Teatro O Bando estreia em Palmela "1001 Noites - Irmã Santomense", um espetáculo de celebração

O último espetáculo da tetralogia, até 31 de Maio, ao ar livre, junto ao Cine-Teatro São João, em Palmela.

O Teatro O Bando apresenta em Palmela o espetáculo 1001 Noites – Irmã Santomense, criação que encerra a tetralogia inspirada nas Mil e Uma Noites iniciada em 2023. A nova produção cruza teatro de rua, música, dança, comida e participação do público numa experiência coletiva marcada pela cultura são-tomense e pela reflexão sobre poder, opressão e resistência.

Em entrevista, o dramaturgo Miguel Jesus explicou que o projeto nasceu da vontade de transformar as Mil e Uma Noites “num património da humanidade” capaz de dialogar com diferentes geografias e culturas. “Imaginámos que para cada espetáculo haveria uma irmã diferente”, afirmou, referindo-se à personagem Xerazade, que em cada criação surge ligada a um país distinto.

A tetralogia começou com Irmã Persa, encenada por Susana Branco e interpretada por uma atriz iraniana. Seguiu-se Irmã Palestina e depois A Irmã Mapuche, dedicada ao povo indígena sul-americano. Agora, o ciclo termina com Irmã Santomense, resultado do encontro com a atriz são-tomense Adozia Cristo.

“Quisemos aproximar-nos da Adozia, deste imaginário de São Tomé”, explicou Miguel Jesus, sublinhando também a participação de um pintor são-tomense, de um músico angolano ligado às sonoridades de São Tomé e das influências sonoras do DJ Marfox. “Tudo isso contribui para isto ser também uma celebração do encontro com a cultura são-tomense”, acrescentou.

Falado em português e em forro, o espetáculo dá destaque à língua crioula de São Tomé e Príncipe, que Miguel Jesus descreve como “uma língua lindíssima” e simultaneamente frágil.

“O forro quase ficou extinto porque os próprios pais tinham receio de o ensinar às crianças”, explicou. Segundo o ator, o medo de que os filhos revelassem “os segredos e as conversas de casa” aos colonos levou muitas famílias a abandonarem a transmissão da língua.

No espetáculo, o forro surge como símbolo de resistência e resiliência, funcionando também como ferramenta dramatúrgica. A narrativa acompanha uma trupe de saltimbancos que tenta convencer o rei Shahryar a reencontrar a humanidade e abandonar a tirania.

“O espetáculo é precisamente sobre isso: se é possível ou não salvar o Shahryar”, afirmou Miguel Jesus. “Até que ponto a vingança se pode ou não tornar justiça.”

Apresentado ao ar livre, o espetáculo inspira-se no Tchiloli  manifestação cultural tradicional de São Tomé e Príncipe, e nas práticas ancestrais de narração oral das praças árabes.

Miguel Jesus esclarece que a companhia não pretende reproduzir o Tchiloli , mas recuperar “esse lado de ocupar pequenas praças, pequenos largos, de trazer o teatro para a rua”. O público é tratado como parte integrante da ação: habitantes de uma aldeia por onde passa uma trupe itinerante dominada por um líder opressor.

“A trupe precisa do público para compreender o que se faz e para tentar manipulá-lo, de alguma forma, para que ele possa ser diferente”, explicou.

A dimensão festiva é igualmente central. Os espectadores são convidados a partilhar comida e bebida durante a apresentação, numa tentativa simbólica de “amaciar” o rei Shahryar. “Encerramos estas Mil e Uma Noites também com celebração e festa”, disse o ator.

Apesar das questões profundas que levanta (opressão, perdão, violência ou justiça), 1001 Noites – Irmã Santomense aposta fortemente no humor popular.

Miguel Jesus recorda que muitas histórias originais das Mil e Uma Noites são “extremamente cómicas”. Entre as personagens estão “um barbeiro que nunca pára de falar e nunca corta o cabelo” ou “um pobre que come comida invisível”.

“Também é um espetáculo de rua popular”, afirmou. “Mas realmente também tem momentos mais poéticos”, acrescentou, destacando a presença de elementos mágicos, génios e transformações inspiradas no imaginário cultural de São Tomé.

Embora este espetáculo marque o encerramento do ciclo iniciado em 2023, Miguel Jesus admite que o universo criado poderá continuar.

“Esta tetralogia encerra-se porque tem realmente um final”, explicou. “Mas, como nas boas temporadas das séries televisivas, há sempre uma coisinha que fica, que pode dar um novo início.”