Skunk Anansie no Campo Pequeno: assim dança a fúria do inconformismo
Mais uma passagem da banda inglesa por Portugal, agora com "The Painful Truth" (o novo álbum) na bagagem.
Os Skunk Anansie abriram a digressão europeia em Portugal. O grupo inglês esgotou o Coliseu do Porto na sexta-feira (28 de fevereiro) e ontem (1 de março) encheu o lisboeta Campo Pequeno.
Skin, Ace, Cass Lewis e Mark Richardson são velhos amigos de Portugal e quem os acompanha por cá gosta, claramente, de um bom reencontro. Ontem ocuparam o palco da arena lisboeta para dar um murro na mesa contra qualquer força que possa ter a ousadia de estrangular a liberdade ou de silenciar quem a defende. Com a sabedoria da experiência e com os olhos postos no que ainda está para vir, recorrem à honestidade elementar e viva do rock para amplificar o que têm para dizer. A voz ampla e familiar da irrequieta e indomável Skin concentra a mensagem. Estar no palco também pode ser um ato político e a cantora britânica aproveita o espaço que lhe é absolutamente legítimo para partilhar inquietações e abanar qualquer sinal de entorpecimento. É urgente o movimento da luta. E é urgente dançar para fazer frente aos males do mundo.
Na calha um disco novo. "The Painful Truth" é o primeiro em nove anos e, como soubemos ontem, vai chegar em formato duplo. Aos Skunk Anansie não faltam novas canções nem vontade de agitar o futuro. À frescura do novo disco, que foi feito num movimento de revitalização, o grupo inglês foi buscar três temas para estrear em solo português. 'An Artist Is An Artist', 'Animal' e 'Cheers' saltaram do alinhamento em momentos diferentes do concerto que, claro, também celebrou o caminho discográfico que foi feito até aqui.
"Eu não me importo se éramos grandes nos anos noventa. Criativamente, é irrelevante porque na minha bíblia do rock o primeiro mandamento diz: 'se descansares em cima dos louros, vais murchar e morrerás artística, musical e mentalmente. E depois financeiramente'. Se não fizéssemos algo fresco e a olhar para o futuro, não poderíamos continuar a ser uma banda. Estaríamos apenas a fazer karaoke Skunk. Fizemos alguns bons discos, mas já não fazemos um grande álbum há algum tempo. E essa é a verdade dolorosa. Ter consciência disso levou-nos a fazer aquele que considero ser o nosso melhor disco até agora", disse Skin à imprensa quando foi anunciado o novo registo. Ontem percebemos que os três novos temas fazem adivinhar que vem aí um disco com intenção, fúria construtiva e substância.
Abertura do concerto com as intenções bem declaradas. 'This Means War' e 'Charlie Big Potato' logo a seguir abriu o alinhamento de 21 canções que foi servido sem paragens demoradas ou longas contemplações durante quase duas horas.
Mesmo antes de terminar o primeiro tema, a esguia Skin, vestida com uma misteriosa capa preta e debaixo de um capuz, recebeu a primeira ovação da noite. A energia (inquebrável) da voz da banda contagia tudo o que a rodeia. A cantora, de 57 anos, rodopia, sorri, dá pontapés no ar, pede palmas, entrelaça-se nos companheiros de palco e agradece, sempre que pode, ao público.
Se em certos momentos evoca com a voz toda a força que tem dentro de si, noutros acalma com um propósito: aconchegar, com doçura, baladas do romantismo dorido dos anos 90 que ninguém perdoaria se faltassem, como 'Secretly' ou 'Hedonism (Just Because You Feel Good)'.
Em 'Because Of You', Skin, já sem capa, ganhou mais liberdade nos movimentos. Skin vai à frente do palco, olha nos olhos dos que estão nas primeiras filas e grita para todos, a resplandecer de entusiasmo. "Estão prontos para dançar?", pergunta antes de se atirar a 'Love Someone Else'. A resposta é "sim".
Quando chega a hora de tocar 'I Can Dream', Skin desce para a plateia e faz o caminho até à "ilha" da mesa do som. É aí que se eleva, com ajuda de quem tem à volta, e prepara o terreno para um momento de crowd surfing. A viagem de volta ao palco é feita nos braços fortes do público que, se não a tiver nas mãos, aplaude a proeza. O concerto segue com 'I Believe In You' e com palavras fortes e convictas contra o fascismo.
"Vemos o fascismo a levantar-se de uma forma assustadora. E afeta as pessoas mais vulneráveis da nossa sociedade. Estão a persegui-las. Será que não aprendemos?", questiona Skin, com a veia do inconformismo a transbordar na voz. "É por isso que quero dedicar esta canção a todos os que lutam pelas pessoas mais vulneráveis e que fazem frente ao fascismo", acrescentou a cantora, sublinhando, por exemplo, a importância de salvaguardar os direitos da comunidade transgénero. O breve (mas poderoso) discurso acaba com a certeza de que o amor é mais forte que o ódio. O Campo Pequeno aplaude. Segue-se 'God Loves Only You'.
'Secretly' é cantada em uníssono na sala e 'Weak' mete toda a gente com os braços no ar. As novidades 'An Artist Is An Artist' e 'Animal' recebem uma ovação de clara aprovação. A sequência 'Twisted (Everyday Hurts)', 'My Ugly Boy',' It Takes Blood & Guts to Be This Cool but I'm Still Just a Cliché', 'Piggy', 'Intellectualise My Blackness' e 'Yes It's Fucking Political' é servida, sem grande espaço para fôlego, até ao primeiro encore.
"Vocês são dos melhores públicos do mundo", gaba a cantora inglesa antes de sair do palco, agradecendo, mais tarde, o apoio dos fãs portugueses ao longo dos últimos 30 anos.
A intemporal 'Hedonism (Just Because You Feel Good)', a fresca 'Cheers' (do novo álbum) e a relíquia frenética e indispensável 'Little Baby Swastikkka' foram as que o grupo encaixou no primeiro encore. O final foi ao som de uma versão acústica de 'You Follow Me Down'. Luzes acesas e mais um elogio ao público português: vocês fantásticos, rematou Skin antes de abraçar os companheiros de palco.

























