The Lumineers empolgados e empolgantes
Concerto na MEO Arena muito vivo com as músicas 'Ho Hey', 'Gloria', 'Ophelia' ou 'Cleopatra'.
Quase no final do concerto de 130 minutos na sala lisboeta MEO Arena, o vocalista Wesley Schultz comentava a multidão que tinha à sua volta neste pavilhão, que achava bem maior do que a de 2019 no Campo Pequeno. Mas depois deste espetáculo fortíssimo no Parque das Nações, a tendência só pode continuar a ser de crescimento de público.
Uma das canções lendárias de Bob Seger, ‘Turn The Page’, passa com um volume maior na MEO Arena, na contagem decrescente final para o concerto dos Lumineers que o seu público bem internacional esperava.
A dupla efetiva - Wesley Schultz e o multi-instrumentista Jeremiah Fraites - é acompanhada por uma formação mutável de mais quatro ou cinco músicos (conforme o momento do concerto). ‘Same Old Song’ abre a odisseia, Wesley Schultz estava de boné e tranças à Willie Nelson, com uma camisola dos AC/DC escondida por trás do blazer.
Logo à segunda música, ‘Flowers in Your Hair’, a banda avança para o pequeno palco a meio da arena, numa interpretação com todos os preceitos da folk, com acordeão e violino e tudo. ‘Angela’ é o retrato do estardalhaço rítmico que os Lumineers gostam de fazer, com as batidas bem pesadonas nos tambores para o vigor da coisa, e há até um tambor adiantado, sob os cuidados dos mandolinista Brandon Miller.
Volta e meia, convém lembrar que os Lumineers são uma dupla, apesar daquela malta toda a agitar-se com os instrumentos. Um exemplo disso é dado à quarta música, ‘You're All I Got’, dedicado por Wesley Schultz à amizade e camaradagem que resiste entre ele e Jeremiah, numa música com muita estrada dentro, tocando os dois lado a lado, numa irmandade de aço que promete resistir até à morte.
Os Lumineers andam sempre todos empolgados e assim o fazem em ‘Where We Are’, com margem para um brilharete ao piano de Stelth Ulvang, um autêntico showman que merecia o cargo de terceiro membro efetivo dos Lumineers - é só uma sugestão. Em ‘A.M. Radio’, Wesley Schultz canta de olhos fechados, sempre compenetrado, enquanto o pianista não aguenta o júbilo e se levanta do banco enquanto toca. ‘Plasticine’ lembra a folk indie dos Shins, em ‘Donna’ o cantor Wesley empoleira-se em cima do piano onde está agora sentado o faz-tudo Jeremiah.
‘Ho Hey’ levanta toda a sala, com a banda outra vez no palco avançado. A cantoria torna-se um vírus benigno e imediato, contagiando todos os que estivessem dentro da sala - com a exceção talvez dos seguranças. Os jovens turistas irlandeses que não param de beber cerveja, o executivo que não teve tempo para tirar a gravata, o pai quarentão com a filha adolescente, todos eles se tornaram exímios cantores durante três minutos e meio, não falhando um verso. Lá no meio, em cima do palco, havia um americano com direito a microfone, chamado Wesley Schultz, que era de repente só mais um entre muitos milhares que cantavam a música. Os Lumineers parecem os U2 da folk.
Wesley Schultz resolve cantar ‘Brightside’ a passear-se pelo meio da plateia em pé, numa volta completa ao piso que só não teve paragem no bar. A passeata de Wesley valeu muitas selfies aos seus fãs. A canção ‘Gloria’ tem árvores iluminadas à noite como cenário imagético. O pianista Stelth Ulvang volta a não aguentar-se sentado, uma baqueta voa no ar, numa rebaldaria de salutar.
Em ‘So Long’, amplificam-se as guitarras e escreve-se rock & roll com letras gordas. ‘Salt and the Sea’ é um dos temas mais tocantes e envolventes da noite, numa intensidade que leva o público a preferir só ver e ouvir, sem ter que participar.
Os Lumineers vão gerindo a coisa de modo a guardar o melhor para o fim. A preparar a escalada final para os metros finais do pico emocional,
a balada pop ‘Automatic’ é só mais uma etapa, com o cantor principal a puxar pela voz para dar azo à tal emoção. Em Ophelia, Wesley e um dos seus músicos vão lançando pandeiretas entre eles como se estivessem a jogar ao disco numa praia. ‘Leader of the Landslide’ aloja o clássico dos Rolling Stones, ‘You Can't Always Get What You Want’, com o pianista Stelth Ulvang a continuar a fazer as suas traquinices sempre que se aborrece com os instrumentos que tem que tocar, lembrando o endiabrado Will Butler quando estava nos Arcade Fire sempre aos pinotes.
‘Big Parade’ é talvez o momento alto, uma rodada de country pelas vozes da banda, a extravasar toda a alegria, incluindo o showman Stelth Ulvang que até se pendurou no piano, apesar da envergadura física de matulão. ‘Cleopatra’ vai num crescendo instrumental, que começa na voz de Schultz e no violino de Lauren Jacobson e termina com todos os músicos muito excitados e envolvidos, enquanto se vê o retrato da Cleópatra faustosa no ecrã do palco.
‘Stubborn Love’ é a canção final de um concerto que não teve, nem precisava de encore. Enquanto se projeta um álbum de fotos e de imagens em movimento no grande ecrã, o público não pára de ganhar mais e mais fôlego vocal, quando já lá iam duas horas disto. Até o déjà vu do ‘baixa e levanta’ de público resulta sempre. Aliás, no concerto dos Lumineers tudo estava a resultar muito bem. As despedidas dos músicos fazem-se ao som do barroco rock ‘A Whiter Shade of Pale’ dos Procul Harum, como o ponto final de um concerto que correu francamente bem. Quando um dia os Lumineers voltarem à MEO Arena, já será para lotação total da sala.
