Suede: show de Brett-Pop no Campo Pequeno
Vocalista Brett Anderson "assumiu as despesas" do espetáculo.
Brett Anderson, Richard Oakes, Mat Osman, Simon Gilbert e Neil Codling. A formação é exatamente a mesma que em 1997, quando os Suede se estrearam ao vivo em Portugal, na edição de estreia do Festival Sudoeste, num concerto memorável que ajudou a esquecer a prestação tecnicamente desastrada dos dEUS horas antes.
Como veremos nas linhas mais abaixo, o quinteto é o mesmo, mas várias coisas mudaram, se embatermos os Suede de hoje com os Suede dos anos 90. No teste “descubras as diferenças”, as semelhanças não são tantas quanto aparentam.
Os Suede são profissionais de topo e a pontualidade continua a não falhar. Às 21h00, a banda londrina já estava a fazer tremer o palco. A entrada é rude, como se esperava, por via de ‘Disintegrate’, a transpor para o seu habitat o rock mais áspero do último álbum, “Antidepressants”. Brett Anderson tenta glorificar o tema o mais que pode, à espera de uma cantoria coletiva que só surge timidamente e cada vez menos timidamente à medida que Brett persiste com o suporte de microfone na direção do público uma e outra vez. Lição bem compreendida, o público lá aprendeu a cantar ‘Disintegrate’, teve três minutos para o assimilar.
O tema-título ‘Antidepressants’ é irmão-gémeo de ‘Disintegrate’, em nova sova de indie-rock. O cabelo de Brett Anderson cobre agora a testa, já não a circunda em estilo como dantes. Brett está hoje mais masculinizado e normal, menos figura de poster, mas mantendo uma magreza tão juvenil e invejável, quase inalcançável para os homens da sua idade.
Brett Anderson resolve elogiar o público de Lisboa enquadrando-o na letra de ‘Trash’, citando-a antes de a cantar: “We're the litter on the breeze / We're the lovers on the streets”. Está dada a deixa para o famoso tema de 1996. Os espectadores transfiguram-se como se fizessem a metamorfose de enfadonhos Clark Kents para exuberantes superhomens e superfãs. Iniciado o voo, só largam a capa terminado o concerto. Os óculos ficam escondidos. Perdem a vergonha e cantam alegremente e em comunidade. Brett Anderson, já se sabe, é outro superherói. O cantor não se agiganta apenas com os pés em cima dos monitores de palco. O vulcão desperta nas almas dos espectadores, mas também na de Brett, que parece um miúdo eufórico.
O pedal da máquina do tempo está ao fundo, nos anos 90, agora com ‘Animal Nitrate’, com Richard Oakes a conseguir arcar com a herança dos sons led-zeppelianos, costurados pelo seu antecessor Bernard Butler. Ao lado, Brett Anderson faz efeitos serpenteados com o fio de microfone e bate palmas, numa garra que convoca também a pose icónica e que impede que o tema desbote alguma vez, passados mais de 30 anos.
A primeira meia-dúzia de canções é servida sem pausas. E é nesse frenesim que Brett Anderson se infiltra no meio da plateia em pé, enquanto canta o single debutante ‘The Drowners’. Os Suede dão tudo, substituindo a subtileza e o refinamento pela força. Só a fé é a mesma.
Depois, para o equilíbrio que falta ao mundo, vem o contraste. As luzes azuladas. O intimismo. As baladas, como ‘Indian Strings’. E o tempo desapressa-se e a poesia emerge.
A vertigem é reintroduzida por ‘Filmstar’. Estamos na praça de touros do Campo Pequeno e o microfone volta a girar nas mãos de Brett como se fosse lançar uma corda num rodeo. Quanto muito, acerta nos corações. ‘Can't Get Enough’ cola-se na perfeição e Brett Anderson parece estar a cantar mesmo a sério o refrão e a levá-lo à letra, sempre a puxar pelo público. Ele é infatigável.
As águas amansam outra vez em ‘June Rain’, em que Brett parece cantar para cada espectador quando se aproxima da multidão, com a ajuda da introspecção da balada, com o foco de luz a incidir apenas no cantor e naquelas pessoas. Richard Oakes está na sombra das luzes mas não no som, com um dedilhado que sustenta todo o tema. Em ‘She Still Leads Me On’, as cortinas verticais do palco dão uma ilusão tridimensional com a imagem gráfica do álbum “Autofiction.
Não há intervalos, os temas não param. Em ‘Shadow Self’, Brett Anderson só pede que o público cante mais alto, em puro indie rock, sem resquícios de pop, tal como acontece em ‘Trance State’, com Brett Anderson a voltar a fazer o que canta, num transe juntamente com os espectadores a quem sempre gosta de se aproximar. Num símbolo de devoção, Anderson faz o remate do tema de joelhos na função de diseur.
Como um balancê, entre agitação e calmaria, esta segunda volta a ter a sua vez. ‘Still Life’ é um intimismo ao piano que vai ainda mais fundo quando Brett Anderson canta à capela e sem microfone. O momento comove o público. A sua voz já não é o que era, mas ninguém duvida do seu espírito de entrega. ‘Everything Will Flow’ reacende a banda e mantém o empolgamento, com o toque de efeito orquestral dos teclados de Neil Codling.
Volta-se a 1993, o ano de revelação dos Suede, com ‘So Young’, e os seus efeitos de rejuvenescimento que contagia todos os presentes na sala, como um vírus benigno que se contagia pelo ar. Em ‘Metal Mickey’, volta a sentir-se o fantasma de Butler na guitarra bem transplantada de Oakes, em nova efervescência dos velhos tempos
Depois, quem passa a cantar à capela é o público, incentivado por Brett Anderson para uns la-la-las com uma melodia que é o contorno de ‘Beautiful Ones’ que toma forma, com o quinteto em ação e com Brett Anderson a saltitar com o público novamente no meio da plateia.
O encore é cumprido com um dos temas mais recentes, ‘Dancing with the Europeans’, com Brett Anderson a conseguir que o público cante o refrão de forma efusiva. Foram 80 minutos de concerto. Soube a pouco. Ou como Brett Anderson cantaria, ‘Can’t Get Enough’. Quando se quer mais, é bom sinal.
