Teresinha Landeiro: "os fadistas são resilientes como as árvores"
"Será que lhe Descobres a Poesia?" é o nome do novo álbum da fadista lisboeta.
Teresinha Landeiro edita esta sexta-feira “Será que lhe Descobres a Poesia?”, o quarto álbum de estúdio e o sucessor de "Para Dançar e Para Chorar".
"Para o novo registo, a fadista inspirou-se na obra do pintor Alfredo Luz no sentido de criar uma unidade estética e como fonte de inspiração para escrever grande parte do álbum", descreve o comunicado de imprensa.
“Será que lhe Descobres a Poesia?” conta com uma série de convidados, como Dino D’Santiago, Marcelo Camelo, Amaro Freitas, António Zambujo, Mimi Froes, Eduardo Cardinho, Orquestra Assintomática e Luísa Sobral.
Teresinha Landeiro assina a maior parte das letras. "Bernardo Couto (guitarra portuguesa), André Ramos (viola de Fado) e Francisco Gaspar (baixo acústico) formam o trio de fado que marca presença na quase totalidade do álbum que foi captado, mixado e masterizado por Fernando Nunes", acrescenta a nota.
A fadista e autora anunciou recentemente um espetáculo para o dia 1 de abril no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa. O concerto tem a coprodução do Museu do Fado.
Oiça a entrevista completa:
Vamos conversar sobre este disco maravilhoso que se chama "Será que lhe Descobres a Poesia?". É um título enigmático. O que é que significa?
Este título tem várias leituras. Existe a mais óbvia, que é o título de um fado no qual eu questiono, "será que descobres a minha poesia, se te mostrar o coração. Encontras-me? Descobres-me? Tens vontade de me descobrir? Queres conhecer-me?". Acho que isto é o mais básico numa relação entre duas pessoas, seja qual for o tipo de relação. É quando tentamos descobrir a poesia no outro. Quando nos lemos mutuamente. Depois, há uma dualidade no disco, que é a música e a pintura. O meu trabalho neste disco foi descobrir a poesia na pintura do Alfredo [Luz]. Acho que todo o tipo de arte tem a sua poesia. Isto não significa que tenha escrito poesia. Escrevi letras de canções básicas. Mas tentei encontrar a poesia que existia nos quadros do Alfredo. Espero que, de alguma maneira, tenha conseguido fazê-lo. E espero que as pessoas, ao ouvirem o disco, consigam encontrar a poesia da forma que quiserem. Se calhar, até podem ouvir as minhas letras e interpretar os quadros de outra forma. Isso é muito interessante. A pergunta "será que descobres a poesia?" é para qualquer pessoa poder descobrir a poesia no lugar que preferir.
A canção é como um quadro, pode ficar aberta a muitas interpretações…
Sim. Fica aberta à interpretação de quem a escuta.
Já vamos às pinturas do Alfredo Luz. Antes quero focar-me na capa do álbum. És tu ao lado de uma rosa. Existe alguma simbologia nesta capa?
Sim. A capa é o retrato de um dos meus quadros favoritos. O álbum tem doze quadros diferentes e a fotografia da capa retrata o meu quadro preferido. É o quadro que retrata um músico a tocar para uma rosa e é o que ilustra a canção ‘Cresciam Flores’, cuja letra é do Amaro Freitas. É uma das minhas canções preferidas porque retrata o que para mim é ser músico. Nós “perdemos tempo” a tocar para uma flor. E quando mais ninguém nos quiser ouvir, não vamos deixar de fazer música. Vamos sempre fazer música nem que seja para uma flor. Acho que tem uma simbologia muito bonita e especial. Retrata muito bem aquilo que sinto enquanto artista. E significa ainda mais com este disco. Mesmo que ninguém o queira ouvir, estou satisfeita com o que fiz. Tocaria este álbum apenas para uma flor.
E não terá sido à toa que tenhas feito essa canção com o [artista brasileiro] Amaro Freitas. É um artista muito espiritual. Como é que surgiu a vossa colaboração?
Confesso que ainda não nos encontrámos pessoalmente. Quando descobri a arte e a música do Amaro, fiquei apaixonada. O meu manager, o Pedro Trigueiro, como tem um contacto mais direto com ele, pediu-lhe a música por mim. Ele enviou o instrumental e eu escrevi a letra posteriormente. Quando recebi a canção, fiquei tão emocionada que pedi o contacto dele ao Pedro para poder agradecer-lhe. Quis dizer-lhe: “Olha, Amaro, recebi agora a tua canção. É linda de morrer. Já era fã da tua música e da tua arte, mas isto é mesmo muito bonito. Vou tentar fazer uma letra à altura desta melodia.” Demorei meses a escrever uma letra para aquela música. Quando finalmente acabei, gravei-a em casa. Ficou uma gravação muito caseirinha, mas, ainda assim, enviei-lhe. Ele ficou muito emocionado. Disse que não estava nada à espera daquilo e que a letra servia muito bem a música. O Amaro foi uma das pessoas mais entusiastas a ouvir o resultado da colaboração. Não me vou esquecer daquilo que ele me disse quando lhe enviei a gravação oficial. "O que é que posso dizer depois disto?” Foi esta resposta dele. E com isto eu pensei, “bem, acho que conseguimos. Está aqui um belo casamento."
Estava a ouvir-te a falar da simbologia de um artista a cantar para uma flor e questiono-me sobre aquilo que pensas em relação à inteligência artificial ao serviço da arte. Há artistas que a recusam e há outros que a utilizam como ferramenta…
Para mim é um pouco assustador porque vejo a arte como uma coisa muito orgânica. Acho difícil que uma máquina consiga reproduzir na perfeição aquilo que um artista faria. Percebo que a inteligência artificial seja útil em muitas coisas. Eu uso-a diariamente. Quando tenho uma dúvida, pergunto ao ChatGPT. Mas, em termos artísticos, acho que é esquisito. É muito estranho porque acho mesmo que a arte vem de um sítio muito específico e muito humano. Vem de um lugar que acredito que seja difícil para uma máquina reproduzir. Esta é a minha opinião, vale o que vale. (...) Nós não somos perfeitos. E é essa imperfeição que nos torna mais reais. Às vezes, deixamos passar imperfeições nos discos para que as pessoas percebam que não somos máquinas. Somos reais e há coisas que não são perfeitas. Eu gosto de ouvir um disco que tenha imperfeições, que tenha uma nota mal pisada, por exemplo. Será que os robôs vão ter essa sujidade? Não sei se vão. E eu gosto disso. Portanto, já existe aqui uma distância entre mim e o robô. Mas é só a minha visão.
Vamos voltar a meter o foco no álbum. Li numa entrevista que deste recentemente, que é o álbum que querias escrever há muito tempo. Porquê?
Descobri o Alfredo Luz em 2019. Antes disso, ligava pouco à pintura. Gostava de pintura, mas era uma arte sobre a qual não percebia muito. Sentia que não me emocionava, ao contrário da dança ou da música. Não tinha uma relação muito próxima com a pintura. Mas fiquei muito emocionada quando vi um quadro do Alfredo. Nunca me tinha acontecido tal coisa. Pensei que o quadro teria de ter algo diferente. Nem sei explicar muito bem. Então, em 2020, criei uma pasta no meu computador (com o nome "Projeto Alfredo") na qual coloquei mais de trezentas obras assinadas por ele. Fiquei louca. Acho que me tornei numa espécie de stalker. Ele nem sonha. Mas fiquei obcecada com a arte dele. Andei a pesquisar e fui colocando tudo o que encontrava nessa pasta. Enquanto o fazia, pensava: "um dia vou fazer um disco sobre ele". Não tive coragem de avançar com a ideia no disco anterior porque senti que ainda não era a altura certa. Quando surgiu a hipótese de fazer este disco, decidi tirar o "Projeto Alfredo" da pasta e transformá-lo num disco. Falei com o Alfredo, pedi-lhe autorização e disse-lhe que era o que queria fazer.
Como é que ele reagiu?
Ele já me conhecia. Descobri a arte do Alfredo na altura da pandemia. Quando vi o primeiro quadro, que se chama 'Recompensa', fiquei apaixonada. Fiz, inclusivamente, uma canção sobre aquela obra de arte [A ‘Lei da Recompensa’]. E depois decidi dizer ao galerista [da galeria onde estava exposto] que queria ficar com o quadro. Eram três da manhã quando lhe enviei uma mensagem a dizer o seguinte: "olhe, não consigo dormir sem dizer-lhe que aquele quadro tem de ser meu. Dê por onde der, por amor de Deus, não me venda o quadro até amanhã, porque eu quero comprar o quadro." Claro que, às três da manhã, ninguém vende um quadro, certo? Mas, entretanto, recebi uma mensagem do galerista, também a horas indiscretas, com a resposta: "não se preocupe. Amanhã falamos. O quadro é seu." Entretanto, contei ao galerista que tinha feito uma música sobre o quadro e o galerista decidiu enviá-la ao Alfredo. O Alfredo ouviu e ligou-me a agradecer. Disse-me: "Teresinha, nunca ninguém tinha feito uma canção sobre um quadro meu. Estou muito emocionado." E eu, claro, também fiquei muito emocionada por receber uma chamada do Alfredo. Quando surgiu o projeto, contei-lhe que tinha a ideia de fazer um disco inteiro sobre as obras dele. Ele ficou muito contente, disse que tinha muito gosto nisso e deu-me autorização. Desde essa altura, tem estado sempre muito perto do processo. Tenho partilhado tudo com ele. Estamos a ir por um bom caminho. E fiquei com o quadro. Está na minha sala.
Como é que de um quadro se passa para uma canção?
Acho que é um processo mágico. E nessas alturas percebemos que há determinadas coisas que nos inspiram e outras que nem por isso. É muito fácil, por exemplo, escrever uma canção inspirada num livro, porque existe uma história. Eu achava que seria igualmente fácil escrever a partir de um quadro. Mas depois percebi que, para mim, era muito mais fácil compor inspirada nos quadros do Alfredo Luz. E não é algo que aconteça naturalmente, com qualquer obra de arte. As cores que o Alfredo utiliza levam-me para um determinado imaginário, para uma história. E gosto muito quando os quadros têm título. Quando encontrava quadros sem título, perguntava ou tentava encontrar os títulos em algum lugar. Os títulos ajudam-nos a perceber para que lugares é que o artista quis ir. Mas o mais engraçado é que, muitas vezes, eu e o Alfredo fomos para sítios completamente diferentes. Mesmo sabendo qual era o título, a pintura levou-me para caminhos diferentes dos que estavam na cabeça do Alfredo. Acho que o facto de vermos as coisas de uma forma diferente é muito giro.
Mas há um, o ‘Tanto Céu’, em que os dois caminhos se cruzaram…
Sim. Fiquei com o título do quadro dele. O quadro chama-se mesmo ‘Tanto Céu’. "Roubei-lhe"o título. Aliás, o Alfredo tem o 'Tanto Céu I', o 'Tanto Céu II', o 'Tanto Céu III' e ainda deve ter mais. Encontrei pelo menos três que são diferentes, mas todos têm uma nuvem a chorar. Um tem umas mãos, outro tem um recipiente a receber a água, mas há sempre uma cara. É sempre algo humano a receber a chuva.
O título 'Tanto Céu' é amplo para reflexão. O que é que o título significa na tua canção?
É exatamente isso. O céu é enorme e diferente para todos. Para uns é um lugar de crenças. Outros não ligam o céu a nenhuma crença. Para outras pessoas é um lugar de liberdade. E para outros é um lugar um pouco assustador por ser tão grande e desconhecido. Quis que o céu desta canção chegasse a toda a gente. Quis que toda a gente conseguisse ver um pouco deste céu, que é tão imenso. Os que acreditam, os que não acreditam, os que têm esperança e os que não têm esperança. É essa a história.
E para essa canção “convocaste” o Marcelo Camelo, certo?
Sim. (…) Desafiei o Marcelo a fazer a canção. Quando lhe enviei a letra, ele fez algumas alterações para conseguir fazer a música. Isso levou-me a ter de reajustar a letra à música dele. Havia frases escritas por ele que eram mil vezes melhor que as minhas. Ele não escreveu muito, mas, ainda assim, tentei aproveitar algumas ideias. Achei que eram muito bonitas. Um exemplo é a ideia de olhar para o céu como o "manto do destino". É uma imagem muito bonita. É a ideia de o céu ser o manto do destino, que está sobre nós e que nos guia. Ou não.
Pelo menos, temos de vestir esse manto, não é?
Sim, sim.
Ninguém escapa.
Ninguém escapa. Não.
Além do Amaro Freitas e do Marcelo Camelo, neste disco tens as colaborações de António Zambujo, Dino D’Santiago, Mimi Froes, Luísa Sobral e também de uma orquestra…
Sim, a Orquestra Assintomática, embora num formato reduzido. Neste álbum tocaram só três elementos: o Martín Sued e mais dois convidados.
Quando falámos sobre o teu disco anterior [“Para Dançar e Para Chorar”], no qual já tinhas uma série de convidados, disseste-me que querias sair da tua ilha. Voltaste a querer dar um passeio?
É diferente. Neste disco há apenas duas letras que não são da minha autoria. São canções com letras da Luísa Sobral e da Mimi Froes. As duas canções ['Antes de te Dares ao Mar' e 'Não Partas Hoje'] foram-me entregues antes do disco existir. Senti, porém, que fazia sentido tê-las agora neste álbum. Tendo em conta as temáticas e os quadros que escolhi, as duas canções encaixavam muito bem. Não queria perdê-las. É mais fácil, para mim, pedir músicas em vez de letras porque é importante rever-me nas coisas que canto. No disco anterior saí da minha ilha porque tive de encarnar as histórias dos outros. Confesso que é um processo mais difícil. Neste álbum foi mais simples, porque as histórias são quase todas minhas, excetuando as canções da Luísa e da Mimi. Essas duas canções não são minhas, mas é como se fossem. Abracei-as assim que as recebi. Ainda não existia este novo disco e já estavam na minha gavetinha das escolhas. Para as outras canções, pedi as melodias, excetuando a canção com o Dino. Foi ele que escreveu a parte em que canta. Os outros convidados vestiram as minhas palavras, o que, para mim, torna o processo de interpretação mais simples. É mais fácil viver um texto meu. Meti um pezinho fora da minha ilha mas não saí da ilha, como aconteceu da outra vez. (…) No álbum anterior saí mesmo da minha zona de conforto.
E qual é que foi o ponto de partida para o álbum. Que pensamentos esvoaçaram pela tua cabeça quando começaste a imaginar o disco?
Houve ali um período em que estava a escrever com alguma cadência mas depois parei e fiquei um pouco presa. E, de repente, quando percebi que faltava só um bocadinho [para acabar], comecei a escrever mais depressa e com mais inspiração. Quando comecei a ver o disco a acontecer, tomei algumas decisões. Decidi que não queria um produtor externo, que queria produzir o disco em conjunto com a minha banda. E também decidi que queria que o disco fosse um regresso a casa em matéria de sonoridades. Quando falo em regresso a casa é no sentido de voltar aos fados. Não significa que o álbum não tenha outras instrumentações, mas a base é o fado. Soube muito bem voltar a casa e fazer um disco que é a minha cara. Acho que o que sei fazer melhor é cantar fado. E depois foi tudo acontecendo, o álbum foi surgindo. Nos ensaios fomos percebendo que sonoridade é que [o álbum] iria ter. O processo foi fluindo e aconteceu naturalmente. Os nomes dos convidados surgiram para encaixar nas canções. Por exemplo, a letra da canção onde entra o Martín Sued com a Orquestra Assintomática é sobre a Torre de Babel. É uma letra que fala da confusão de línguas que existe na construção da torre. Toda a gente quer chegar ao céu divino e construir a torre mais alta. Todos querem chegar ao céu para serem superiores a Deus. E é nessa altura que Deus quase que os atraiçoa. É esta história. Então, achámos que a música precisava de mais confusão. Precisava de algo mais do que uma guitarra, uma viola e um baixo. Daí termos convidado o Martin com mais um violoncelo e um violino. Fizemos isto para aumentar a entropia musical. (…) Esta letra merecia ser tocada de outra forma. Merecia ter mais instrumentos. O processo de produção foi muito orgânico.
É uma letra muito interessante. Abre espaço para a reflexão até mesmo pelos tempos que estamos a viver…
Exatamente. Acho que encaixa perfeitamente nos dias de hoje, sejamos ou não crentes. É o que está a acontecer. Se calhar, somos demasiado ambiciosos. E a ambição não nos deixa construir o que pretendemos. Se nos juntássemos e falássemos mais ou menos a mesma língua, se nos esforçássemos para nos compreendermos uns aos outros, certamente que chegaríamos mais longe. Quando a ambição nos tolda a visão, torna-se tudo mais difícil.
Como é que surgiu a colaboração com o Dino D'Santiago que acabou por colocar um pezinho no fado?
Ele pôs os dois pés. Deu um salto para dentro do fado!
Levaste-o a uma casa de fado?
O Dino é um fadista. É um habitué das casas de fado. Gosta muito de fado. Já nos cruzámos várias vezes nas casas de fado. O tema originalmente chamava-se ‘Uma Infância’ e foi inspirado num quadro com um cavalinho de madeira. Pensei primeiro em escrever sobre a minha infância. Mas depois cheguei à conclusão que a minha infância não tem assim tanto assunto. Então, pensei em escrever sobre o que não foi a minha infância. Fazer ao contrário. Quis escrever sobre a sorte que tive por não ter sido obrigada a fazer determinadas coisas, a deixar para trás as minhas escolhas ou os meus sonhos. Tive a sorte de ter tido oportunidades. Tive uma infância muito privilegiada. Tive a infância que deveria ser a infância normal para todos. E depois pensei em falar de duas infâncias em vez de uma. Achei que o Dino seria a pessoa certa para falar sobre a infância que teve, sobre as experiências que viveu. Convidei-o e ele escreveu a parte dele. Não faria sentido que fosse eu a escrever sobre a infância do Dino. O mais engraçado é que é um fado tradicional, ou seja, o Dino canta um fado puro e duro. E foi assim que nasceu este fado, o ‘Duas Infâncias’.
Falaram sobre essas duas realidades de uma forma mais profunda?
Não de uma forma muito profunda. Eu lancei o desafio e enviei-lhe o que tinha. Disse-lhe que era uma reflexão sobre a minha infância e que gostaria muito que ele refletisse sobre a dele. (…) No estúdio juntámos as duas infâncias e gravámos. Foi assim que surgiu a canção. E foi uma experiência maravilhosa, porque o Dino é muito generoso. Além de ser um artista incrível e de ter uma voz linda de morrer, é muito generoso. Estava sempre a perguntar, "vê lá se gostas. Se não gostares, podemos fazer isto ou aquilo." E eu só lhe dizia, "oh, Dino, estou a gostar de tudo. Não há nada que não goste aqui." Foi muito simples.
E também sabe a importância das vivências na infância, não é? Dá muita importância à educação das crianças e dos jovens…
Sim. Preocupa-se muito em dar oportunidades a quem não as teve. Felizmente, a vida do Dino deu uma grande volta. Agora pode ajudar e proporcionar momentos bons a quem não teria essa oportunidade de outra forma. Acho que foi a pessoa certa para falar sobre isso.
Voltando à canção 'Não Partas Hoje'. Sei que gostaste muito do que a Mimi Froes fez para ti…
Parece que veio tudo cair ao meu colo. Pensei, "isto é perfeito para a Mimi, vou enviar". E foi assim. Pedi-lhe uma canção para o disco anterior, mas a Mimi não entregou a tempo, como, aliás, acontece com todos os artistas, onde eu me incluo. Temos um problema com datas de entrega de trabalho, as coisas nem sempre saem como…
A inspiração não tem calendário, nem horas…
Claro. Ela enviou-me a canção a um mês da edição do disco [anterior]. Mas quando ouvi o tema achei que era lindo de morrer e decidi guardá-lo. Disse à Mimi, "se não quiseres dar a canção a ninguém, por favor, deixa-a para mim. Quero mesmo ficar com a canção." E ela disse-me que a canção era minha, que a tinha feito a pensar em mim. Achei que o tema ficaria grandioso com um arranjo de vozes. (…) E a Mimi Froes enviou-me um arranjo lindo. Achei incrível. Assim que ouvi a canção com os arranjos decidi que seria o primeiro single do disco. A canção leva-me para uma dimensão diferente. É um pouco o que acontece com este disco. Quero tentar levar as pessoas para uma dimensão diferente através dos quadros e da música. (…)
Tens dado concertos lá fora, não é?
Sim.
Como é que tem sido essa experiência?
É sempre maravilhoso. (…) O fado tem tanta coisa. É impressionante a facilidade como chegamos público estrangeiro. Estamos a falar de pessoas que não entendem português, não é? Os polacos são o público mais impressionante porque aprendem português só para ouvir fado. São apaixonados pelo fado. Não consigo entender porquê. Não sei qual é a ligação, mas são completamente apaixonados. E todas as experiências que tenho tido lá fora têm sido incríveis, desde a China a Cabo Verde que tem um povo muito musical. É muito fácil cantar em Cabo Verde. Temos vontade de ficar por lá a cantar para sempre. Além da energia do país, o público é impressionante. São pessoas muito à frente culturalmente. São muito interessadas. Não sabem quem eu sou, mas vão ver e querem ouvir. Isso é maravilhoso.
E também foste à Turquia…
Foi muito giro. Cantei num sítio muito bonito. Cantei num museu naval, com embarcações incríveis a servir de cenário. (…) E os turcos são um público muito interessante. São muito entusiastas. No final quiseram conversar, dar beijinhos, abraços e tirar fotografias. É muito curioso porque são povos que não percebem nada de português.
Voltando ao disco, há alguma canção que queiras destacar sobre a qual não tenhamos falado?
Posso falar de um dos meus fados favoritos do disco. Chama-se 'Fado das Árvores'. É uma homenagem que faço aos fados. Acho que os fadistas são resilientes como as árvores. E mais do que um tributo aos fados, faço a homenagem aos mestres do fado com quem aprendi, nos quais me inspirei e com quem pude tirar dúvidas e crescer. A letra desse fado diz: "os campos mudam de cor, as raízes sagradas são". A verdade é que as coisas à nossa volta vão mudando, as estações vão passando, as folhas caem, as flores vão-se embora, mas as árvores continuam de pé e as raízes continuam lá. E as árvores, para mim, simbolizam essas gerações do fado. Têm raízes firmes e ensinam-me o que é o fado. Esta simbologia estende-se a artistas de outros géneros musicais. Falo de artistas que são verdadeiras árvores e que nos inspiram. É uma homenagem à música, aos artistas que me ensinam e que me inspiram. E às pessoas da nossa vida, aos nossos pais, aos nossos avós. Pessoas que são ancestrais, que têm raízes fortes e que nos ensinam. É uma letra muito especial e emotiva. (...)
O que é que te inquieta nesta fase da tua vida, enquanto mulher, enquanto artista?
O mundo inquieta-te muito. (…) A minha geração está preocupada. É uma geração que vive preocupada por não saber como é que vai ser o dia de amanhã. Não sabemos como é que vai ser em termos políticos, em questões básicas, como a liberdade, e nem sabemos qual será o papel das mulheres na sociedade. Também nos questionamos sobre o papel da cultura. Quando é que as pessoas vão conseguir perceber que a cultura não é um investimento que se faz para gerar lucro financeiro? A cultura é algo essencial para toda a gente. É o que faz com que os povos possam avançar. É o que faz com que um país seja mais próspero. São essencialmente estas questões, mais a xenofobia, o racismo. Tudo isto assusta-me. Fui criada numa família que sempre lutou pela igualdade e pela liberdade. Tive avós mulheres que trabalharam, que fizeram pela vida. São mulheres com o espírito resiliente, com vontade de fazer diferente, de deixar uma marca. Os meus dois avôs foram capitães de Abril. Têm mão na liberdade que temos. Portanto, tudo isto me preocupa. E acho que basta sermos humanos para percebermos que precisamos de olhar para o lado. Temos de parar de olhar só para o nosso umbigo e apenas para o que é melhor para nós. Às vezes, o que é melhor para nós não é o melhor para quem está ao nosso lado e tem menos que nós.
Metendo o tom lá em cima, mais alegre e de esperança. A cultura, o fado, as canções, os quadros, tudo o que é arte pode mesmo ser uma bolsa de esperança…
E para sonharmos um pouco. Acho que a canção tem de ser um lugar de sonho. Tem de ser um espaço de liberdade para imaginarmos outras histórias. Onde possamos esquecer um pouco o dia a dia, enquanto ouvimos uma música mais calma.
Para terminar, vamos falar do concerto que vais dar no Teatro Tivoli, em Lisboa, a 1 de abril de 2027. O que é que já podes contar?
Eu sei que ainda falta muito tempo, falta quase um ano.
Não interessa, o tempo passa a correr…
Posso só dizer que não é uma mentira. (risos) Não é mentira, é verdade. Sei que falta muito tempo, mas, na verdade, já estamos em preparativos. O que vou definir para levar para a estrada ao longo deste ano é o que vou levar ao Tivoli. Claro que o concerto de 1 de abril terá alguns updates porque vai ser a apresentação do disco na minha cidade. É sempre especial. Estamos a preparar os concertos em matéria de luzes, de palco, de staging. Está tudo a ser planeado agora. Vai ser um concerto muito ensaiado porque nessa altura já teremos passado por palcos diferentes. Quando chegarmos ao Tivoli será a performance na sua perfeição. Portanto, estão todos convidados para o dia 1 de abril de 2027
Estás ansiosa com a edição deste disco?
Muito ansiosa. Gosto mesmo muito deste disco. Estou muito contente com o álbum e espero que as pessoas consigam apaixonar-se tanto pelo disco como pelo Alfredo, tal como aconteceu comigo. Se este disco ajudar nesse sentido, para mim está a ganho.
É um disco de luz.
Sim, sem dúvida.
