Tiago Bettencourt: "quero reinventar-me em todos os álbuns"
"Foz", o oitavo disco da discografia do músico e compositor, já está disponível nas plataformas digitais.
Tiago Bettencourt edita esta sexta-feira (7 de novembro) o álbum "Foz" - o oitavo disco da discografia que "nasceu ao longo de dois anos, entre rascunhos guardados e momentos de recolhimento, culminando numa residência artística em Bruson, na Suíça", como conta a nota que apresenta o álbum à imprensa.
Na quietude do isolamento, Tiago Bettencourt imergiu em texturas mais eletrónicas, "experimentando sintetizadores e instrumentos gravados na sala de estar".
Já de regresso a Lisboa, "convocou" o músico e produtor Fred Ferreira para a coprodução e o produtor Charlie Beats para a mistura final. A fadista Raquel Tavares e a cantora Milhanas participam nos temas 'Montanha' e 'Não Sei', respetivamente.
"Foz" mereceu também "uma experiência inédita de escuta antecipada através de um grupo exclusivo de WhatsApp, no qual Tiago Bettencourt partilhou diariamente cada uma das faixas acompanhadas de reflexões pessoais sobre o processo criativo".
Na quinta-feira (6 de novembro) o novo álbum foi apresentado ao vivo no Convento de São Francisco, em Coimbra - sala que esgotou.
A 18 de dezembro, Tiago Bettencourt vai mostrar canções de "Foz" no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa, e a 20 de dezembro sobe ao palco da Super Bock Arena, no Porto.
Oiça a entrevista completa:
Começo pelo canal que criaste no WhatsApp para mostrar o álbum de uma forma mais detalhada. Acaba por ser uma experiência comunitária, com alguma intimidade...
Sim. E já mandei umas piadolas por lá e tudo. A ideia não foi minha. Foi da equipa de comunicação. Eu nem sabia que estes canais existiam. Mas estou a achar muita piada. De repente, vejo-me num grupo de mimos. (risos) Digo isto porque quem segue o canal só pode reagir com carinhas [emojis].
Exato.
Nesse canal posso dizer o que quiser, por mais idiota que seja. Ocasionalmente, mando umas piadas palermas. Depois recebo uns emojis de volta e continuo a minha vida. (risos) Mas, sim. Sinto que é um espaço muito íntimo. E sinto mais do que isso. Sinto que [as pessoas que seguem o canal] estão disponíveis para ouvir o disco com tempo, muito devagarinho. É algo que, atualmente, não acontece com tanta frequência. Parece que as pessoas já não têm tempo para ouvir [música] com tanta disponibilidade. Por outro lado, nesse canal parece que cada canção é um presente. Percebi também que as pessoas podem deixar comentários na plataforma onde coloco as músicas para escuta. E, atenção, não fazia ideia da existência desses comentários. Deparei-me com alguns bem engraçados. É um acrescento engraçado. Acho que a diferença [entre um canal desse género e o Instagram] é como dar um concerto num auditório em comparação com um concerto nas festas populares. As pessoas que pagam para ver o concerto no auditório estão mais interessadas do que as pessoas que assistem aos concertos nas festas populares. Os espetáculos nesse tipo de festas são como o Instagram. Tens muita gente a seguir a tua conta, mas nem todos os seguidores querem saber de ti. No canal é diferente. Sinto que as pessoas estão atentas. Está a ser uma experiência muito interessante.
Segundo sei, essa é a tua intenção. Gostarias que as pessoas escutassem este disco com calma, com "atenção plena", como dizes...
Isso é sempre, não é? Essa utopia…
E achas que essa disponibilidade para escutar é cada vez mais utópica?
Não sei se é cada vez mais utópica. Ainda no outro dia alguém me disse que o uso das redes sociais estava a aumentar nos Estados Unidos mas a decrescer no resto do mundo. Parece que os miúdos estão mais afastados disso. Não sei se é um sinal de alguma coisa ou se é apenas a conclusão de um estudo que não quer dizer absolutamente nada. Não faço ideia. Mas posso dizer que agora anda aí uma banda de miúdos, os Geese, que está com um grande hype. Há muita gente que está a depositar alguma esperança neles. De certa forma, são uma carta fora do baralho, estão fora da norma. Para ouvi-los é preciso tempo e atenção. Não são músicas imediatas. O facto de os Geese estarem a ter um hype tão grande, ao ponto de terem a tour esgotada, pode ser um sinal de esperança. Também pode ser apenas um hype, que eventualmente vai acabar por desaparecer, como acontece a muitas bandas. O Pedro Abrunhosa disse uma coisa muito interessante sobre isso na conferência que recentemente deu no Fólio [Festival Literário Internacional de Óbidos]. Falou do fim da hereditariedade das coleções de música. Achei [a perspetiva] interessante e ainda não tinha pensado nisso. Eu, por exemplo, tenho em casa vinis que eram da minha avó ou CDs que roubei ao meu pai. E isso vai deixar de existir. As listas que temos no Spotify desaparecem assim que deixamos de pagar. Deixam de ser nossas. É uma memória que se vai perdendo com a maneira atual de ouvirmos música. Mas tenho sempre esperança de que haja uma espécie de acordar. Tenho esperança que as pessoas voltem a dar mais valor à música.
Nesse tal canal de WhatsApp escreveste que o álbum partiu de ideias que foste guardado "sem pressa". Que ideias eram essas?
Não fiz este disco de modo diferente ao que estou habituado a fazer. Costumo fazer isso. Vou escrevendo. Quando digo ideia refiro-me a qualquer coisa que escreva. Pode ser uma ideia de acordes, por exemplo. Algo que me inspire. Vou guardado as ideias no telemóvel ou no meu caderno. Passado algum tempo - um, dois ou três anos - posso ou não usar o que anotei. Escrevo como qualquer pessoa. Hoje em dia chama-se journaling, não é? Temos de deitar as coisas cá para fora. Só começo a forçar mais a escrita quando sinto que está na hora de gravar um álbum. É também nessa altura que decido fazer uma viagem longa. A que fiz este ano foi seguida de uma residência artística na Suíça. Foi uma experiência muito interessante. É quando termino algumas ideias, deito outras fora e começo a fazer as canções. É sempre este o processo.
É verdade que na Suíça ficaste alojado num chalé de madeira? Isso é muito ao jeito de Bon Iver...
Tinha outros materiais também, mas confirmo, tinha muita madeira. No fundo, era um chalé que se pode alugar em Airbnb.
Mas estavas sozinho ou partilhavas o espaço com outros artistas?
Estive sozinho. Foi um projeto que fiz em parceria com o Turismo da Suíça. Pensámos nisto por estar precisamente na fase de composição do álbum. Fui para o chalé só com os instrumentos, o computador, os teclados e levei drum machines e sintetizadores pequenos. Por lá arranjaram quem me emprestasse um baixo, uma guitarra elétrica e um teclado um pouco maior. O Martim Torres esteve comigo na primeira semana, a fazer conteúdos e a filmar algumas coisas, mas dormia em Bruson, que é uma aldeia que fica a cerca de dez minutos do chalé. Na segunda semana fiquei completamente sozinho. Bruson é uma aldeia muito cultural. Tem um festival - o Palp Festival - que acontece ao longo do ano e que organiza concertos em sítios inóspitos e muito bonitos. Talvez por isso estivessem tão disponíveis para ajudar na dinamização da residência. Acabou por correr tudo muito bem.
O que é que o silêncio, a quietude e a natureza te disseram?
Para ir para um lado mais eletrónico.
Mas não só. Explica-me o impulso criativo e essa vontade de reinvenção...
A vontade de reinvenção existiu sempre. Quero reinventar-me em todos os álbuns. Tento sempre mudar um pouco em todos os discos. O "Do Princípio", que é o álbum que tem a 'Morena', é muito diferente do "A Procura", que é o disco que tem a 'Se Me Deixasses Ser', em que a eletrónica já está bastante presente. O "2019 Rumo ao Eclipse" pôs o rock mais à frente, até porque foi nessa altura que o Pedro Branco, que é um guitarrista muito forte, entrou para a banda. Neste último álbum a banda ficou muito mais para trás. Gravei-o praticamente sozinho na minha sala de ensaio. Senti que agora queria imergir mais no mundo eletrónico. E, tecnicamente falando, houve coisas que tive de descobrir ou que tive de aprender a fazer. Tudo aquilo que não consegui perceber deixei para a fase final, para o último mês. Foi nessa altura que chamei o meu amigo Fred Ferreira para coproduzir o álbum comigo. Trabalhámos no estúdio dele, que fica a cerca de três minutos do meu. Ele ensinou-me coisas essenciais nas músicas, como determinados sons [para encaixar] na passagem de um refrão para um verso. Como o Fred trabalha nisto há mais tempo ensinou-me algum vocabulário da música eletrónica. O método dele é muito mais rápido que o meu. Sei que eu poderia chegar ao mesmo resultado mas iria demorar mais tempo a chegar lá. Confio muito nele e no gosto dele. E é muito importante trabalharmos com pessoas que respeitamos.
Qual foi o briefing que lhe passaste?
Tenho o hábito de mostrar as músicas que vou fazendo a algumas pessoas em quem confio. Mas neste álbum tinha a ideia clara de que ninguém ia perceber o lugar aonde queria chegar. A dada altura, deixei de mostrar o que ia fazendo e confiei no meu instinto. Podia resultar ou não. E foi um pouco isso o que disse ao Fred. Disse-lhe: "olha, acho que vais perceber onde quero ir. Por isso, 'bora ouvir para veres se queres ou não trabalhar nisto". Ao que ele respondeu: "sim, senhor. Vamos a isso".
Descreves o processo de composição de "Foz" como uma experiência "livre e interessante". Não digo que não tenhas sido livre antes, mas gostava de saber em que medida foste mais livre agora...
Não devia ser uma exceção, não é? Devia ser o normal.
A palavra "livre" é muito poderosa...
É um exercício de liberdade quando dizes ao teu manager que não queres ceder a pressões exteriores. (risos) Gosto muito do meu manager. E sei que a função dele é vender. Mas estou cá para lutar no sentido oposto. E é assim que tem de ser. Tento não ceder a fórmulas. É o percurso que tenho trilhado. É vagaroso mas faz com que durma bem à noite. Sei que existem truques que dão resultado e sei que quem se junta aos movimentos da moda pode, de repente, ganhar um dinheirão. Mas não me ia sentir bem com isso. Talvez o meu caminho seja um pouco solitário. Mas talvez seja por isso que sou livre. Não sou a única pessoa a fazê-lo mas sou das poucas pessoas que, indo por esse caminho, conseguem chegar a muita gente. Isso dá-me um certo prazer. Sinto-me muito sortudo. Acho que apareci numa altura em que o normal era isso. Isto há 20 ou 25 anos.
Talvez tenha sido por essa razão que lançaste o '7 Dias' como single de apresentação e numa altura em que não é suposto lançar singles...
Sim, lá está. O meu manager nunca iria deixar que esse single saísse numa altura que não fosse o final de julho, que é uma altura péssima para lançar singles. É uma altura em que já ninguém quer saber de música, já ninguém partilha nada. Ele pensou: "vamos lançar isto agora como uma espécie de teaser, assim meio estranho, para as pessoas ficarem chocadas, para não perceberem o que o Tiago anda a fazer ou para pensarem que enlouqueceu" (risos). Lançámos o '7 Dias' com um vídeo bastante esquizofrénico que foi feito com recurso à inteligência artificial. Fizemo-lo a partir de fotografias do João Hasselberg, que, além de ser o meu baixista, é um grande fotógrafo. Houve pessoas que gostaram muito do tema e outras nem tanto.
Mas a tua intenção era provocar esse desconforto, certo?
Sim, sim. A ideia era essa. Sinto que a minha música nunca é imediata, causa sempre esse desconforto. Mas na minha cabeça componho canções ultra orelhudas. (risos) Não me acho alternativo ou muito esquisito. Acho que faço canções bacanas, mas a verdade é que demoram a chegar às pessoas. Só passado um ano ou dois é que as pessoas começam a cantá-las. A canção 'Viagem' ou a 'Se Me Deixasses Ser' são bons exemplos. A 'Morena' talvez seja um pouco mais óbvia. Mas demorou para aí uns seis ou sete anos até que as pessoas cantassem 'O Jogo' nos concertos, canção que é do meu primeiro álbum a solo ["O Jardim"]. Fico com a ideia de que, se calhar, essa estranheza é um pouco normal nas coisas que faço, embora eu não sinta isso. Achei que o '7 Dias' seria um bom single radiofónico, mas toda a gente diz o contrário.
Sobre a '7 Dias' escreveste: "num mundo distópico, extremado, feito de propagandas e contra informações, em que cada ser humano tem a sua página de autopromoção cheia de felicidade e frases de autoajuda, quem somos nós afinal?". Curiosamente, usaste a inteligência artificial (IA) para o vídeo...
É verdade. Está tudo interligado.
O advento da inteligência artificial não te assusta, ainda que possas utilizá-la como uma ferramenta?
Usei IA neste vídeo para experimentar. E foi muito fácil. Foi feito com um programa em que basta colocar a fotografia e o prompt [instrução] com aquilo que pretendes que cada elemento da foto faça. E depois o programa faz-te um vídeo de dez segundos. Muitas vezes, sai completamente ao lado até que há um que sai bem. Acaba por ser um pouco por tentativa e erro.
Mas agora também pergunto como é que a arte e o artista se movem neste mundo com um potencial tão distópico...
Tem a ver com a tal noção de liberdade de que falámos há bocado. Não me apetece muito começar a usar a inteligência artificial para fazer música, pelo menos na parte de composição. (...) Acredito que em termos técnicos vá ser muito útil. Mas a composição está ligada ao lado humano que, no fundo, é a arma que tenho para fazer música. E nesse sentido não me apetece fazer parcerias. Posso eventualmente tentar mas acho que não me vou sentir bem com isso. Ainda no outro dia ouvi alguém a dizer numa conferência que as pessoas usam a IA em sessões de escrita para ver hipóteses de letra, de rima ou de refrão. Acho que é uma preguiça absoluta. Isto acontece nos chamados wiriting camps, que, entretanto, já são feitos em Portugal. São sessões em que juntam cerca de 20 pessoas para trabalhar numa canção. Custa-me a acreditar que dali resulte algo profundo. E, às tantas, sai. Mas acho que seria apenas um acaso.
Lembro-me que há pouco tempo experimentei, por brincadeira, simular uma letra do Nick Cave com recurso à IA. Achei a possibilidade um pouco assustadora. Como é que olhas para este tipo de "simulação"...
Viste isso nos The Red Hand Files [website no qual Nick Cave responde a perguntas dos fãs]?
É provável, mas confesso que não me lembro.
Gosto muito de ficção científica. E lembro-me de ver uma série, cujo nome agora não me recordo, em que havia uma máquina que era de tal forma avançada que conseguia adivinhar o futuro. Inventaram uma máquina que nos conhecia tão bem que adivinhava as nossas reações. Acho que ainda não estamos aí. Mas em relação à letra do Nick Cave, creio que essa tentativa de simular uma letra saiu bastante oca.
Sim.
Vi usarem isso com uma música da Taylor Swift. E realmente ficou igual. Aquilo parece um pouco feito com IA. Acho que depende. Mas acho que vai conseguir imitar muita coisa. Estamos cá para ver. Eu espero que não.
Acho que voltar ao essencial é uma coisa muito humana. Se calhar, vamos chegar à fase em que será urgente voltar ao que nos é essencial, enquanto humanos, e à disponibilidade para escutar com calma...
Seria interessante criarem uma lei que obrigasse a que as canções feitas com recurso à inteligência artificial fossem rotuladas. Seria uma forma de orientar as pessoas.
Também partilhaste o videoclipe do outro single, a canção 'Nem Tudo é Mágoa'. Há uma estética que une os dois vídeos. Não sei se vais seguir a mesma estética nos próximos...
Também não sei...
No videoclipe da 'Nem Tudo é Mágoa' acompanhamos uma mão a segurar uma planta. Dei por mim a pensar sobre o significado dessa imagem. Há algum significado?
Há sempre um significado. Mas não vou contar o meu para não estragar o teu. Não me atreveria a fazer isso.
Não percebi muito bem qual é a planta, confesso. Ao início, achei que fossem folhas de louro...
Também não sei. Estava a fazer uma caminhada ali pela Serra da Arrábida. A planta em si não sei. Mas é possível que se arranje uma simbologia qualquer.
Eu arranjo sempre.
E eu não te quero tirar isso.
Sim, claro.
Podemos arranjar simbologias no acaso também. Eu acredito muito no acaso.
No acaso?
Sim. No acaso de ter escolhido aquela planta e não outra.
Esse "acaso", se calhar, não é acaso.
Exato.
E no final do vídeo dás um salto. Também ia perguntar se esse salto simboliza alguma coisa...
Pode simbolizar a tal liberdade de que estávamos a falar.
Sim...
Será?
O David Bowie é que dizia que não gostava nada que lhe perguntassem o significado das canções...
Eu também disse isso na abertura do canal. Todos os dias escrevo lá um textinho e quando escrevo tento ser vago o suficiente para provocar uma espécie de faísca que deixe as pessoas a pensar. Não dou grande direção. Faço-o sem ser muito específico. Acho que as pessoas tão a precisar disso, sabes? As letras que agora andam aí são estupidamente literais. Não podes tirar mais nada a não ser a vida do artista.
Sim, muito literais.
É tipo ler a TV 7 Dias.
Sem dúvida.
As letras que obrigam as pessoas a viajarem um bocadinho fazem bem.
Quero agora passar para o tema 'Montanha' até porque nesta canção juntas adufes, cantares do Minho, cante alentejano e fado pela voz da Raquel Tavares, creio...
Convidei-a porque não existia o sample com sessenta anos que queria para esta música.
'Montanha' é uma homenagem aos nossos sons?
A canção fala sobre um país pequenino e claustrofóbico. É sobre a síndrome de terrazinha. Quando não gostamos muito de ver a pessoa ao nosso lado a crescer. Achei que, por outro lado, seria interessante mostrar a riqueza desse país pequenino. Já na fase do Fred, fui buscar alguns samples para a malha da canção. Convidei a Raquel Tavares porque queria muito que o fado encaixasse ali na perfeição. Acabámos por fazer um sample que parece muito antigo e do qual gosto muito. Fiquei muito contente com o resultado. A Raquel gravou a parte dela em vinte minutos e num microfone péssimo. É uma cantora com uma voz surreal.
E houve algum tema mais desafiante, que tenha puxado mais por ti?
Foram todos muito desafiantes. Obriguei-me a arranjar a música de uma maneira completamente diferente. O processo foi completamente diferente. Tive alguns ensaios em banda, que é o que costumo fazer, mas não fiquei contente. Não estava a sentir. Daí ter-me fechado no estúdio. Tive de tentar perceber como é que podia fazer o refrão crescer, como é que criava um refrão mais tenso ou um verso mais ambiental ou mais profundo. Isto tudo com um vocabulário novo e com armas que normalmente não costumo usar. Ou até uso, mas em pós-produção. Só costumo juntar a eletrónica depois da parte com a banda. Com este álbum foi exatamente o contrário. Comecei do zero com a eletrónica. E o mundo eletrónico é infinito. Queres pôr um bombo numa bateria acabas por ter infinitos sons de bateria. Então, vais à procura não só do som que pretendes mas também da emoção que queres que esse som te transmita. E isso pode demorar uma semana. Passado um mês, percebes que afinal não era nada daquilo que querias e mudas. É um processo bastante diferente. Todas as canções foram construídas, destruídas e reconstruídas até eu perceber onde queria ir ou onde as canções deviam estar no reino eletrónico.
Mas também sei que diluíste algumas influências no álbum como Neil Young ou Jack White…
Sim. São as minhas influências de sempre. Estou no mundo eletrónico mas gosto de pôr rock ali pelo meio. A influência do Jack White tem a ver com a guitarra mais distorcida que gosto muito de usar. São coisas que já tenho dentro de mim. São músicas que fazem parte da minha é vida e que aparecem sem ninguém estar à espera. Só depois de fazer o 'Nem Tudo é Mágoa' é que percebi que harmonia das vozes está parecida com a 'Only Love Can Break Your Heart' que é uma música muito bonita do Neil Young. O Alizzz, que é o produtor do C. Tangana, também foi uma grande influência neste álbum. Eles têm músicas secas, com um som muito manhoso, mas muito interessante. Pegam no "lixo" dos reggaetons ou uma coisa desse género para fazer uma coisa mais artística.
Vocês, artistas, são uma grande comunidade de trocas e partilhas que, muitas vezes, acontecem de forma inconsciente. Quando estava a ouvir a 'Fenda' lembrei-me logo de uma das minhas canções preferidas do Leonard Cohen, a 'Anthem'...
Sim, senhora. Foi completamente gamado. (risos)
E o que é que nos podes contar sobre os concertos no Sagres Campo Pequeno e na Super Bock Arena?
Vamos tocar algumas músicas do novo álbum. Não pode ser o álbum todo porque nestes concertos maiores há muita gente que talvez nem saiba que lancei um disco.
Não seguem o canal… (risos)
E querem ouvir a 'Canção do Engate'. (risos) Vamos lá nós para tocá-la.
É uma grande versão...
Por isso é que não podemos fazer essa desfeita às pessoas. Vamos tocar algumas músicas do novo álbum e vamos fazer algumas novas versões de músicas mais antigas ou simplesmente tocar as músicas como são. Mas são concertos sempre muito especiais em que cenografia também acrescenta a todo o espetáculo. Os concertos no Campo Pequeno e na Super Bock Arena vão ser muito mais pontuais porque vão ser 360º. O cenário vai ser bastante diferente.
Também para criar a tal ideia de intimidade...
Sim. É um pouco para mimicar o que fiz todos os dezembros no Coliseu [dos Recreios]. Sou um apaixonado pelo formato 360º no Coliseu. E estes concertos vão ser os últimos desta aventura que dura desde 2018. É para acabar em grande, para tentar encher salas um pouco maiores mas fazendo alusão ao formato 360º.
