Stefano Savio: "O nosso prato principal é sempre o cinema italiano"
O diretor artístico da Festa do Cinema Italiano revela o que se pode esperar da 19.ª Edição.
Começa esta quinta-feira, a 19.ª edição da Festa do Cinema Italiano.
O festival promete para celebrar o cinema italiano contemporâneo e clássico com novos filmes de renomados realizadores vão aliar-se ao espaço para a nova geração de cineastas e clássicos.
O Diretor Artístico Stefano Savio levanta o pano sobre o que podemos esperar nesta edição do festival.
Que surpresas reserva esta edição da Festa do Cinema Italiano?
O nosso prato principal é sempre o cinema italiano dentro de grandes escolhas. Tentamos sempre ser muito variados, com filmes para diferente tipo de público. Temos os grandes autores do cinema contemporâneo italiano como Paolo Sorrentino, com 'La Grazi' - que abriu o Festival de Veneza e é também o nosso grande filme de abertura -, o filme 'Fuori' de Mario Martone - sobre Goliarda Sapienza, uma grande escritora italiana - ou o filme 'As Provadoras' de Hitler, de Silvio Soldini. Temos seja os grandes autores, seja as comédias de maior sucesso da bilheteira do cinema italiano, como 'Bom Caminho', de Chicco Zarone e muito mais. Um espaço muito importante para aquilo que é os tesouros do período de ouro do cinema italiano, nesse caso, uma homenagem muito sentida à última diva do cinema italiano, Claudia Cardinale - que desapareceu no ano passado-, em conjunto com a Cinemateca vamos organizar uma retrospectiva. Depois espaço para gastronomia, cinejantares, festas, stand-up comedy e muito mais sobre a cultura e o cinema italiano.
Há esta vertente complementar: o cinema é peça essencial, é o prato principal, mas também a celebração da cultura como um todo.
Sim, claramente. Para nós é importante também como festival entender que para trazer o público a uma sala de cinema, precisamos de acompanhar o filme com toda uma outra série de conteúdos.
Seja aspeto social, que para nós é muito importante; seja partilhar uma sala com outras pessoas, com outro tipo de público; seja associar a filmes encontros literários, como no caso deste ano em que temos um foco sobre Camilleri, um grande escritor italiano que fez cem anos. Temos também um foco sobre o Giorgio Armani, que é um nome incontornável da moda italiana. Há várias festas planeadas, uma na Casa Capitão, dia 4 de abril, com vários DJ italianos a vir.
Para nós é muito importante dinamizar e enriquecer a experiência dos espectadores, não só com o cinema, que é realmente o prato principal, mas depois com uma série de atividades paralelas que dá uma visão mais profunda da cultura italiana.
Há também um lado também social, entre documentário e conversa.
Sim, para nós é muito importante envolver o público nos assuntos que tratamos. Normalmente todas as sessões são apresentadas, tentamos sempre ter convidados para desenvolver a temática de cada um dos filmes.
Este ano, por exemplo, trazemos uma temática para nós muito próxima, um bom exemplo que nos vem da Itália. Vamos fazer uma sessão sobre os Sindicatos dos Estivadores Italianos do Porto de Génova, que bloquearam os navios cheios de armas que iam para Israel. Teremos connosco o Josè Nivoi, que era o representante dos sindicalistas para um debate público sobre estas práticas de como os trabalhadores podem, com as próprias ações, ter um impacto político forte.
O festival tenta chegar a vários públicos através de diferentes formatos?
Sim, esse é o nosso objetivo. Não somos um festival elitista, nem somos um festival que queira fundamentalmente ter um tipo de público único.
Somos um festival que oferece vários tipos de percursos. No nosso site ajudaremos o público a selecionar o próprio percurso, para dar possibilidade de cada um encontrar o seu espaço - seja ao público mais exigente seja ao que está mais interessado na literatura ou que gosta mais do clássico ou da comédia.
Nós reparamos muitas vezes que há um certo tipo de público nosso que já não vai às salas de cinema, que é uma pena, mas vem ao festival. Para nós, voltar a atrair o público ao gosto de uma sala de cinema é muito importante. Por isso tentamos ser o mais abrangentes possível. Vamos ao encontro do público, tentamos encontrar os gostos diferentes com uma programação muito rica e muito segmentada ao mesmo tempo.
Como estão representados nesta edição os novos criadores?
Este ano ampliamos ainda mais a nossa sessão competitiva, que era só dedicada à primeira criação, às segundas obras. São filmes de jovens realizadoras italianos, todos com uma percurso nos grandes festivais internacionais.
Talvez um dos filmes italianos mais falado no Festival de Cannes, 'Le Città di Pianura', um tipo de road movie, com alto grau alcoólico entre os bares da zona de Veneza, que parece quase um filme de Kaurismäki. Outro filme, 'Un Anno di Scuola' de Laura Samani, que estreou no Festival de Veneza, um conto de formação numa escola em Trieste. Temos também uma antestreia internacional de 'Ultimo Schiaffo', quase uma comédia noir, que parece muito o Fargo dos irmãos Coen, tentámos dar visibilidade aos nossos autores.
Ao mesmo tempo também uma secção Altre Visioni, dedicada a novas linguagens com filmes muito interessantes, como 'Una Lungheissima Ombra', que é a primeira obra de um ótimo cantor italiano, Andrea Lato Di Simone, que faz um percurso quase onírico, sentimental, através da sua música, mas através das imagem. Ou um filme como 'White Lies' de Alba Azari, que é fundamentalmente o percurso dessa realizadora, que estará presente a apresentar o filme, que nasceu numa seita Children of God na Tailândia e vai enfrentar os pais e a avó para explicar o que é que foi aquela escolha e como passou uma infância num contexto completamente absurdo, como era aquela seita.
A Festa do Cinema Italiano vai ser palco para antestreias?
Sim, claro. Depois para o festival o evento em si é muito importante e capta muito a atenção, mas é fundamental que o festival seja o primeiro passo para que os filmes possam depois ter algum percurso, encontrar um público ainda mais amplo. Então, sim, temos muitos filmes que entram no festival na própria antestreia, mas que depois têm um percurso próprio.
É o caso da 'La Grazia', filme de abertura de Paolo Sorrentino, depois estreia nas salas de cinema a partir de 16 de abril. É o caso de 'Fuori', de Mario Martone. É o caso de 'As Provadoras de Hitler' de Silvio Soldini e 'Cinco Segundos' de Paolo Virzì, também um filme muito importante. São todos os filmes que encontram o público pela primeira vez na Festa do Cinema Italiano. É muito importante o passa palavra, é muito importante que o público fale e que esses filmes depois possam ser vistos por ainda mais pessoas.
A Festa do Cinema Italiano não é só em Lisboa. O percurso que fazemos em quase vinte cidades de Portugal é também é uma distribuição, quase tentar propor esse cinema ao máximo de público possível.
A Festa do Cinema Italiano inicia o percurso em Lisboa, de 9 a 19 de abril, e no Porto, de 9 a 11 de abril, e segue a sua itinerância por 18 cidades até ao mês de junho: Tavira, Cascais , Setúbal, Alverca, Leiria, Beja, Almada, Coimbra, Moita, Figueira da Foz, Aveiro, Lagos, Vila Franca de Xira, Loulé, Oeiras, Sardoal e Évora.
