Tatanka em Moçambique: "Estou 'farto' de aprender novos ritmos, novos balanços, novas maneiras de estar e não só artisticamente"

O cantor e o fotógrafo e realizador Arlindo Camacho criar uma canção e um minidocumentário sobre a experiência em Moçambique.

O cantor Tatanka e o realizador Arlindo Camacho foram com a Helpo ao norte de Moçambique numa espécie de “residência artística”. Neste tempo a deambular pelo país africano conheceram a realidade, cultura e sons que por lá se fazem. À boleia da organização humanitária estiveram em comunidades remotas, "no meio do mato", para criar uma canção e um minidocumentário sobre a experiência.

Falámos com Tatanka para conhecer mais desta passagem enquanto ainda estava na Ilha de Moçambique, na sexta-feira 27 de março.

Entrevista a Tatanka

Como é que tem sido a experiência em Moçambique? 

Oh, tem sido uma experiência realmente muito enriquecedora. Muito vasta também, porque é um país enorme, cerca de nove vezes Portugal. Portanto, chegamos e estivemos um bocadinho em Maputo no primeiro dia, depois viajamos logo para Nampula nesse mesmo dia. Nampula, para se ter noção, fica, sei lá, como se Lisboa para a Bélgica, uma coisa assim, de distância. Portanto, é um país realmente muito grande.

Há uma vastidão de culturas muito grande também. Já estivemos dentro das comunidades mais rurais, mais profundas, no mato, dos projetos mais tribais até bandas com som super europeu e super americano também na cidade. Acima de tudo, tem sido muita aprendizagem, estou bastante grato por poder estar aqui a dar o meu humilde contributo, que sabemos que é só um grão de areia num areal, mas que é feito com muita vontade de ajudar quando possível. 

Há essa vertente quase dupla, não é? Dar um pouco, mas receber muito. Acredito que seja também uma fonte de inspiração. 

Sim, nós trouxemos o nosso estúdio portátil, o Arlindo trouxe as câmeras de filmar e de fotografar, etc. Por exemplo, nós tivemos numas comunidades mais remotas, onde ouvimos os grupos tradicionais a actuarem. Aquilo é uma música bastante virgem ainda, bastante tribal, pouco ou nada influenciada pelo mundo exterior. Essa experiência é realmente algo que nunca tinha vivido, bastante inspiradora.

Estou a gravar todas as performances deles, depois tenho uma colunazinha e disparo a gravação. A maior parte deles nunca tinham sido gravados, nunca se tinham ouvido eles próprios a actuar. Então é uma reação bastante engraçada deles e bastante gratificante também de vê-los a: "Ai, é assim que isto soa". Foi muito fixe e bastante inspirador, realmente estou 'farto' de aprender novos ritmos, novos balanços, novas maneiras de estar e não só artisticamente ou culturalmente ou musicalmente. Também uma própria perspetiva completamente diferente da vida que nos faz pensar se precisamos de tudo o que queremos, do nosso modo de estar ocidentalizado. 

Esta parte de absorver a cultura vai refletir-se na música que estão a preparar? 

Sim, vai sentir-se muito porque eu vim só com uma pequena base, tudo em aberto, que pudesse ser o ponto de ligação para as diferentes gravações que nós vamos fazendo ao longo deste tempo que estamos aqui e que percorre os sítios todos por onde vamos andar. Então, tinha que ter uma base que pudesse unir tudo para poder depois juntar as peças do puzzle. Levei uma base de baixo, algumas ideias melódicas também, uma base de baixo e bateria, algumas guitarras e algumas melodias que eu queria que fossem o refrão, uma coisa que juntasse tudo. Tem funcionado lindamente. Já consegui pôr as aldeias inteiras a cantar aquela melodia. Consegui pôr os tabores e os batuques e juntá-los à música. Entretanto conhecemos outra banda, gravámos umas vozes maravilhosas, umas guitarras, uns teclados. Hoje vou gravar mais pessoal aqui na ilha de Moçambique, já combinei com mais uns artistas locais para gravarmos mais logo e depois ainda vamos para Maputo nos últimos dias. Vai ter uma vastidão enorme de estilos e de pessoas a participar.

Só que só quando chegar aí é que eu vou fazer a ligação dos pontos todos, é que eu vou montar as peças do puzzle. A música, neste momento, está uma manta de retalhos, toda desmembrada. Vai demorar algum tempo porque neste momento o projeto de gravação está um caos completo, cheio de gravações de tudo e mais alguma coisa. Quando chegar aí vai dar algum trabalho, mas vai valer bastante a pena. Tem valido muito a pena acima de tudo, podermos dar alguma voz também, aliar-nos nesse ponto de vista ao trabalho que a Helpo está a desenvolver aqui que é maravilhoso nas comunidades mais afastadas de construção de salas, de apoio, na nutrição... Todo este trabalho maravilhoso que elas estão a fazer. Se pudermos ajudar a dar voz é importante para que possam recolher mais apoios para poder continuar, porque temos estado em comunidades em que tu vês três ou quatro casinhas ali à volta e de repente está o toque de saída e estão mil crianças naquela escola. É realmente um desafio quase hercúleo que eles têm pela frente.

Viemos com esta missão de poder ajudar humildemente a contribuir para a causa. 

Há aqui este lado, é uma "residência artística" inusitada, mas que há esta missão por detrás de tentar primeiro dar visibilidade ao trabalho da Helpo e ajudar de alguma forma. 

Sim, acima de tudo, isto é uma residência sobre rodas, em que andamos de um lado para o outro, mas acima de tudo acho que o termo mais apropriado é se calhar sermos uma ponte entre culturas completamente distintas e extremamente longe uma das outras. Artisticamente e filosoficamente falando, não tanto institucionalmente, cria-se uma ponte que tenta encurtar distâncias entre realidades tão distintas. Essa ponte somos nós, eu e o Arlindo, e a Helpo também, obviamente.

Daí vai nascer uma grande amálgama de sons diferentes, sendo o país tão grande as influências e as tradições também são muito distintas. Depois vai ter gente com ligações a Moçambique, parte pessoas descendentes, aí em Portugal a fazer parte da música. Obviamente ajudar, podemos dar o nosso humilde contributo, para que a causa ganhe força e voz, para que se possa continuar este trabalho maravilhoso de ajudar estas comunidades e estas pessoas que, nos casos, precisam realmente muito da ajuda.

Podemos já saber alguns destes nomes que vão participar no projeto?

Olhe, sendo a Helpo uma instituição que ajuda acima de tudo na área e no âmbito da educação, eu quis que acima de tudo fossem pessoas e miúdos ligados às escolas que foram apoiados, então ligados às comunidades. O facto da Helpo apoiar a escola naquela comunidade acaba por, indiretamente, influenciar a comunidade a seu redor.

Quis que fossem pessoas ligadas a estas comunidades e não artistas estabelecidos. Eventualmente, em Maputo, vou tentar uma participação, mas depois logo vos direi. Neste momento, ainda não passa só de uma vontade minha de ter aqui um artista moçambicano assim mais renomado. De resto, são artistas que eu tenho conhecido. Acho que fazia mais sentido dar voz a quem não tem e simbolizar também com isso o trabalho que a Helpo faz, que é dar oportunidades a quem não as tem em vez de partir do princípio de dar voz a quem já a tem.

Há alguma data pensada para o lançamento do projeto? Para as pessoas poderem conhecer esta música, esta amálgama? 

Nós estamos a pensar no início de junho, mês seis, para termos tempo de organizar tudo, gravar e filmar as coisas que queremos fazer aí com estes artistas que eu sei que são de origem moçambicana e que são grandes amigos também. Acho que faz sentido estarem como símbolo dessa ponte que encurta as distâncias. Portanto, este é um processo que só agora está a começar, acho que dois meses é uma data segura para podermos afirmar que vamos ter qualquer coisa pronta ali no início de junho. Nunca antes.