Talento feminino qualificado continua longe da liderança nas empresas portuguesas

Desigualdades salariais persistem em vários setores, segundo a análise da Randstad Research.

Portugal está entre os países europeus com maior percentagem de mulheres qualificadas no mercado de trabalho. No entanto, esse capital humano ainda não se traduz numa presença equivalente nos cargos de liderança. A conclusão é reforçada por dados analisados pela Randstad, que mostram um desfasamento significativo entre qualificação e acesso ao topo das organizações.

De acordo com Érica Pereira, responsável da área de research da empresa, Portugal é atualmente um dos países europeus onde o talento feminino apresenta níveis de qualificação mais elevados. Ainda assim, apenas uma pequena parte chega a cargos de direção.

“Portugal é o quarto país em que o talento feminino é mais qualificado, representando cerca de 59%. A grande questão é perceber porque é que apenas cerca de 16% ocupa cargos de direção”, explica.

Para a especialista, esta realidade revela uma “falha na conversão do talento”, isto é, o país forma e qualifica mulheres, mas o mercado de trabalho não consegue transformar esse potencial em presença nos lugares de decisão.

Uma das explicações apontadas para esta diferença está na própria estrutura do mercado laboral. Os dados analisados pela Eurostat e pelo Instituto Nacional de Estatística mostram que as mulheres continuam concentradas em determinados setores de atividade.

Áreas como a saúde, o apoio social e a educação continuam a ter uma forte presença feminina. No entanto, esses setores registam frequentemente maiores desigualdades salariais.

“Verificamos que o género feminino está muito orientado para áreas como saúde e apoio social ou educação. E é precisamente nesses setores que encontramos também alguns dos maiores gaps salariais”, sublinha Érica Pereira.

Paralelamente, setores como a construção ou a indústria continuam a ter maior presença masculina, o que reforça a segregação profissional entre géneros.

Outro fator que contribui para as desigualdades está relacionado com o trabalho a tempo parcial. Segundo os dados analisados, as mulheres trabalham significativamente mais em regime de part-time do que os homens.

Entre trabalhadores com filhos, cerca de 8,5% das mulheres trabalham a tempo parcial, enquanto apenas 3,2% dos homens optam por este regime.

“Quando analisamos os motivos para o trabalho a tempo parcial, percebemos que, no caso das mulheres, está muitas vezes associado a razões familiares. No caso dos homens, surgem sobretudo razões ligadas à educação ou a motivos pessoais”, explica.

Esta realidade traduz-se frequentemente em menor rendimento e também em trajetórias profissionais mais lentas.

Apesar da evolução verificada nas últimas décadas, a maternidade continua a ter impacto na progressão profissional das mulheres.

Segundo Érica Pereira, as interrupções ou pausas na carreira ainda são, muitas vezes, interpretadas pelas organizações como uma quebra na continuidade do desenvolvimento profissional.

“Infelizmente, estes gaps na carreira têm impacto na contratação ou na progressão, porque existe uma ausência na continuidade do desenvolvimento profissional, que ainda é muitas vezes vista de forma negativa”, refere.

Para a especialista, esta perceção não corresponde à realidade das competências das profissionais e exige uma mudança cultural nas organizações.

A presença de mulheres em cargos de topo tem aumentado ao longo da última década, mas continua longe da paridade. Atualmente, apenas 15,7% dos cargos de CEO e executivos nas maiores empresas são ocupados por mulheres.

Questionada sobre a existência do chamado “teto de vidro”, Érica Pereira considera que as barreiras continuam a existir, embora muitas vezes de forma mais subtil.

“Tem havido evolução ao longo dos anos e muito trabalho tem sido feito pelas empresas. Ainda assim, existe uma componente cultural importante que precisa de continuar a mudar para que a progressão seja mais equilibrada”, afirma.

As diferenças salariais também continuam a ser uma realidade em diversas áreas de atividade. Um dos casos mais expressivos surge no setor das atividades artísticas, desportivas e recreativas, onde o fosso salarial pode atingir 48,5%.

Segundo a especialista, este valor pode estar relacionado com a maior presença masculina em determinadas funções mais bem remuneradas dentro destas áreas.

Em sentido inverso, há setores como a construção ou a indústria onde algumas mulheres acabam por ter salários médios superiores aos homens, sobretudo quando ocupam cargos técnicos ou de gestão.

Apesar dos desafios, a especialista da Randstad considera que Portugal tem feito progressos e acompanha a tendência média da União Europeia no reforço da igualdade no mercado de trabalho.

“Estamos no caminho certo. Há mudanças culturais em curso e maior presença feminina em cargos de gestão. Mas ainda há muito trabalho a fazer para alcançar uma verdadeira igualdade”, conclui.

Erica Pereira sobre o estudo sobre as mulheres no trabalho