Thomas Vintenberg: "Se criarmos personagens que entram nas nossas almas, então criámos vida"
O cineasta dinamarquês passou por Portugal para promover a sua primeira série de TV, Families Like Ours.
E se de repente, tudo o que amamos, tudo o que tomamos por garantido, tudo o que nos define nos fosse retirado?
Foi a partir destas inquietações que, num domingo, sozinho em Paris, o realizador Thomas Vintenberg, vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional em 2021 com "Mais Uma Rodada", começou a criar a primeira série da sua carreira. Families Like Ours passa-se num futuro não muito distante e começa com o anúncio do Governo dinamarquês da decisão de evacuar o país devido à subida no nível do mar.
Em pouco tempo, o sistema imobiliário colapsa, as famílias têm de escolher novos destinos para refazer as suas vidas e algumas têm mesmo de se separar. A Dinamarca desaparece e transforma-se numa nação de refugiados climáticos que procuram agora lugar numa Europa a braços com uma crise migratória. Neste cenário extremo, as personagens têm de lidar com decisões e escolhas que vão colocar a sua ética à prova.
Vintenberg conduz-nos durante sete episódios por uma viagem sobre o amor, sobre a noção de família e as escolhas que têm de ser feitas em situações extremas.
Foi numa manhã soalheira, no emblemático Lapa Palace, em Lisboa, que conversámos com o realizador dinamarquês sobre a minissérie que estreou em Portugal durante o LEFFEST, mas que pode ser vista a partir das 22h10 desta terça-feira, dia 19, nos canais TVCine Edition e TVCine+.
Como surgiu a ideia para esta série?
Eu acho que queria fazer uma declaração de amor ao meu país. Ao ficar sem ele, ao fazê-lo desaparecer senti o seu valor. Isto por um lado, por outro lado, eu estava em Paris, estava num quarto de hotel, tinha saudades da minha família, era domingo, não conseguia voltar para casa… Paris não se importava comigo, eu não me importava realmente com Paris, e de repente surgiu esta ideia do que aconteceria se tudo o que amo, tudo o que tomo por garantido, tudo o que me define me fosse retirado tal como aconteceu a milhões de outras pessoas e refugiados. E se fôssemos nós em vez deles?
A série explora temas como o privilégio social e a crise de refugiados na Europa. Quais são as suas principais reflexões sobre estas questões?
Bem, obviamente, há dois elementos aqui. Eu quero colocar um espelho à nossa frente, a nós no mundo ocidental. Como somos nós como seres humanos? Como é a nossa ética? Estamos dispostos a vender a nossa casa a alguém que perderá todo o seu dinheiro numa semana quando a crise atingir o nosso país? Seguiremos o nosso caminho com o nosso belo namorado e o nosso pai rico para Paris ou ajudaremos a nossa mãe que precisa? O que é o amor para nós? Isto é uma coisa, mas obviamente, compreender os outros é também um elemento.
A empatia por todas essas pessoas necessitadas e todas aquelas pessoas que têm estado em necessidade ao longo das gerações. Todos os judeus que tiveram de fugir dos seus países e todos os sírios que têm de fugir dos seus países e os ucranianos que têm de fugir dos seus países agora. Criar uma empatia e compreensão por estas escolhas fundamentais e que mudam a vida, e que têm de se fazer é importante. É importante para nós compreendermos o que é preciso para uma pessoa deixar a sua cultura para trás ou mesmo deixar os seus filhos para trás. E não acho que possamos ser recordados disto o suficiente.
E o que espera que a audiência retire destas questões?
Eu deixo as mensagens aos padres e para os políticos. Na verdade, tenho tentado muito deliberadamente não enviar mensagens. Faço antes muitas perguntas, pronto. É como se eu e o meu colega coautor [Bo Hr. Hansen] tivéssemos criado um laboratório, e tivéssemos colocado oito pessoas nesse laboratório, e um país inteiro, e estivéssemos a tentar ver o que acontece com estas pessoas nestas circunstâncias. O que acontece à nossa moral, o que acontece à nossa empatia, o que acontece à nossa solidariedade em tempos de crise.
Certo, e há uma caminhada de cada personagem, muito pessoal em paralelo com o desenrolar de toda a situação e do futuro do próprio país. Então, como é que se consegue equilibrar estas duas narrativas e se consegue que estejamos a ver a série e a acompanhar o desenrolar da história, mas, ao mesmo tempo, nos sintamos muito próximos das personagens?
Oh… Obrigado. Eu também me sinto muito próximo das personagens e, tendo trabalhado nelas durante muito tempo, preocupo-me realmente com elas. E o melhor que posso alcançar como cineasta, e agora criador de televisão, é criar personagens que permaneçam connosco. Se criarmos situações ou personagens que entram nas nossas almas, e que levamos connosco, então criámos vida, com toda a humildade. E isso para mim é o melhor que posso alcançar.
E penso que ao mostrar a fragilidade de ser um ser humano, surge um elemento de partilha, porque podemos refletir sobre isso. Espero que se torne um espelho para o espectador, quando testemunham as fragilidades de outras pessoas, e também as vitórias de outras pessoas, e casos de amor e tudo isso.
Trabalho sempre muito minuciosamente com os atores. Ensaiamos, preparamos, temos conversas sobre o guião, às vezes reescrevemos cenas, e depois ensaiamos novamente, para que eu possa criar uma base sólida para eles. Para que depois, quando a câmara se liga, eles possam soltar-se e fazer as coisas irracionais, imprevistas e milagrosas. Mas eles só podem fazer isso com base em muito trabalho árduo e sólido.
Em todo este caos e desordem que estão a viver, disse em entrevistas anteriores, que neste processo encontro resiliência e amor nos jovens. Eles deram-lhe esperança?
A esperança é uma coisa muito importante. Na altura em que estava a desenvolver a série, a minha vida, a minha vida privada, tornou-se por razões também privadas muito desesperançada.
Portanto, o processo de fazer esta série também foi um processo de encontrar esperança, tanto nesta história como na minha vida. A esperança não é como um botão que se pode ligar e desligar de repente, nem na vida, nem no drama.
Então, a forma como abordámos isso na série foi que abrimos o final e demos a estas oito pessoas a possibilidade de lidar, de se reinventarem num novo mundo, como nós temos de nos reinventar nestas novas circunstâncias. E isso tornou-se esperançoso em si mesmo. Penso que, como seres humanos, somos muito bons a lidar com as situações, particularmente os seres humanos saudáveis provenientes da parte rica do mundo, da parte educada do mundo. Encontraremos o nosso caminho até à superfície.
Portanto, isso em si já era muito esperançoso.
Eventos recentes como a pandemia, os incêndios florestais na Europa, a crise migratória, tudo isto influenciou a série?
De certa forma, a mudança do mundo tem vindo a ultrapassar o nosso projeto. A série foi pensada antes da pandemia, antes da guerra na Ucrânia, antes de toda a água em Valência e no resto da Europa.
E foi interessante apresentar esta ideia aos meus amigos há sete anos. Ninguém acreditava nisso. Não, não acreditavam.
Achavam que era um projeto de futuro estranho e alienado. Mas infelizmente, e de uma forma muito assustadora, as pessoas agora acham-no oportuno. E essa parte deve-se à pandemia.
A pandemia abriu emocionalmente a porta do nosso projeto para o público. E foi estranho porque havia cenas que tínhamos escrito que de repente estavam a acontecer à nossa frente nos noticiários. Por exemplo, havia uma obsessão com papel higiénico. É como se as pessoas pudessem viver sem comida e água, mas não pudessem viver sem papel higiénico por alguma razão. E isso também estava no nosso guião. Então tivemos de o retirar porque não queríamos ser uma cópia dos noticiários.
Ou seja, anteciparam tudo o que vivemos?
Tudo, tudo, não! Mas as conferências de imprensa e as situações do papel higiénico… A forma como o Governo falava com as pessoas. Mas isso também aconteceu porque ainda estávamos a escrever o guião quando a pandemia surgiu. Então, houve frases que foram ditas durante a pandemia que nós roubámos e incluímos também.
Portanto, foi uma situação de ‘dar e receber’.
Na série são abordadas várias questões ambientais, questões urgentes. Acredita que ao abordar estas questões na ficção ajuda a consciencializar as pessoas?
Penso que sim, durante a semana em que o espetáculo está em exibição, mas no dia seguinte as pessoas esquecem-se. É assim que somos como seres humanos, mas espero que seja diferente. Bem, vejamos a pandemia, todos estavam eufóricos, deixámos de voar… E depois havia aquele cientista num canto da sala a dizer: 'Mas esperem lá, no dia em que a pandemia acabar, voltaremos aos aviões.' E ele tinha razão. Portanto, por mais que eu ache que nós, como seres humanos, somos mestres em lidar em nos habituarmos, em inventar e ajustar-nos, acho também que não somos capazes de mudar antes de a crise estar realmente em cima de nós. Se olharmos para os jovens no meu país, e suponho que seja o mesmo no vosso país, eles têm esperança para si próprios, há uma esperança ardente para eles próprios, de mudar a sua pegada neste planeta. Mas eles não mudam.
Pelo contrário, voam cada vez mais e compram cada vez mais. Não conseguem. É-nos tão difícil mudar.
E isto deixa um enorme sentimento de insuficiência em todos nós, o que penso ser muito contraproducente. Então, sei que isto pode ser confuso porque é ambivalente. Estou a dizer que sim, mas acho difícil mudar. Quando chega a hora da verdade, e no final do dia, podemos inventar coisas, podemos encontrar a nossa saída da crise. É nisso que eu acredito.
Dada a receção do público à série, considera fazer uma segunda temporada?
Eu nunca imaginei uma segunda temporada. Mas quando mostrei a série ao meu filho, embora ele talvez seja um pouco novo demais, tem 12 anos, mas como dizia, quando lhe mostrei a série ele ficou tão preocupado e tão perturbado com tudo que insistiu agressivamente numa segunda temporada. Ele quer saber para onde estas pessoas vão. Ele quer que o mundo seja bom para estas pessoas.
Portanto, quem sabe? Posso vir a satisfazer as suas necessidades em algum momento. Mas não é o plano neste momento.
Há então alguma esperança de que se possa haver uma segunda temporada…
Sim!
Voltando às personagens, dizia no início da entrevista que tudo começou em Paris, uma das personagens principais escolhe seguir para Paris para reconstruir a vida quando tem de deixar a Dinamarca. Há aqui uma relação entre estes dois factos, Paris é também uma personagem importante?
Sim, acho que realmente há. Agora que pergunta… Penso que Paris sempre foi uma espécie de cidade de sonho para todos nós, dinamarqueses. É o lugar para onde se vai quando se quer fazer algo realmente luxuoso. Mas Paris também se tornou uma cidade que já tem o número suficiente de estrangeiros. Simplesmente não consegue lidar com mais pessoas, tal como Barcelona e provavelmente como em Lisboa. E sente-se isso, e talvez seja por isso que exista esta dualidade de ser muito atraído por um lugar que te rejeita, e isso encaixou perfeitamente na história.
Então, Paris é também como... Paris é uma personagem enorme, e também muito do financiamento veio de Paris. Esta é uma produção da Studio Canal.
A série foi gravada em vários países. Isso foi desafiante? Como é que correu?
É um enorme desafio rodar fora do país natal. Há aquele ditado, escreva sobre aquilo que conhece. Talvez porque as coisas se tornam realmente universais ao serem super específicas. A especificidade é o que torna as coisas universais, e quando se entra em território estrangeiro, tendemos a tornar-nos mais genéricos, mais educado de certa forma porque não é o seu país. Eu queria superar isso, e tentei fazê-lo através de muita pesquisa, uma pesquisa constante até chegar ao ator.
Quando estava diante de um ator polaco, eu perguntava: dirias isto dessa forma? Ou farias isto desta maneira? Ou tentava perceber como é o Natal aqui? Etc… Todas essas coisas. E foi algo bastante assustador, porque eu não queria fazer nada errado, obviamente. Esse processo foi intenso, m as também gostei, foi uma exploração. É quase como estar num conto de fadas.
E está feliz com o resultado?
Eu estou se os polacos estiverem felizes e os franceses estiverem felizes. E isso ainda não sei… sei de alguns e, obviamente, já vi esta série e a receção dela algumas vezes agora. E tem havido reações muito, muito intensas que me comoveram, na verdade.
Para terminar, gostaria de lhe perguntar, qual é a diferença de gravar uma série de TV em relação ao seu trabalho anterior no cinema?
Para mim, não há muita diferença entre fazer um filme e uma série de televisão, é apenas muito mais longo, são muitos mais dias.
A vantagem de ter muitos dias é que se entra no espírito e esquecem-se os medos, a autocensura, a vaidade, tudo isso tem de desaparecer porque fica-se tão cansado e os dias de rodagem não terminam. Então, acaba-se por tomar decisões rapidamente.
E esse é um bom lugar para se estar criativamente. Ser criativo é esquecer-se de si mesmo. Um dia, uma pessoa inteligente disse-me: se te concentrares em alguém ou algo que não sejas tu próprio, podes experimentar um momento de felicidade.
E foi isso que aconteceu aqui. Depois de 30 dias de filmagens, havia mais 90 dias pela frente. E era só nisso que pensávamos. E nesse sentido, foi uma bela jornada.
