The Hives no Campo Pequeno: foi uma noite de reis
Das auto-aclamações de realeza punk à aclamação do povo.
Pelle não é Pelé mas atuou 90 minutos. Este Pelle - Pelle Almqvist, vocalista dos Hives, entendamo-nos - joga pelo real, isto é, pela realeza, que parece mais do que um encargo promocional ligado ao mais recente álbum “The Hives Forever Forever the Hives”. O concerto acabou com a coroação de Pelle Almqvist como rei, quase a reviver a capa do último disco, com a banda retratada no trono. Mas isso foi já próximo da meia-noite.
Recuemos mais de hora e meia antes, aos preparativos do concerto. A simples remoção do pano que cobria a bateria dos Hives causou logo alarido na populaça da frente, com as letras THE inscritas nos três bombos da bateria, por baixo de cinco balões com as letras H I V E S. O som que bombava também estava forte e convocava as lendas do melhor rock & roll, fossem quem fossem. Foram estas: Iggy Pop, Velvet Undergound, Johnny Kid & The Pirates, The Cramps, Rolling Stones, Plastic Bertrand ou Eddie Cochran, entre outros. Boa seleção.
Às 22h15, pontualidade sueca com os Hives em palco. Entram com tudo, já agora com o tema ‘Enough Is Enough’ e com casacos de estrias luminosas. Os cinco membros parecem árvores de Natal ambulantes no meio da escuridão do palco. O efeito luminoso dos casacos fica bem no espetáculo, mas não a eles, que ficam com demasiado largura física com aquelas fatiotas de lordes. À conta do casacão, Pelle Almqvist tinha dificuldade em estreitar-se nos extremos metalizados do palco.
Se a fogueira está bem viva, os Hives não se ficam pelo lançamento de acendalhas, aquilo foi mesmo um explosivo atirado lá para dentro chamado ‘Walk Idiot Walk’, uma das canções que mais projetaram os Hives. O público está capaz de fazer um motim, enquanto o vocalista Pelle, qual duque com gestos de fidalgo, cumprimenta o povão.
Pelle Almqvist faz outra coisa que sabe: discursar. No primeiro discurso à sua nação de fãs, lembra que este é o último concerto da digressão e faz as melhores promessas para a noite. “vocês serão os beneficiários”.
Os Hives gostam de fazer safadezas e é para isso que lá estamos, no Campo Pequeno. Uma das partidas é mandarem desligar as luzes da sala. Esta brincadeira ao quarto escuro já a conhecemos dos tempos de criança. Quando se ligam as luzes, virá bomba certamente. 'Paint a Picture', conhecem? Os fãs sim e muito bem. A música ultrapassa os radares da velocidade e Pelle dá aqueles saltos abonecados do monitor de palco que tanto gosta. Sempre a traquinar, deixa ainda em suspenso o final da canção até ao retorno e ao remate estrondoso do tema.
Nicholaus Arson começa então uma dura batalha com a sua guitarra elétrica que resolveu implicar com ele precisamente nesta noite. Afinado por fim o instrumento, dispara-se a canção 'Main Offender', em mais uma arrancada punk, com Pelle a acenar no ar com o microfone ou a tentar bater palmas (um misto das duas coisas), com a franja a descair para a testa sempre que a adrenalina puxa.
Definitivamente, a guitarra elétrica de Arson não estava nos seus dias e voltou a enguiçar. “Acham que os Hives vão ser parados por problemas técnicos no concerto de fecho da digressão?”, o fanfarrão Pelle faz o que pode para improvisar sobre o embaraço técnico daquela guitarra elétrica mal comportada. E repete a charada no embaraço técnico seguinte. Até a espontaneidade de Pelle se esvai, até porque o homem só nasceu para rocker, não para encher chouriços.
Demorou mas 'Born a Rebel' e 'Stick Up' fizeram ignição, a merecer a gratidão de Pelle. “Obrigado, amigos” é dito com um português preciso de quem parece já cá vive há anos ou, vá, não exageremos, há meses. Pelle apanhou bem a fonética do português.
'Bogus Operandi' instiga um pequeno carrossel humano lá à frente. O vocalista dos Hives continua entretido a brincar ao jogo das chamadas dos cavalheiros e das senhoras e depois tudo junto. O público não se cansa do jogo e faz as vontades ao rei Pelle.
Com 'Hate to Say I Told You So', dá-se uma libertação de energia masculina e animalesca numa roda lá à frente. Copos de cervejas são esbanjados como objeto de lançamento, a salpicar a multidão, num sacrifício que o bebedor tem que fazer em nome do momento. Não nos esqueçamos, isto é rock & roll e aqui os códigos são outros. Ninguém pode dizer que estejam errados. 'Hate to Say I Told You So' estremece também nas estrias luminosas dos fatos dos Hives, que faíscam alarmemente.
Em 'O.C.D.O.D.', Pelle é ele próprio um parque lúdico de rock & roll com todos os movimentos que se devem fazer: perna levantada no ar, pinotes quase em câmara lenta, giratórias de microfone e aqueles acenos no que se transformam em palmas ou algo assim do género.
Pelle também gosta de falar. E muito. “Lembram-se do primeiro concerto em Portugal? Estamos melhores agora, não é?”, o discurso de feirante continua. Mas o mote está dado para 'Here We Go Again'.
Há um cântico que parece uma praga em tudo o que é festa e que ali no Campo Pequeno também resolveu aparecer, com aquela frase “esta ????? é que é boa”. O momento passaria incólume, só que Pelle reconheceu a toada do cântico dos White Stripes e não achou piada. Pelle pede que lhe expliquem a frase. Irrita-se, pede que se calem em maus modos e já em repetição caricatural. O pessoal fica nervoso. Após a tradução, Pelle ri-se da tontice e põe os dedos nos is: os Hives é que são bons. Isto foi só uma desculpa para mais um explosivo: 'Countdown to Shutdown'.
'Come On!' tem uma letra descaradamente minimal e merece a chamada a palco de todas as bandas da primeira parte: os Yard Act e os Snõõper. E depois, segue-se o tema final 'Tick Tick Boom', em que a roda da libertação de energia massivamente masculina alarga o perímetro. Suspende-se o tema para os créditos de apresentação da banda. Pelle ainda faz curtos quiz aos fãs da fila da frente: “como te chamas?", "de onde vens?”. O truque está armadilhado para um questionamento geral com resposta ao mesmo tempo. Pelle cria depois um corredor no meio da arena para um “partida largada fugida” do fundo até ao palco e para a apoteose, num momento que merecia a presença de fotógrafos. Depois, uma fã brasileira faz a coroação de Pelle como Rei. Mas rei do quê, ainda não sabemos, porque isto dos reinos musicais já está tudo reservado.
No encore, ouve-se 'Legalize Living', enquanto se volta à escuridão, com os fatos luminosos dos cinco Hives a assemelharem-se a uniformes de bombeiros.
Pelle volta a falar português. “Obrigado, meus amores”. Ouve-se então 'Bigger Hole to Fill', em mais uma injeção de punk antidepressivo.
Depois, Pelle despede-se a cada um dos espectadores, não estou a brincar, quando interpreta o tema-título 'The Hives Forever Forever The Hives'. Pelle sobe ao monitor, bate palmas e a franja volta a sair do sítio. O rei junta-se à sua plebe para o adeus épico, e volta a separar o público por género, com as chamadas de “ladies” e “gentleman” para aqui e para acolá.
Já com o palco em tréguas musicais, ressoa nas colunas a canção 'Nobody Does It Better' de Carly Simon como o inesperado doce pop servido no final. Ou mais uma auto-aclamação dos Hives. Ninguém faz melhor que eles. Longa vida aos reis, então.
Como bons bravos, os Hives não tiveram receio em chamar para uma das bandas da primeira parte um dos melhores coletivos rock da atualidade, os bem ingleses Yard Act. Em quarteto, endiabram um rock & roll pouco dado a redundâncias e muito dado ao risco confrontacional, por via do humor do vocalista James Smith, que bamboleia bem o corpo e mostra ter boas piadas. A engrenagem da banda responde bem às investidas do seu frontman.
Em Rich, os elogios soam sempre um pouco satíricos da boca de James Smith. Esta coisa de elogiar muito Lisboa, já se sabia, tinha água no bico, sobretudo para quem conhece James Smith. Fala de Lisboa como uma cidade de gente autêntica, mas o pessoal não pareceu concordar muito, a julgar pela falta de resposta a esta questão. Mas James Smith criou ali um intercâmbio entre o pessoal da arena e os da bancada a cantar Rich. Dark Days é um bom exemplo de bombardeio de muitas palavras em poucos segundos. Se a música tivesse quatro minutos (o tempo normal de uma canção), os versos só caberiam num livro. James Smith não é um rapper, nem parece estar interessado nisso, mas não há dúvida que tem fluidez. Já The Overload dava um belo tributo aos Fall, só que é um original deles e não é mau de todo, uma boa punkalhada. Antes, estiveram em palco os Snõõper.
