitação cosmopolita das noites de sábado que tínhamos como certas antes da pandemia. 

Não fossem as máscaras (ainda obrigatórias nas salas de espetáculo) e o interior do Coliseu dos Recreios remontaria a 2019 - tal foi a proximidade desavergonhada entre os que ali estavam para sentir o calor do rock interventivo dos Skunk Anansie. Já lá vamos.

A primeira parte coube ao rock promissor dos irlandeses New Pagans que fizeram questão de assinalar que vinham para a festa lisboeta, chegando até a convidar o público (porque não toda a gente?) para uma celebração algures na cidade depois dos concertos. O sotaque irlandês e a franca e genuína disponibilidade para o convívio denunciaram as origens do quinteto que segurou as bem pontas antes da chegada dos Skunk Anansie. 

Coliseu cheio para receber (mais uma vez) a banda londrina: Skin, Ace, Cass Lewis e Mark Richardson, eles que já "fazem parte da mobília", como se costuma dizer. E são muito bem-vindos. São da casa. Perdemos a conta à quantidade de vezes que os ingleses tocaram em Portugal. A última vez foi no Minho, no festival Vilar de Mouros, um ano antes da paragem forçada dos palcos - em 2019. O concerto no festival minhoto certamente que ainda pula, com vigor e genica, na memória de quem lá esteve, mas o de hoje também será lembrado, arriscamos a dizer, com a garra acrescida de ser uma experiência libertadora quase pós-pandémica.

Um foco de luz em cima do palco deu o sinal de entrada do grupo que foi aparecendo no palco para assumir as posições habituais. Só faltava Skin que não tardou a chegar para agarrar 'Yes It's Fucking Political' com a voracidade e a extensão da voz do costume. A primeira da noite, que os Skunk Anansie resgataram do disco "Stoosh" (1996), estabeleceu o ritmo e orquestrou a mensagem para o resto do concerto. O alinhamento seguiu com uma rajada de canções musculadas e com letras que - mesmo sendo algumas da era dos flanelados noventas - são estranhamente atuais.

Skin, vestida de tons esverdeados, subiu ao palco para ser irrepreensível e hoje particularmente mitológica. A figura esguia e indomável da cantora britânica não precisa de adereços para impressionar mas, desta vez, vimo-la a entrar com um adereço a lembrar a ondulante Medusa - figura da mitologia grega. Com uma diferença: quem olhou para a Skin não se transformou em pedra, antes pelo contrário, revitalizou-se com a fonte inesgotável de energia que soltou no palco

'And Here I Stand' chegou com a carismática vocalista a perguntar: "estão prontos?" antes de desatar a rodopiar no curso da música. Por esta altura, Cass Lewis, o baixista, estava em cima de uma plataforma na zona lateral e Ace no natural comando da guitarra. 'Because of You' e 'I Can Dream' fizeram a sala lisboeta estremecer e 'Weak' foi a primeira a ser dedicada ao público como uma expressão sentida de gratidão por ter ido sem medos ao concerto. "Obrigada. É maravilhoso estar em Lisboa", disse Skin. "Tivemos o Brexit, uma pandemia e agora uma guerra", desabafou. "Agredecemos terem vindo. Esta é para vocês". 

A paragem forçada de dois anos, devido ao que já sabemos, só avolumou a fúria dos Skunk Anansie (e sobretudo de Skin) para arrebatar no palco e na luta por um mundo melhor. A intenção política continua lá - nas mensagens das letras e na invejável força anímica da mulher do coletivo que - passem os anos que passarem - parece não se dobrar a nada. Assim dança o inconformismo.    

 
'Twisted (Everyday Hurts)', com Ace a soltar o som da guitarra e Cass já na outra ponta do palco, junto à plateia, antecedeu 'My Ugly Boy' do disco "Wonderlustre" de 2010. Mais uma para fazer uma viagem sónica ao passado - mas de ida e volta. O grupo londrino, que anda na estrada com mais de 25 anos para celebrar, não se esgota em si mesmo nem se apega ao facilitismo das glórias radiofónicas do passado. 'Can't Take You Anywhere' (tema lançado há poucos dias) e 'Piggy' são dois exemplos da fome constante de criar e, acima de tudo, vincam a coerência na postura do grupo que continua acutilante e inconformado com o lado errado do mundo. "Não seríamos os Skunk Anansie se tocássemos apenas músicas antigas - apesar de gostarmos muito de tocar esses temas", disse a frontwoman do grupo. Pois não. Não seriam.

'100 Ways to Be a Good Girl' acalmou a agitação na sala mas não perdeu força na voz de Skin. 'Love Someone Else', 'I Believe In You' - com toda a gente de pé - e 'God Loves Only You' seguiram-se no alinhamento até à calmia nostálgica e magoada de 'Hedonism (Just Because You Feel Good)' do álbum "Stoosh" de 1997.

'Without You', a que se seguiu, voltou a ser para quem estava na sala. "Estamos muito gratos por terem vindo", reforçou a voz do coletivo que não escondeu o sorriso largo de gratidão por estarmos todos ali. A mais recente 'What You Do For Love' antecedeu ao peso pesado 'This Means War' que Skin dedicou "a todos os que estão a sofrer na Ucrânia e a todos os que estão a sofrer no mundo". O tom foi abrangente o suficiente para que a atenção mundial não esqueça outros povos, apesar da urgência em sarar as dores das vítimas do conflito europeu. 'Intellectualise My Blackness' e 'Tear the Place Up' voltaram a "abalar" a estrutura Coliseu e terão limpado o pó da espera pandémica. 'Charlie Big Potato' - que meteu toda a gente a seguir a voz de Skin - fez a passagem para o encore.

O regresso ao palco dos Skunk Anansie foi debaixo de uma merecida chuvada de palmas e no calor suado de um autêntico concerto de rock. O novo single 'Piggy' abriu a sequência guardada para o final e contou com a presença de dois figurantes de última hora que, a pedido da inglesa, acompanharam o tema em cima do palco e com adereços: máscaras de porcos. "Estamos a gravar um vídeo. Queria pedir que viessem até ao palco e colocassem estas máscaras", explicou Skin, para a recriação de uma forma de protesto contra os líderes e governos corruptos que escurecem as possibilidades de futuro das sociedades que comandam.

Quase no final, uma surpresa: 'Brazen (Weep)' foi envolvida em arranjos orquestrais (gravados pela banda há alguns anos) e acabou com um foco de luz a incidir na figura da gloriosa Skin que, poucos segundos depois, já estava a cantar com o público o clássico 'Highway to Hell' dos ainda mais veteranos AC/DC. 

'The Skank Heads', com toda a gente de braços no ar, e 'Little Baby Swastikkka' - com um salto em uníssono da plateia - foram as últimas. "Obrigada. Vocês foram incríveis", rematou a voz (e que voz!) dos Skunk Anansie. É a isto a que sabe a velha normalidade.