The Kills: "Preenchemos as lacunas um do outro"
O novo álbum "God Games" escalda nas altas temperaturas de Los Angeles e nos questionamentos que a solidão pandémica forçou.
Encontramo-nos com a vocalista norte-americana Alison Mosshart e com o instrumentista inglês Jamie Hince no terraço do lindíssimo andar de cima da Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Se juntarmos o fortíssimo álbum novo, "God Games", como assunto principal, tudo parece idílico no mundo do rock & roll dos Kills.
Mas também faz parte do mundo do rock & roll habitado pela dupla anglo-americana o enorme atraso de voo para Lisboa que os obrigou a uma noite muito pouco dormida e, antes, um enorme período de dúvidas que os atormentou durante a reclusão geral da pandemia da covid-19.
Das dúvidas, os Kills fizeram as suas forças para um abanão, em que só não tremeu a identidade da dupla. A orgânica instrumental mergulhou em teclados e ainda fez emergir um gospel ateísta ao modo dos Kills.
Os vinte minutos com Jamie Hince e Alison Mosshart foram mais ou menos assim...
O "God Games" é um álbum mais pessimista?
Jamie Hince - Não, acho na verdade que é um disco bastante romântico, ansioso, vulnerável, esperançoso e realista.
Será também um disco mais contemplativo, mais meditativo?
JH - É inevitável. Tu absorves o ambiente que te rodeia. Quando estávamos a compor, todo o mundo estava confinado. Não se podia ir a lado nenhum, não se podia ter qualquer experiência. É natural que te vires para pensamentos e para filosofias, em vez da observação. Eu vivia isolado, o que me fez pensar numa série de coisas. Eu queria fazer canções a partir de ideias e do ato de filosofar, em vez daqueles clichês da pandemia sobre o tempo e a espera.
Sentem-se como a rezar por um mundo melhor no ato de cantar?
Alison Mosshart - Pelo menos, eu gostaria muito de o melhorar. Não digo rezar, mas tento no mínimo ter um discurso positivo. Anda tudo tão lixado. A única forma de melhorar tudo isto é procurar o que há de bonito, o que há de esperançoso, o que há de enérgico.
JH - Uma música como 'God Games' é altamente esperançosa. Não interessa o que possa acontecer, não interessa toda a porcaria por que já passaste, ainda estás aqui. Que lixe tudo o resto, resistimos. É essa a vitalidade da vida. Acho que é uma música muito positiva.
Aliás, vocês fecham o disco com uma música também muito esperançosa, 'Better Days'. Essa é uma música de esperança, após períodos de desespero?
JH - Se for assim que o vires... Isso não está explícito ou implícito na canção. Não sinto qualquer desespero nessa canção. Nós não nos sentamos para decidirmos o que fazer dizer em determinado álbum. Vai-se escrevendo, a partir de uma explosão de pensamentos e de sentimentos, com a fezada de se tornarem coerentes e que façam sentido, porque assim aconteceu centenas de vezes antes. É possível escrever canções que mexam com as pessoas e com que se possam identificar. Isso não implica um plano meticuloso.
Entre vocês os dois, serás tu, James, uma pessoa mais ateísta, e tu, Alison, uma mulher mais espiritual?
JH - Sou ateu.
AM - Eu também.
JH - Mas sou fascinado pela espiritualidade. O que é isso de ser espiritual? É diferente de ser religioso, ou de acreditar em Deus. Não tenho fé, nem acredito no destino, mas canto frequentemente sobre fé e destino. É possível um ateu acreditar em fantasmas se não acredita na vida depois da morte? Mas depois pego na minha guitarra Gibson 1921 Black Devil e sinto fantasmas nela. Não é preciso enquadrar-me em explanações coerentes. O meu trabalho é inserir estes pensamentos numa canção. Que se lixe se não fazem sentido.
O 'My Girls My Girls' é o vosso modo especial de fazerem uma canção gospel?
JH - Gosto da ideia de fazer uma espécie de gospel ateísta. Até o ateismo prova coisas inexplicáveis. 'My Girls My Girls' é um pedido de desculpas a duas pessoas em particular. É sobre o facto de ter desiludido alguém e sobre o aproveitamento desse momento para me aproximar da mortalidade. É sobre o questionamento sobre o que fizeste com a tua vida. Gosto que uma ideia possa abrir mil outras. Há uma mensagem à volta do destino pela estrada fora, com a mortalidade em pano de fundo e a visão do mais além. Nesse sentido, temos uma canção inclinadamente gospel. Mas descobri que a música terminava ao 1:58 e que queriamos que a música fosse mais longa. Portanto, pensei em arranjar um coro de gospel até ficarmos com 2:50. Já quando estava a fazer as maquetas, eu sabia que queria usar um coro de gospel no 'LA Hex' e no 'My Girls My Girls'. Há uma grande diferença em usar um coro britânico, sempre muito deprimente e sem aquela energia efervescente que o Compton Kidz Club Choir tem. Foi o Fred Martin que dinamizou este grupo de crianças não-privilegiadas, a que lhe aconteceram coisas terríveis. Ele estabeleceu um programa de formação para que eles aprendessem a cantar. Depois de tudo o que passaram, é de malucos terem encontrado a luz.
O coro foi um elemento que usámos com muito cuidado. Prefiro ter o coro não como algo para, mas como um complemento. Em vez de ter um piano, ou uma harpa, ou um trompete, com diferentes camadas, eu queria um modo de acrescentar acordes sem ter que usar um instrumento. É por isso que eu queria um coro, que nos dá esses acordes sem ser preciso um instrumento. Fico assustado quando me deparo com demasiadas camadas e demasiadas coisas em simultâneo. Dois ou três instrumentos e está bom assim.
Este álbum tem uma música sobre Nova Iorque e outras duas sobre Los Angeles. Sentes-te uma pessoa estranha hoje em dia nessas duas cidades, Alison?
AM - Nova Iorque é a minha cidade preferida em todo o mundo. Sempre que vou a Nova Iorque, sinto-me extremamente animada, inspirada, [a cidade] dá-me vontade de fazer coisas. Para mim, [New York] é a minha canção de adoração a Nova Iorque. Los Angeles é a cidade onde passo a maior parte do tempo. Não era intencional fazer uma música sobre Los Angeles, advém da observação, faz um filtro e brota qualquer coisa. Não esperava escrever canções sobre Nova Iorque ou sobre Los Angeles, mas era onde nós estávamos, era aquilo que estávamos a experienciar.
JH - Durante um longo período da minha vida, senti-me muito mais confortável sendo um estranho numa cidade diferente ou num país diferente. Isso decorre da excitação de fazer digressões, de viajar. Viajar de um país para outro é mesmo aproveitar a vida, é excitante, é ação.
O tema '103' é sobre mudanças climáticas?
AM - Não é só uma preocupação da canção, é uma preocupação minha a toda a hora e não me agrada. A música é mais uma observação sobre Los Angeles, quando regressava à cidade na estrada nacional de carro durante a pandemia. Quão estranho e apocalíptico foi estar a conduzir só eu, com uns quantos camiões e mais ninguém. Depois, regressas à cidade e apercebes-te de uma série de relações a desfazerem-se, com as pessoas a discordarem sobre coisas ridículas. As pessoas estavam todas à beira de perderem as suas cabeças. Havia uma enorme tensão. Mas acima disso tudo, [103] é uma canção de amor e esperançosa. 103 [cerca de 39 graus na nossa escala de Celsius] era a temperatura registada no meu carro. No vídeo, estamos envoltos pelo fogo. Uma coisa leva à outra.
JH - Essa conotação com o ecologismo tem sido feita por muita gente e torna-se óbvia. Mas se tu estabeleceres um cenário noutro sítio, como o Arizona, que pode também ser atravessado de carro, podes até não estar a cantar sobre mudanças climáticas, mas torna-se parte da canção. Ao longo dos últimos 14 dias, têm estado mais de 110 graus [na escala de Fahrenheit, o que equivale a cerca de 44 graus na nossa escala de Celsius].
Começo a sentir fobia ao calor.
AM - Eu também. Se há algo que me faz sentir ataques de pânico, é o calor. É tão assustador. Não estou a gostar.
Há duas semanas, quando estava no Algarve, estava um calor sufocante. Quando esperava que a temperatura quente abrandasse à noite, isso não aconteceu.
AM - Não abranda. Ficámos à espera de um alívio que não vem.
JH - Especialmente aqui [em Portugal], onde não há uma grande aposta no ar condicionado.
AM - Toda a gente tem sistemas de aquecimento, porque o frio mata gente. Mas o calor também mata, porque não refresca, nem há maneira de refrescar, o que se torna assustador. Isto está a acontecer à volta do mundo. Sou americana e não estou adaptada a isto. É aterrador porque há pessoas a morrerem por causa do excesso de calor.
Este calor nem sequer nos deixa dormir.
AM - Pois não. Temos que melhorar isto, pessoal.
Há vinte anos que interagem um com o outro. Qual é a maior qualidade que reconhecem um no outro?
AM - São demasiadas.
JH - Quando conheces uma pessoa tão bem, não alistas [as qualidades] na tua cabeça. E há algumas qualidade mais pessoais que eu não gostaria de partilhar. Não sinto obrigação de explicar o quanto adoro a Alison. Em termos de relação profissional, preenchemos as lacunas de cada um. Temos abordagens opostas às coisas que se encaixam e se complementam. A Alison é muito espontânea, vomita arte e eu tento explorar isso o máximo que posso. É uma combinação muito útil.
AM - Sou muito organizada com as coisas e o James é mais...
... Espontâneo?
AM – Espontâneo de uma forma diferente. É espontâneo na sua organização. E eu sou espontânea na arte. Juntando-nos os dois, completamos um raio de ação em que cobrimos tudo. E conseguimos fazer coisas incríveis.
Tendo em conta que são um projeto anglo-americano, gostaria de vos perguntar qual a vossa banda anglo-americana preferida. Posso dar-vos cinco opções: Fleetwood Mac, The Police, The Monkees, The Pretenders,ou os Crosby, Stills & Nash.
AM - Desses todos, eu diria os Pretenders.
JH - Em termos de canções, provavelmente os Pretenders. Mas os Fleetwood Mac eram os mais impressionantes. O Mick [Fleetwood, o único membro fundador que continuou] conseguiu reformular a banda, depois da implosão com a saída do [Peter] Green. Ele conseguiu imaginar a introdução de um som mais americano, que foi uma coisa astuta de se fazer.
É de esperar uma digressão europeia em breve?
JH e AM – Sim, no próximo ano.
Com mais teclados em palco?
JH – Ainda não sabemos. Um piano é garantido. Este disco é um grande empurrão para nós, com um som novo. Mas [ao mesmo tempo] queremos que os Kills sejam iguais a si próprios. Queremos experimentar qualquer tipo de música, mas com a marca reconhecível do que faz sermos os Kills. Este é o disco que mais nos fez mudar.
