Sporting tem supremacia sobre Benfica nos dérbis da Taça
Em 30 disputas, os leoninos eliminaram as águias por 17 vezes.
A final de domingo entre Sporting e Benfica no Estádio Nacional, em Queijas, vai ser a 31ª disputa de eliminatória entre os grandes da Segunda Circular. É verdade que as partidas foram em maior número, porque houve eliminatórias que tiveram duas mãos e até um terceiro jogo de desempate. Mas nas 30 disputas propriamente ditas, o Sporting levou a melhor por 17 vezes, tendo uma supremacia evidente sobre o Benfica que apenas por 13 vezes conseguiu eliminar o rival alviverde.
O Sporting superiorizou-se ao Benfica nas últimas duas vezes. O clube de Alvalade venceu o seu maior adversário histórico no ano passado, com um agregado de 4-3 das duas mãos das meias-finais. Antes, um superpoderoso Bruno Fernandes, com dois golões nas duas mãos das meias-finais, foi determinante para o Sporting garantir a presença na final de 2018-19, tendo deixado para trás o Benfica treinado por Bruno Lage. Junta-se a isto tudo a onda recente do Sporting bicampeão, como um leão feroz e rei, que tem depenado a águia como um súbdito que mete pena.
Perante a atual conjuntura desportiva tão negativa, o Benfica pode socorrer-se dos adeptos (sempre os adeptos) e da história, incluindo na Taça de Portugal. O clube de Eusébio e de Chalana é o maior vencedor de Taças de Portugal, 26 ao todo, acima das 20 do FC Porto e das 17 do Sporting. E nas oito finais jogadas entre os rivais de Lisboa, o Benfica foi melhor que o Sporting por seis vezes.
Há 29 anos que não temos o Dérbi Eterno na final da Taça de Portugal. Nunca Benfica e Sporting tinham estado tanto tempo sem se cruzarem no Jamor com um troféu a cintilar no terraço da tribuna presidencial. Selecionamos em baixo dez dos dérbis mais emocionantes para a Taça de Portugal. Pipi, Figueiredo, Vítor Damas, Eusébio, Diamantino Miranda ou Acosta são alguns dos heróis a abrilhantar estas linhas.
1951-52
Final
Benfica – Sporting (Jamor): 5-4
O primeiro embate entre Benfica e Sporting numa final da Taça de Portugal teve muitas reviravoltas no marcador e nas veias cavas de muitos corações que lotavam o Estádio Nacional. Há quem diga que foi o mais emocionante dérbi de sempre. Consultando o marcador, quem seremos nós para discordar. Um jogador da equipa encarnada se destaca, Pipi, que faz um hat-trick. Para tornar o jogo ainda mais emocionante, o golo decisivo do Benfica é marcado no último minuto. Tal como Pipi recordava ao site Mais Futebol, “o árbitro já estava com o apito na mão, pronto para o levar à boca. Faltavam quinze segundos para o fim. O José Águas colocou-me a bola para correr, eu ganhei em velocidade a dois adversários e rematei à entrada da área. Foi um grande golo”.
1962-63
Meias-finais (2ª mão)
Benfica – Sporting (Luz): 0-2
Sporting supera a derrota caseira na primeira mão de 0-1 com uma vitória pela margem de dois golos, ambos de Figueiredo, que passa a ser conhecido como o “Altafini de Sernache”, exatamente um mês depois do bis de Altafini do AC Milan, que derrotou o Benfica na final dos Campeões Europeus. O jogo da noite de 22 de junho de 1963 tinha tudo para ser de consagração do Benfica, mais do que favorito, enquanto campeão nacional e com uma equipa de sonho que esteve à beira de se ter tornado tricampeã europeia. Mas a imprevisibilidade de um dérbi supera tudo, incluindo a equipa de Eusébio. Tornou-se na primeira vitória leonina no Estádio da Luz em qualquer jogo oficial. O Sporting ganharia oito dias mais tarde a Taça de Portugal de 1962-63, a tal que lhe permitiu disputar a Taça dos Vencedores das Taças no ano seguinte e que venceria – a única competição europeia ganha pelos leões.
1970-71
Final
Sporting – Benfica (Jamor): 4-1
No duelo de gigantes entre o guardião Damas e o avançado Eusébio, sobrepôs-se o nº1 leonino, quer no ar, quer no relvado. Foi um dos resultados mais surpreendentes de uma final da Taça de Portugal. Venceu a equipa menos favorita, o Sporting, ainda para mais por uma margem expressiva, diante do Benfica campeão que tinha uma formação fortíssima: o guarda-redes José Henriques, defesas como Humberto Coelho e Adolfo Calisto, um médio como Jaime Graça, um extremo da qualidade de Simões e um trio bem afiado de pontas-de-lanças como Eusébio, Nené e Artur Jorge. Foi a primeira vitória sportinguista diante do rival numa final da Taça de Portugal.
1971-72
Final
Benfica – Sporting (Jamor): 3-2 (após prolongamento)
Foi um dos dérbis mais bem jogados de sempre, com talentos em abundância dos dois lados e muitas oportunidades. O resultado deu duas cambalhotas em 120 minutos de jogo, numa das grandes exibições de Eusébio, que assinou um hat-trick que selava a vingança da derrota na final anterior. O Sporting foi sempre muito pressionante e perigoso ao longo de toda a partida. No cúmulo das suas oportunidades perdidas, o avançado sportinguista Nelson Fernandes isola-se na grande área e contorna o guarda-redes José Henrique, teleguiando o esférico para as redes, só que o defesa benfiquista Artur Correia surge a meio-caminho para fazer o que lhe competia, intercetando a bola. Depois surgiu o minuto 118, que parece uma cena de filme ao estilo de “Fuga para a Vitória”. Há um livre direto para o Benfica. A bola está longe da grande área e mais de metade da equipa do Sporting alinha-se na barreira. Eusébio conferencia com Humberto Coelho. O central é o que está mais próximo da bola, dando a ilusão de ser ele a rematar. O truque é mau e a equipa leonina, que não é tola, reposiciona-se na barreira, quando vê Eusébio a fazer uma longa marcha atrás, inclinando o corpo em posição de velocista no momento de arranque. Eusébio inicia a corrida com o dorso na horizontal. À medida que corre, o dorso vai-se verticalizando como um ponteiro de relógio até ao momento em que bombeia a bola, com uma bazucada para o fundo das redes. O golão vai para o portefólio das mais impressionantes imagens em movimento de Eusébio. A primeira vez que Damas se mexe é para levar as mãos à cabeça. O que fazer perante o indefensável? Graças a Eusébio, o Benfica leva a Taça e faz a dobradinha, numa das melhores épocas de sempre do seu historial, a que se juntou uma campanha europeia que foi até às meias-finais da Taça dos Campeões Europeus. Jimmy Hagan era o treinador, Borges de Brito o Presidente, dois dos melhores de sempre do Benfica.
1973-74
Final
Sporting – Benfica (Jamor): 2-1 (após prolongamento)
Na primeira final da Taça após o 25 de Abril, o povo estava não só na rua, como no relvado. Os espectadores concentravam-se junto à linha do relvado e em cima das balizas enquanto o jogo decorria. Marcar um canto era de um aperto sem margem. Fazer um lançamento lateral implicava um conjunto de encontrões com os adeptos. Uma corrida desenfreada com a bola junto à linha tinha o elevado risco de um abalroamento com as massas. Os repórteres de imagem da RTP nem espaço tinham para montar o estaminé na tribuna, obrigados ao improviso junto ao relvado. Parecia uma cena da distrital ou da saudosa “Liga dos Últimos”, mas com imagens a preto e branco, só que com jogadores de topo a correrem lá no meio do relvado. Quando Jordão (então de manto vermelho) fez uma das suas provas de velocidade com assistência para Nené concluir com classe para dentro da baliza, o primeiro a mexer na bola junto às redes não foi o guardião Damas mas sim um adepto todo equipado do Benfica. Quando o rival fez a reviravolta, Marinho foi abraçado pelo povo leonino e não pelos próprios colegas. E quando o apito final soou, não surpreendeu ninguém a invasão pacífica de campo. Dois anos depois da época de sonho do Benfica, foi a vez do Sporting fazer uma das melhores temporadas do seu passado, em 1973-74, com a dobradinha e uma longa digressão continental na Taças das Taças que só terminou nas meias-finais.
1986-87
Final
Benfica – Sporting (Jamor): 2-1
7 de junho de 1987 foi o dia...Mantino. Diamantino Miranda estava um diamantezinho, no ponto mais polido da sua carreira, de brilho maximizado naquela tarde luminosa no Jamor, com dois golos de pasmar. 15 anos depois da bomba de Eusébio naquele mesmo estádio, Vítor Damas volta a ficar paralisado, tão surpreso pelo livre direto de Diamantino quanto o realizador da RTP, no direto televisivo. Diamantino surpreendeu ambos e quem ficou a perder foram também os telespectadores, que só puderam apreciar a proeza do avançado benfiquista em repetição. Mas a segunda parte reserva mais. Com uma classe ao estilo de Platini, Diamantino consegue dobrar dois jogadores do Sporting a meio-campo e partir veloz para a grande área e, sob o aperto do defesa leonino Virgílio, volta a desferir um remate para o fundo das redes da baliza de Damas. As camisolas alviverdes voltavam a ser o cenário de festa para os benfiquistas, depois de as águias terem celebrado semanas antes o título de campeões no dérbi anterior, num Estádio da Luz apinhado. O Benfica conseguia a sua 9ª dobradinha da história. Só 27 anos depois o Benfica conquistaria outra dobradinha.
1999-2000
Oitavos-de-final
Benfica – Sporting (Luz): 1-3
Duas realidades diferentes chocaram: o Sporting reavivado pelo treinador Augusto Inácio atropelou o rival da Luz, a viver uma apagão histórico, à sombra do seu passado glorioso. Apesar do equilíbrio de oportunidades, a equipa do Benfica era irreconhecível. E os poucos talentosos das águias estavam também numa noite não: o guarda-redes Enke dá um “frango” aos leões e Nuno Gomes esbanjou oportunidades que a alta competição não perdoa. Quem aproveitou o desacerto do eixo defensivo do Benfica (Paulo Madeira e um grego que quase ninguém já se lembra, Machairidis) foi o ‘matador’ alviverde Acosta, que bisou, municiado repetidamente e ao longo do jogo pelo esquerdino inspirado De Franceschi.
2004-05
Oitavos-de-final
Benfica – Sporting (Luz): 3-3 (7-6 nas grandes penalidades)
Foi talvez a noite mais longa da história dos dérbis entre Benfica e Sporting. Após mais de 120 minutos de um jogão com seis golos, foi só ao 14º penalti no desempate capital que o jogo finalmente teve um vencedor: o Benfica. Miguel Garcia falha por centímetros um penálti perfeito fora do alcance do guardião encarnado em estreia a titular Quim. Só que a bola embate na barra e cai ligeiramente fora da linha. Foi por uma nesga. O jogo propriamente dito deu várias voltas no marcador – ora o Benfica a ganhar, ora o Sporting – e tornou-se num concurso de qual o golo mais bonito: o do livre de fora de área de Hugo Viana, a 'maradonada' de Paíto ou o remate fulminante a bons metros da baliza de Simão Sabrosa. Quem viu este jogo, nunca o esquecerá. É um daqueles jogos que nenhuma equipa merecia ter perdido.
2007-08
Meias-finais
Sporting – Benfica (Alvalade): 5-3
Outro dérbi inesquecível. Depois de uma primeira parte dominadora e eficaz do Benfica, que vai para o intervalo a ganhar por dois golos de diferença, ninguém iria imaginar a segunda-parte épica do Sporting treinado por Paulo Bento. João Moutinho não parava de ganhar as disputas de bola e o cerco do quarteto ofensivo leonino foi apertando diante de um super-homem na baliza, Quim, que foi adiando com luvadas o que se tornou inevitável. Quando o ex-benfiquista Derlei entrou para a formação de Alvalade, o campo inclinou ainda mais. E aconteceu então uma enxurrada de golos, cinco, em apenas 22 minutos, que o golão de “cebolinha” Rodriguez (então benfiquista) não conseguiu estancar. O Benfica saiu vergado, num dos grandes jogos das vidas de João Moutinho, Vukcevic, Izmailov e Yannick Djaló, este último a viver o seu melhor ano e com direito a um golo em arco de fora de área que hoje faria lembrar o estilo do barcelonista Lamine Yamal.
2013-14
4ª eliminatória
Benfica – Sporting (Luz): 4-3 (após prolongamento)
Eis outro duelo da Segunda Circular que parece o resultado de um jogo de futsal ou de hóquei em patins. E novo dérbi memorável que foi, entre duas grandes equipas (Garay, Matic, Enzo Perez ou Gaitán, contra Rojo, William Carvalho e Adrien Silva). Muito coisa foi marcante neste jogo: o hat-trick de Cardozo, a recuperação notável do Sporting na segunda parte e o golo caricato de Luisão num lance em que reclama ter sofrido penalti, sem dar conta que tinha cabeçeado no chão e acidentalmente a bola para lá da linha de baliza... com a ajuda de um erro embaraçoso de Rui Patrício. Esse golo seria o sétimo da partida e o decisivo para o Benfica seguir em frente, naquela que se tornou, até ao momento, na melhor época do século XXI para as águias, com um triplete e uma presença na final da Liga Europa.
