The Cure, o templo gótico que paira sobre o rock

A bruma do Dia das Bruxas e do novo álbum da banda de Robert Smith já ensombra.

Se o rock fosse uma cidade, os Cure seriam a colina, com um templo gótico rodeado por árvores entortadas, que paira sobre a grande urbe. A bruma com que ensombram o rock já dura há mais de 45 anos e avista-se na paisagem como uma saliência misteriosa, com segredos que nunca serão desvendados. 

Na quinta-feira é o Halloween, na sexta sai o primeiro álbum em 16 anos dos Cure, “Songs of a Lost World”. Os dois acontecimentos quase que se cruzam. Há mais Halloween que as canções complexas e existencialistas de uma banda histórica como os Cure; e há mais Cure do que o lado pictórico da farra dos medos e das mortes. Mas desta vez, no novo álbum da banda inglesa, a morte não está só efabulada, é real, está presente no luto do irmão de Robert Smith e na própria idade avançada do cantor, que já não é um eterno jovem, mas um homem de 65 anos. "Songs of a Lost World" é também um disco sobre o envelhecimento. 

Habituámo-nos a vê-los novos. Quando começaram em 1976, eram uns garotos, com os amigos de infância Robert Smith e Lol Tolhurst na génese do grupo. Os dois acompanharam juntos as várias formações dos Cure até ao final dos anos 80. 

A banda começa a editar os primeiros singles em 1978 e em 1979, quando ainda não se tinham cristalizado naquela imagem e sonoridade góticas e quando as ideias ainda estavam muito à solta. Os Cure de 78 e 79 ainda não eram os Cure que passámos a conhecer mais tarde. Eles próprios ainda estavam a descobrir quem eram. Havia ainda uma certa inocência e letras simples sobre assuntos triviais do quotidiano como promoções de supermercado, que é o caso de 'So What'.

No jorro de canções típico de uma banda em posição de arranque, surgem canções orelhudas, como 'Boys Don't Cry', cuja inocência da letra romântica ressalta para o som da música, mal saída da garagem quando foi gravada e em que a fraqueza de meios instrumentais virava força para as ganas que era preciso ter quando se caça com gato.

No início dos anos 80 os Cure ainda enfrentam condições difíceis de gravação, com baixos orçamentos e pouco tempo para gravar álbuns.

Tal como muitos outros projetos britânicos do seu tempo, os Cure tornam-se mais uma banda de singles do que álbuns. Em 1980 e em 1981, Robert Smith refina cada vez mais a escrita de canções, inovando na estrutura das músicas, e trocando a inocência dos anos anteriores por temáticas mais sombrias. As atmosferas das canções estão mais densas, como no magnetismo enigmático de 'A Forest', espécie de aventura “Blair Witch Project” [filme de 1999], na visão cética sobre o crescimento em ‘Primary’, ou no melancólico ‘Charlotte Sometimes’, baseado num livro infantil da inglesa Penelope Farmer.

A partir de 1982, generaliza-se para sempre a imagem gótica dos Cure. O vocalista Robert Smith fixa-se naquele ar pálido, de olhos carregadamente pintados, lábios avermelhados de batom e ténis grandalhões. E acima de tudo destaca-se o seu (des)penteado, uma autêntica selva capilar. Todo o grupo parece formado por bonecos de Tim Burton. E esse grupo foi crescendo em número,  com um reforço de teclados que permitiu ao grupo um cada vez maior ecletismo musical. Esse ecletismo é bem sentido nos singles 'The Love Cats', de 1983, 'The Caterpillar', de 1984, e 'Close to Me', de 1985, temas onde Robert Smith vai dando asas ao seu estilo vocal mais excêntrico que notabilizou os Cure.

Oriundos de um imaginário de dream pop no meio do pós-punk, os Cure são empurrados no final dos anos 80 para o sucesso a larga escala, apesar do ADN underground.

A banda de Robert Smith conquista o airplay da MTV e de programas televisivos que passavam no canal público português, como o célebre “Countdown” apresentado por Adam Curry. No meio de vídeos de Europe, Genesis e Whitesnake, passavam também telediscos dos Cure.  O mérito dessa exposição televisiva dos Cure vem muito do trabalho continuado do videasta Tim Pope com a banda. O videoclipe torna-se no prolongamento perfeito da estética gótica do grupo, com vídeo memoráveis, alguns com teias de aranha, como 'Lullaby'.

A banda desenvolve também um curioso apelo pop, nos álbuns “Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me”, de 1987, e “Disintegration”, de 1989.  Todos esses factores levam os Cure ao grande sucesso nos Estados Unidos, algo muito raro em banda britânicas e que bafejou também nessa época os ingleses Depeche Mode. Sem nunca perderem uma base sólida de fãs fiéis, os Cure atingem a dimensão ao vivo de estádio, e a banda de Robert Smith estreia-se em palcos nacionais com um espectáculo no Estádio de Alvalade, em 1989, que é ainda hoje muito recordado pelos fãs portugueses.

Em 1989, Robert Smith passava a ser o único membro que restava desde o início, com o despedimento do fundador Lol Tollhurst por causa de problemas de alcoolismo.

Apesar da instabilidade da formação dos Cure, a numerosa base de fãs manteve-se ao longo dos anos 90. Dessa década, o álbum com maior impacto comercial foi sem dúvida “Wish”, onde se destaca uma das canções mais optimistas alguma vez compostas por Robert Smith, “Friday I’m in Love”, bem simples e direta ao ouvido, e que mereceu um inventivo videoclipe que era um corrupio alegre de vários cenários, que mudavam com os dias da semana. A letra da canção está ao alcance de miúdos em aulas de iniciação da língua inglesa. E é às crianças que os Cure brincam neste teledisco festivo, onde voam bolas de sabão e se distribuem máscaras. A festa sorridente termina com um serviço de pints.

Algumas das canções mais fortes dos Cure dos anos 90 vão parar a bandas sonoras de filmes, como se fossem pérolas, como o mítico ‘Burn’ para o filme no habitat da banda, “O Corvo”, ou o épico transcendente ‘Dredd Song’, para a banda sonora do filme “A Lei de Dredd”.
 

Nesta sexta-feira, sai o álbum de oito canções dos Cure, “Songs of a Lost World”, em que Robert Smith reflete sobre a tabela cronológica da sua vida, em que vê muito mais passado do que futuro. O fim está cada vez mais próximo e cada vez mais presente nas letras. O cantor sente que a metamorfose de homem para fantasma pode estar já a acontecer, mesmo que só metaforicamente. A juventude é uma coisa etérea dos sonhos. No entanto, os Cure continuam. Parece que ainda melhores. E uma frase está a ser cada vez mais repetida na imprensa: “’Songs of a Lost World’ é o melhor álbum dos Cure dos últimos 30 anos”.