Terra Vil, de Luís Campos, mostra a tragédia de Entre-os-Rios pelos olhos de uma criança

Luís Campos estreia-se na longa-metragem com Terra Vil. William Cesnek, Ruben Gomes e Lúcia Moniz são os protagonistas deste filme que leva Entre-os-Rios ao cinema português

"Terra Vil", primeira longa-metragem de Luís Campos, afirma-se como um retrato sensível e profundamente humano de uma comunidade marcada pela tragédia, pelo patriarcado e pela fragilidade dos laços familiares. Partindo de um contexto local muito específico (a região de Entre-os-Rios, ainda assombrada pela memória da queda da ponte em 2001) o filme constrói uma narrativa que transcende o particular para alcançar uma dimensão universal.

O projeto teve início em 2012, com uma estrutura narrativa inicialmente partilhada por cinco personagens. Contudo, ao longo do processo de escrita e maturação, o realizador percebeu que a força do filme residia numa perspetiva mais concentrada. Como explica o realizador Luís Campos: “A grande diferença é que a perspetiva dessa versão inicial era partilhada entre os cinco personagens e, com o tempo de escrita, foi se tornando cada vez mais a história do João, da perspetiva do João, que tem doze anos no filme.” Esta mudança não foi apenas estrutural, mas ética e emocional. O contacto prolongado com a comunidade de Entre-Rios, nomeadamente com uma casa de acolhimento criada por familiares das vítimas da queda da ponte, influenciou decisivamente a escrita. As histórias de crianças em risco foram moldando o guião e aproximando-o da vivência pessoal do realizador: “A história do João era aquela que mais se aproximava com a minha própria história pessoal, que me legitimava um pouco mais no sentido de como olhar para aquela situação específica.” João surge, assim, como um corpo em construção através do qual o filme propõe uma possibilidade de esperança num contexto marcado pela perda.

Um dos eixos centrais de "Terra Vil" é a relação entre João e o pai, António, uma personagem marcada pelo alcoolismo. Longe de uma representação simplista ou moralista, o realizador opta por uma abordagem relacional, filtrada pela perceção do filho: “Eu tentei que aqui sobretudo prevalecesse o que é o sentimento do filho para com o pai. (…) Que não fosse uma personagem unidimensional, maniqueísta.” O pai é simultaneamente afeto e ameaça, presença e ausência. Esta ambiguidade impede a rotulagem fácil e obriga o espetador a construir a sua empatia de forma progressiva, sempre mediada pelo olhar infantil de João.

Em contraponto ao universo patriarcal representado pela figura do pai e pela comunidade masculina, surgem Teresa, Paula e Liliana. Estas personagens femininas oferecem a João outras formas de relação, cuidado e diálogo, funcionando como alternativas simbólicas a um modelo dominante: “Desde as primeiras versões do guião havia este lado masculino e o lado feminino da história. (…) Como é que uma criança quase pendular nesses dois universos vai absorvendo dos dois lados." O filme propõe, assim, uma reflexão subtil mas firme sobre o patriarcado nas comunidades afastadas dos grandes centros urbanos, onde o conservadorismo e a influência católica continuam profundamente enraizados.

Inserido numa comunidade piscatória marcada pela pesca da lampreia, "Terra Vil" utiliza este elemento como metáfora narrativa. Luís Campos mergulhou literalmente neste universo, acompanhando pescadores em saídas diurnas e noturnas. A escassez crescente da lampreia transforma-se num símbolo de frustração coletiva e de colapso progressivo: “O filme deu-me uma forma de criar uma espécie de metáfora ou analogia para muitos dos elementos que o filme retrata.” A lampreia, cada vez mais rara e cara, espelha não só a crise ambiental, mas também a exaustão humana e social daquela comunidade. Embora não fosse um tema central nas versões iniciais do guião, as alterações climáticas foram sendo integradas organicamente no filme, sobretudo através do contexto escolar de João. Para o realizador, existe uma ligação direta entre crise ambiental e modelos de dominação: “Na minha leitura, talvez ingénua, o próprio patriarcado infere diretamente na sustentabilidade humana.” Esta associação amplia o alcance simbólico do filme, ligando o destino das personagens a questões globais de comportamento humano e responsabilidade coletiva.

Inspirado pela tragédia da queda da ponte de Entre-Rios, o filme assume uma postura de profundo respeito perante a dor coletiva. A recriação da homenagem anual contou com a participação direta de familiares das vítimas, num gesto de escuta e partilha: “Tentei sempre que o filme pudesse acrescentar ao processo, fosse respeitoso e em concordância com familiares das vítimas.” A receção positiva por parte da comunidade confirma essa intenção ética e valida a abordagem sensível adotada pelo realizador.

Apesar de profundamente enraizado num contexto específico, "Terra Vil" revelou-se surpreendentemente universal, estabelecendo fortes ligações emocionais com públicos internacionais, do Brasil à Estónia e à Suécia. Para Luís Campos, essa resposta comprova que as emoções trabalhadas no filme ultrapassam fronteiras geográficas.

No final, o realizador expressa um desejo claro: “Espero que o filme possa ajudar a quebrar o preconceito que existe em relação ao cinema português e contribuir para uma reaproximação do público ao seu cinema.”

"Terra Vil" afirma-se, assim, como uma obra de estreia madura e sensível, que usa a infância como lente ética para olhar o passado, interrogar o presente e imaginar, ainda que timidamente, outras possibilidades de futuro.

O filme tem como protagonistas William Cesnek, Ruben Gomes, Lúcia Moniz, Francisca Sobrinho, Beatriz Relvas, Manuel Nabais, José Martins, António Capelo, Catarina Lacerda, Rita Revez, Diana Sá, Filomena Gigante, Pedro Mendonça, Susana Madeira, Ivo Bastos. 

Luís Campos, realizador de Terra Vil