Stereossauro: "o meu trabalho com o fado não é só um affair"
Álbum gravado com a cantora Ana Magalhães, "Tristana", é um "tributo às mulheres".
Com os seus atributos de fadonauta, o músico eletrónico Stereossauro fez uma viagem conceitual ao mundo feminino no seu novo álbum, "Tristana", dando voz às mulheres e à cantora Ana Magalhães. Os dedilhados de Ricardo Gordo pela guitarra portuguesa fazem parte da paisagem sonora de "Tristana", refrescada pela corrente de ares do acordeão de Sandra Baptista (que se destacou nos Sitiados e que fez ainda parte d'A Naifa) na passagem de 'Pouca Terra'.
"Tristana" está há vários dias na esfera online, motivo mais do que suficiente para falarmos com o seu autor, Stereossauro.
Houve algum acontecimento que te tenha empurrado para este tributo às mulheres?
Não terá sido um evento em específico, mas todos os factores circundantes. Imagina, fui criado pela minha mãe até aos 15/16 anos. Era mãe solteira. Logo aí, ficas com uma perspetiva diferente. É algo que nos chega todos os dias a casa de uma maneira ou de outra: notícias de mulheres que em certos países não podem votar, coisas que parecem mentira. É preciso não querer reparar em certas coisas para não dar conta delas.
Deu-se o teu encontro com a cantora Ana Magalhães. Foi o encontro perfeito para este projeto que estavas a idealizar?
Sim, não só por ser uma voz feminina que encarnasse essa personagem. Eu também procurava alguém que se dedicasse a esse projeto e em que fosse possível dar um seguimento ao vivo. Um cantor que já tivesse a sua própria carreira e a sua própria agenda iria dar prioridade ao seu próprio projeto. Eu também queria começar a carreira de alguém.
Sentiste receio em apostar num rosto desconhecido como a Ana Magalhães?
Honestamente, não. Nenhum artista deve pensar na reação ao seu trabalho, por parte do público ou de alguma entidade. Essa deve ser a última preocupação. Gostei logo do timbre dela e das características da sua voz. Se fosse uma pessoa com uma presença online gigante, isso ajudaria na propagação da música, mas não é por aí que se deve começar um trabalho. Não é esssa a premissa para trabalhar com alguém.
São dois desafios simultâneos para ti: meteres-te no reino feminino e no reino do fado?
Sim, sendo que o reino do fado é mais tranquilo. Apesar de eu ser um outsider do fado, já exploro esse mundo há dez anos. Tenho já alguma percepção da linguagem do fado. Na perspetiva feminina, não me vou colocar na posição de dizer: "isto é assim", "é assim que acontece", "é assim que se faz". Não tenho essa propriedade de direito. Ao mesmo tempo, não preciso de ser um astronauta para esse escrever um livro sobre a ida à lua. É mais um processo de observação e de interiorização desse mundo, tentando colocar-me no lugar dessa personagem.
O acordeão da Sandra Baptista em 'Pouca Terra' é um bom complemento para essa nova portugalidade que tens procurado há algum tempo?
Eu acho que sim. Portugal não é só fado. O acordeão é algo que está muito enraízado nas festas da aldeia. Eu até tenho uma teoria de que o acordeonista era o DJ de há 60 anos, porque era alguém que ia sozinho com um instrumento e animava a festa. Só com um instrumento, consegue fazer melodias e harmonias. Não sei se será um instrumento de música tradicional portuguesa, acho que não. Mas foi assimilado pela cultura popular. No caso do 'Pouca Terra', a música puxava mais pelos ritmos de cumbia. Enquanto estava a fazê-lo, pensei: "o que fazia aqui sentido era um acordeão". Eu já tinha falado com a Sandra várias vezes. Havia de chegar a altura de a convidar.
Tens gostado de ver o fado a ser revestido pela eletrónica por outros artistas?
Claro que sim, apesar de não acompanhar com a mesma atenção que tu. Não estou a par de tudo o que sai. Mas tenho acompanhado algumas coisas e tenho gostado bastante. Ao haver mais pessoas a defenderem a mesma bandeira valida-me a mim próprio.
Por exemplo, desta nova fase da Ana Moura, chegaste a ouvir algumas músicas?
Ainda só ouvi os dois primeiros singles e gostei muito do 'Andorinhas', que tem um acordeão também.
Não vou dizer que me sinto responsável, mas dá-me um gostinho especial saber que a primeira música assumidamente eletrónica dela terá sido no [álbum] "Bairro da Ponte" [no tema 'Depressa Demais']. Espero ter despertado esse interesse e vontade.
Depois de "Tristana", o que é que se segue?
Neste momento, estou a trabalhar em três discos ao mesmo tempo, dois deles mais virados para o rap e um disco só meu, da minha identidade, só instrumental, nessa continuação do trabalho com o fado, que tem sido mais do que um affair. O que gosto mais de fazer é de estar a picar discos antigos de fado em casa, à procura de samples para dar a minha volta.
Vais ter novamente o apoio do Ricardo Gordo nesse disco instrumental?
Certamente. Ainda estou a juntar ideias para este disco que vão andar mais à volta da guitarra. Não sei se é cedo para dizer isto, mas se no "Bairro da Ponte" o centro foram os fadistas, neste as atenções recaem nos guitarristas.
Vais levar o "Tristana" a palco? O que é que se espera agora?
Espero que sim, estamos a contactar promotores e salas para dar a conhecer a nossa proposta. Estou a preparar um espetáculo com a Ana, com uma componente de vídeo para todas as músicas. Em vez de ser com banda, será uma coisa mais eletrónica. Sou eu com máquinas, samplers e sintetizadores e a Ana a cantar, até pela natureza mais eletrónica deste disco. Achei que faria sentido ser mais fiel a essa sonoridade, em vez de estar a fazer adaptações para banda. Estamos a virar a coisa para o clubbing: vamos ter DJ, cantora e vídeos.
Os vídeos têm diferentes autorias?
Os vídeos fui eu que os fiz todos. Não são videoclipes, são vídeos para o espetáculo ao vivo. Foi algo que comecei a experimentar por brincadeira. A certa altura, apaixonei-me pelo software. Gostei do desafio de imagens para uma música e de que maneira aquilo poderia funcionar num concerto.
Estaremos perante um VJ, mais do que um DJ?
Sou um bocado curioso pelas coisas todas. Gosto de tentar fazer. Claro que se tiver possibilidades e contactos para ter a melhor pessoa possível, ótimo. Mas gosto muito de meter as mãos na massa e aprender novas coisas.
