Tijolo com tijolo, verso com verso, canções sobre trabalhadores
Chico Buarque, Sérgio Godinho, Bruce Springsteen ou Maria Reis pegaram nas suas ferramentas e martelaram nas nossas consciências. Depoimentos de Tim, dos Xutos, e da rapper Capicua.
A celebrar o 1º de Maio, o Dia do Trabalhador, juntámos “tijolo com tijolo”, verso com verso, verso com tijolo e tijolo com verso, para destacar algumas das grandes canções de sensibilidade laboral, que colocam o capacete de mineiro mas que não enfiam a carapuça. São músicas que expõem a vulnerabilidade de quem bule e que lembram que há direitos para serem reconhecidos para quem tanto se estafa. Começámos por citar a canção de engenho e de génio de Chico Buarque, ‘Construção’, de 1971, cimentada à época da ditadura militar brasileira.
Sem aceitar na boca açaimes, Chico Buarque cantou sobre andaimes, que era “pingentes”, onde baloiçava o trôpego trabalhador, que “flutuou no ar” até espalmar-se no chão, “atrapalhando o tráfego”. Chico Buarque criou um samba épico, “como se fosse um príncipe” da música e de letra, trocando palavras e as voltas aos versos, como se fosse uma construção da Lego, que se desconstrói.
Não foi bonita a festa (da) pá do salineiro, que ergueu o punho ao patrão barrigudo, no ‘Fado do Salineiro’ (de 2024) da artista portuguesa Maria Reis, das Pega Monstro. Ao erguer o punho, o martirizado salineiro segurava a faca, que não era para golpear rochas de percebes, mas sim o rochoso patrão, que escapou “impune”. A história acabou mal, mas mesmo muito mal para o salineiro, que, habituado a afundar, afundou-se numa “cova”, que o pai viu descer. Mais uma luz de esperança que se pôs, “mais um rapaz” que se foi, lamenta, chorosa, Maria Reis, com luz de sensibilidade a fazer a aurora.
É de Salinas, mas da Califórnia, o escritor John Steinbeck, com fado para escrever grandes dramas de trabalhadores, como acontece no livro “Vinhas da Ira” (de 1939). Numa ficção tão real que parece reportagem, Steinbeck retrata a migração em massa dos camponeses do estado interior de Oklahoma para a esperançosa Califórnia, em fuga à seca, à depressão e à miséria, nos poeirentos anos 30. Como não empatizar com a personagem central, o rebelde e trabalhador Tom Joad, a quem Bruce Springsteen dedicou uma canção, ‘The Ghost of Tom Joad’. O livro é a viagem de estrada em carripanas que ninguém gostaria de fazer. “Families sleeping in the cars in the southwest/No home, no job, no peace, no rest”, canta Bruce Springsteen, que se identifica com o heróico e desgraçado Tom Joad.
Billy Bragg tem feito da defesa dos trabalhadores e dos sindicatos todo um percurso musical. As longas greves de mineiros em meados dos anos 80 na Grã-Bretanha, contra o liberalismo económico da primeira-ministro Margaret Thatcher, mobilizou Billy Bragg a pegar num hino da folk americana, ‘Which Side Are You On?’. Este apelo à camaradagem e à união da classe tem uma mão punk mais ríspida na guitarra elétrica por parte de Billy Bragg, em contraste com a antiga versão no banjo de Pete Seeger. A canção folk tem origem numa revolta mineira oprimida nos Estados Unidos, nos tais anos 30 do século passado.
Quem está sempre de olho ao mundo laboral é Sérgio Godinho. Logo ao seu primeiro álbum, “Os Sobreviventes”, de 1972, o cantor parece querer falar com o trabalhador acabrunhado, no tema ‘Que Força É Essa’.
Em 2024, Capicua fez uma adaptação feminina a esta canção. A rapper nunca escondeu a sua admiração pela obra de Sérgio Godinho. “É a primeira música do primeiro disco do Sérgio Godinho e é aquela canção, que é uma das minhas favoritas dele e da música portuguesa no geral, fala sobre a exploração da mão-de-obra barata, clama pela dignidade do trabalhador nesse sentido: 'nunca sentiste uma força a crescer nos dedos e uma raiva a nascer nos dentes', uma espécie de plantar da semente do inconformismo. Eu acho mesmo aquela canção perfeita”.
Que força é essa?, parece perguntar também Caetano Veloso aos marinheiros que navegam pelo mar sem fim e sem gratidão, no tema de 1969, ‘Os Argonautas’. A embarcação instrumental da música é portuguesa, a inspiração literária também, a partir dos escritos de Fernando Pessoa
Fausto Bordalo Dias também se colocou no lugar dos marinheiros na fase dos descobrimentos. Inspirado pelas crónicas de Fernão Mendes Pinto, Fausto fez a sua epopeia musical no álbum de 1982, “Por Este Rio Acima”. A determinada altura, Fausto fala-nos de ‘De um Miserável Naufrágio Que Passou’, o nome desta canção. “Aguenta a popa e vira a proa/Ajusta-me esses calabretes”, antes de irem ao fundo, no caos escuro e cruel das águas revoltas. Em modo de folia folclore, Fausto expõe o drama dos homens perdidos no mar e na história. ~
Quem se foca mais no presente são os Xutos & Pontapés, que expõem de forma bem disposta e muito prática a vida rotineira e modesta do trabalhador. É o que acontece em músicas como ‘Dia de S. Receber’ ou ‘Fim do Mês’.
O letrista dos Xutos & Pontapés, Tim, tem o radar social apontado aos trabalhadores. “O mês é sempre mais comprido que o ordenado. Pior ainda, os meses sucedem-se e os ordenados encolhem. A coisa ainda vai ficando pior. Este é o 'Fim do Mês'. E depois, no 'Dia de São Receber', 'já que [o dinheiro] é tão pouco, olha, gasto tudo num dia, faço aqui uma festa e depois, olha, o resto do mês que se lixe, logo se vê, que é sempre a esticar'. Portanto, são as duas situações que resultam do pouco valor que se dá ao trabalho aqui em Portugal. Sempre que se tentar uma qualquer mais-valia para os trabalhadores, alguém vai arranjar maneira desse dinheiro não chegar lá”.
Do outro lado do Atlântico, as grandes bandas rock do Brasil também tinham uma vocação sindicalista, como o caso dos Legião Urbana, no tema de 1986, ‘Fábrica’. O lendário vocalista dos Legião Urbana, Renato Russo, é o letrista deste tema interventivo ‘Fábrica’, curiosamente num álbum como “Dois”, de caráter mais introspetivo.
De Cabo Verde, com uma independência ainda muito recente, vinham os Tubarões, que falam da mão-de-obra barata de cabo-verdianos em Portugal, nos tempos quentes da revolução. A música chama-se ‘Alto Cutelo’ e ganha uma nova vida ao ser utilizada no filme de Pedro Costa, “Cavalo Dinheiro”, de 2014. A personagem central é verídica, falamos de Ventura, um cabo-verdiano morador do bairro pré-fabricado e derrubado das Fontaínhas, às portas de Lisboa.
No cancioneiro norte-americano também não faltam histórias trágicas de trabalhadores. A canção ‘Highwaymen’ pelo supergrupo de country Highwayman narra o final trágico de um salteador de estrada, de um marinheiro e de um trabalhador de uma barragem que tomam metaforicamente a vida celeste de um astronauta. Esta é porventura a versão mais célebre desta canção de Jimmy Webb. Este supercoletivo Highwayman era formado por Willie Nelson, Kris Kristofferson, Waylon Jennings e ainda Johnny Cash.
No mosaico de imagens em cima, dispôem-se pinturas de Jean-François Millet, Fernand Léger e Diego Rivera, e capas de discos de Chico Buarque, Maria Reis, Billy Bragg, Os Tubarões, Legião Urbana, Highwayman, Sérgio Godinho, Bruce Springsteen e Fausto.
Parte deste artigo assenta no 4º episódio do podcast sobre músicas de causas de todo o mundo "Canta Liberdade". O episódio em causa intitula-se 'Músicas pela Justiça Social e Laboral".
