Thomas Gilbert e as novas caças às bruxas

O autor de "Raparigas de Salem" desfez-se da magia para contar como o preconceito é o culpado da perseguição no passado, presente e futuro.

Ainda se faz uma "caça às bruxas"? Talvez não se procure por chapéus, vassouras ou magia, mas Thomas Gilbert vê nas formas contemporâneas de discriminação reflexos deste passado.

O autor francês traz ao Amadora BD'26 "As Raparigas de Salem", o único livro publicado em Portugal.

Porque decidiu falar de Salem quando poderia, por exemplo, ter falado de Joana d’Arc?

A Joana d’Arc está demasiado presente em França. Na verdade, Salem nem foi a minha primeira escolha. 

A ideia surgiu quando assisti a uma situação de racismo banal em França. Estava numa loja e ouvi pessoas a falar de romenos, a dizer: “Não gostamos deles. São vigaristas. Roubam coisas.” E pensei: como é que odiar alguém consegue unir as pessoas? Percebi que queria desenhar uma história sobre isso, embora ainda não soubesse como.

Ao mesmo tempo, adoro desenhar os trajes desta época, os colonos e peregrinos da América. Não sei explicar porquê, mas fascina-me. Então juntei as duas coisas: os julgamentos das bruxas de Salem e o racismo em França. Pareceu-me que havia ali algo a explorar.

No livro apresenta estas jovens acusadas de bruxaria como vítimas inocentes da misoginia. Ainda não falamos o suficiente sobre este tema?

O que me interessava era precisamente retirar a magia da equação. Porque, se existisse realmente magia, seria mais fácil justificar a perseguição. Mas quis explorar a forma como pessoas perfeitamente normais chegam a perseguir outras.

Queria falar do patriarcado e também do racismo. Hoje em dia fala-se mais dos julgamentos das bruxas, até porque houve muitos casos em França, na Alemanha e noutros países europeus.

Além disso, muitas mulheres apropriaram-se da figura da bruxa. É como se respondessem: “Dizem que sou perigosa? Então serei perigosa.” Acho que muitas mulheres das gerações mais novas assumem essa identidade como uma forma de resistência.

Foi mais fácil recorrer ao passado para falar de questões que continuam presentes hoje?

O problema deste tipo de histórias é que, por vezes, as pessoas não fazem a ligação entre passado e presente. Dizem que “naquela época havia muito patriarcado” ou “as pessoas eram muito religiosas”, mas hoje não é preciso ser religioso para perseguir alguém.

Na verdade, escrevi outro livro sobre temas semelhantes, mas passado num futuro próximo. A realidade atual acabou por se revelar pior do que aquilo que eu tinha imaginado para esse futuro. Por isso, tanto faz falar do passado, do presente ou do futuro. No fundo, estamos sempre a falar do agora.

Acha que os leitores encontram essa ligação com o presente?

Sim, muitas mulheres disseram-me que se identificaram com a forma como o livro aborda as regras impostas ao corpo feminino e ao comportamento das mulheres em público.

Mas também houve interpretações completamente diferentes. Como existe uma forte componente religiosa na história, algumas pessoas disseram-me: “Isto faz-me lembrar os muçulmanos em França.” Mas não era essa a mensagem que pretendia transmitir.

Cada leitor lê o livro a partir da sua própria experiência. Não acredito numa única interpretação correta. Os leitores trazem muito de si próprios para a obra e isso é simultaneamente fascinante e, por vezes, estranho.

Falar do passado pode ser uma forma de resistência?

Penso que sim. Em França, as pessoas que viveram a Segunda Guerra Mundial já morreram ou são muito idosas. Para os adolescentes de hoje, o fascismo parece algo muito distante, quase tão remoto como o século XIX me parecia quando eu era criança.

Por isso, torna-se difícil fazê-los compreender que certas coisas podem voltar a acontecer. É esse um dos desafios da memória.

Ainda existem “caças às bruxas” atualmente?

Sem dúvida. Eu sou um homem branco, heterossexual, de meia-idade, sem qualquer deficiência. Vivo numa posição bastante privilegiada.

Mas para muitas das minhas amigas, para pessoas racializadas ou vindas de outros países fazer coisas perfeitamente normais continua a ser uma luta quotidiana, em França e creio que também noutros países.

Gostaria que ninguém fosse ostracizado por ter outra religião, outra origem ou outra forma de viver.

É mais fácil abordar estas questões a partir dessa posição de privilégio?

É uma questão complicada. Gostaria que as pessoas que vivem essas experiências pudessem contar as suas próprias histórias e publicar os seus livros.

Ao escrever sobre estas questões estou de certo modo a utilizar a minha voz para falar de experiências que não são as minhas. Espero que um dia isso deixe de ser necessário e que existam cada vez mais espaços para essas vozes se exprimirem diretamente.

Agora também quero trabalhar em temas mais ligados à minha própria experiência, sem deixar de dar lugar aos outros.

Neste momento só existe um dos seus livros publicado em Portugal. Podemos esperar mais obras suas?

Espero que sim. As Raparigas de Salem é o primeiro volume de uma trilogia sobre a violência. Neste momento estou a trabalhar numa nova trilogia dedicada à memória.

Gostaria muito que esses livros pudessem também chegar aos leitores portugueses.