Top Nacional de Álbuns: o século XX na paisagem
Presença cada vez mais evidente de discos históricos no top 50 português.
O Top Nacional de Álbuns está cada vez mais repleto de discos históricos, que pairam na tabela de vendas como fantasmas na classificação dos 50 mais vendidos da semana.
A cada vez maior dependência das reedições e das compilações reforça o peso do passado no mercado atual de música e é (quase) sem surpresa que vemos o álbum de 1973 dos Pink Floyd, "The Dark Side of the Moon", a liderar neste começo de fevereiro a tabela de vendas de álbuns dinamizada pela Associação Fonográfica Portuguesa.
Com mais de 200 semanas no Top Nacional, "The Dark Side of the Moon" é nesta semana o álbum líder. 22 dos álbuns do top 50 português desta semana (44%, portanto) assentam maioritariamente ou totalmente em gravações do século passado - entre discos de originais reeditados e compilações.
Acrescem ainda discos ao vivo recentes cujos os temas vêm em grande parte do século passado - como "70 Voltas Ao Sol (ao vivo com orquestra)" de Jorge Palma –, o disco de versões e de tributo a Tozé Brito, "Tozé Brito (de) Novo", ou um fenómeno já deste milénio mas com mais de 15 anos de existência como o seminal álbum de Amy Winehouse, "Back to Black" (com 116 semanas de presença no nosso top de álbuns).
No top britânico de álbuns, a presença de obras de alinhamento maioritariamente do século XX é percentualmente mais baixa, com 28 álbuns em 100 no Reino Unido - só a partir do 10º lugar, surge um disco composto maioritariamente por temas anteriores a 2001: a compilação dos Fleetwood Mac, "50 Years - Don't Stop". Nos Estados Unidos, a Billboard arruma os discos com mais de 18 meses que estejam abaixo da posição 100 do top 200 (o top corrente) na tabela Top Pop Catalog Albums, que apesar do nome pop, não olha a géneros musicais.
Vejamos alguns dos célebres moradores do Top Nacional de Álbuns que fizeram obra no século XX. É como uma viagem histórica aos sentimentos do público nacional.
Pink Floyd
Além do atual líder "The Dark Side of the Moon" dos Pink Floyd, também outro disco histórico dos anos 70 da banda inglesa vagueia pela nossa tabela de vendas, "The Wall", com 165 semanas no Top Nacional. Há um afeto consumado do público português em relação aos Pink Floyd, independentemente do comandante ser Roger Waters ou David Gilmour. O fenómeno transfronteiriço dos álbuns "The Dark Side of the Moon", "Wish You Were Here" (de 1975) ou "The Wall" (de 1979) chegou a muitos milhares de ouvidos em Portugal. A relação sentimental renovou-se e até aprofundou-se de várias maneiras, incluindo por via de transmissões televisivas da RTP dos concertos dos Pink Floyd em Veneza (em 1989, aquando d'A Momentary Lapse of Reason Tour, a primeira digressão mundial com David Gilmour ao leme) e do evento de Roger Waters em Berlim, em 1990, para celebrar a reunificação alemã e, claro, o derrube do Muro de Berlim - com a simbologia de "The Wall" envolvida. Quando os Pink Floyd vieram finalmente pela primeira vez a Portugal em 1994 e aterraram com a sua nave semicircular no antigo Estádio de Alvalade, foram necessários dois concertos para satisfazer tanta procura - exatamente naquela que seria a derradeira digressão da megalómana banda. Também sempre que Roger Water atua em Lisboa, é necessária a maior sala de todas, o Pavilhão Atlântico (atual Altice Arena), e duas noites seguidas a cada visita. Os portugueses não são indiferentes ao imaginário dos Pink Floyd.
The Beatles
Os Beatles já fazem parte da epiderme dos humanos. A sua universalidade faz-se sentir em Portugal e o nosso top é apenas mais um de muitos onde os Fab Four residem. Atualmente, estão presentes três álbuns dos Beatles no Top 50 Nacional: os álbuns de estúdio "Abbey Road" (originalmente de 1969, com mais de 80 semanas na nossa tabela) e "Let It Be" (de 1970) e a compilação "1". A iconografia dos Beatles comove todas as gerações, incluindo as crianças (que continuam a cantar 'Yellow Submarine'). Fazem-se legos alusivos, reeditam-se álbuns com todos os cuidados e cada documentário é desejado pelas plataformas televisivas, causando impacto, como foi agora o caso da série documental "The Beatles: Get Back", disponível na plataforma da Disney+, sobre os últimos momentos da banda de Liverpool, antes da separação. Quem respire o ar de 2022, corre o risco de se cruzar com um som dos Beatles e gostar.
José Afonso
O grande cantautor português é presença frequente e repetida no Top Nacional de Álbuns. Presentemente, constam dois dos álbuns reeditados de Zeca, gravados e lançados nos tempos da censura do Estado Novo: "Contos Velhos, Rumos Novos" (de 1969) e o anterior "Cantares de Andarilho" (de 1968). A grandiosidade das canções, a sua hibridez euroafricana tão fresca, a consciência histórica do nosso folclore e a coragem com que aquelas frases duras eram cantadas, sem rodeios, interiorizou-se nas emoções de muitos portugueses. A partir de 1974, com o 25 de Abril, uma nova vida se abriu às suas canções. 'Grândola Vila Morena' foi usada senha da revolução e tornou-se um hino que hoje se ouve um pouco por todo lado, até mesmo no Parlamento de Espanha (cantado por deputados catalães diante do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa). Onde José Afonso estava e onde já não estava, causava profunda comoção, do Coliseu dos Recreios à pinha na sua despedida dos palcos (em 1983) à enormíssima multidão no seu cortejo fúnebre (em 1987). Tudo o que se centra à volta de José Afonso engrandece-se naturalmente. O disco de tributo "Filhos Da Madrugada Cantam José Afonso" atraiu toda a classe pop-rock nacional e cresceu para um mega-evento ao vivo no Estádio de Alvalade, em 1994.
The Doors
Jim Morrison vive no Top Nacional, com atualmente dois álbuns dos Doors, o homónimo de estreia (de 1967), em 11º, e o vinil do derradeiro "L.A. Woman" (de 1971), em 14º. No Portugal acabrunhado da ditadura, vendiam-se discos dos Doors e a sua música passava num ou outro programa de rádio. O culto não podia ser feito de forma agregadora, mas de forma mais individualizada. A paixão de radialistas com antena nacional pela música dos Doors, como os casos de António Sérgio e de Luís Filipe Barros (entre outros), a devoção da nossa imprensa especializada (incluindo o crítico Miguel Esteves Cardoso) ou os vários livros traduzidos sobre os Doors e a figura de Jim Morrison alimentaram um fascínio em Portugal pela quarteto californiano. O impacto do filme de Oliver Stone, "The Doors - O Mito de uma Geração" - exibido nas nossas salas de cinema em 1991 e recorrentemente passado na nossa televisão - contribuiu em muito para que a banda de Jim Morrison chegasse às gerações mais novas. Os Doors of the 21st Century (com o vocalista dos Cult, Ian Atsbury, a fazer de Jim Morrison) tocaram em Portugal, em duas noites no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, em 2003, num acontecimento ao vivo que atraiu grandes peregrinações ao Parque das Nações.
Nirvana
O álbum mais reconhecido, "Nevermind", já leva quase 80 semanas na tabela da AFP, estando agora na posição nº16. O álbum de 1991 fez uma espécie de Big Bang mundial com o tema (e vídeo) 'Smells Like Teen Spirit'. Não havia internet, mas havia antenas parabólicas e bem mais programas de música na TV do que hoje. E por isso, a moda invernal das camisas de flanela com ténis All Star propagou-se por cá com facilidade. Por arrasto do efeito dos Nirvana, um catálogo de bandas grunge de Seattle infiltrou-se nas sensibilidades alternativas da juventude nacional. A última digressão dos Nirvana, pouco tempo antes do suicídio de Kurt Cobain, passou por Portugal. Como ainda não existia um espaço com as condições e a dimensão do Pavillhão Atlântico, a solução era o Dramático de Cascais, para o batismo nacional tão desejado dos Nirvana em 1994. Foi uma imensa mosh de felicidade, a poucos metros do canhoto Kurt Cobain, encostado ao extremo esquerdo do palco.
Ornatos Violeta
O segundo álbum da banda de Manel Cruz e Peixe, "O Monstro Precisa de Amigos", resiste no Top Nacional, com mais de 70 semanas e uma reentrada para o 26º lugar. Nos anos 90, os Ornatos Violeta aproveitaram bem a boleia do surgimento dos festivais de verão e da força popular das numerosas festas académicas para mostrarem a sua imensa orgânica ao vivo. O seu progresso em palco criou um seguidismo cada vez maior. Ao contrário dos seus contemporâneos, que acreditaram que o inglês era a opção ideal para as suas canções, os Ornatos, tal como os Clã, aproveitaram o buraco linguístico para se tornarem ainda mais especiais, com as suas letras inteligentes e apreensíveis em português. Terem-se despedido durante o ciclo de "O Monstro Precisa de Amigos" criou imensas saudades nos fãs que, estranhamente, foram crescendo nos anos seguintes à separação. Quando voltaram aos palcos em 2012, o anfiteatro natural de Paredes de Coura estava a rebentar pelas costuras, numa sucessão de emoções que continuou nesse ano nos lotados coliseus de Ponta Delgada, Lisboa e Porto.
Led Zeppelin
Quem costuma consultar o Top Nacional, não estranha ver por lá mais do que um álbum de Led Zeppelin. É o que acontece nesta semana, onde vemos duas das suas obras mais icónicas "Led Zeppelin II" (com temas como 'Whole Lotta Love' ou 'Heartbreaker' no alinhamento) ou "Led Zeppelin IV" (onde se ouve a célebre balada 'Stairway to Heaven'). Raramente, uma banda rock foi tão popular e provocou tanta demanda de bilhetes para os seus concertos como os Led Zeppelin. Num país como Portugal, onde existem numerosas legiões de metaleiros e de fãs de hard rock, não é assim tão estranho que se venere por cá tanto um dos gigantes da Santíssima Trindade do Heavy Metal Britânico, os Led Zeppelin.
Joy Division
A banda do frenético e paradoxal Ian Curtis tem andado a pairar na tabela de vendas de álbuns do nosso burgo. O álbum de estreia "Unknown Pleasures", com mais de 40 semanas no top, está no top 50. Se em vida de Ian Curtis, poucos deram pelos Joy Division, já os ecos do suicídio do genial letrista e carismático vocalista foram-se fazendo sentir, à medida que se descobria a música fascinante e matemática do grupo de Manchester, com a ajuda de artigos inflamados, que foram sendo publicados ao longo dos anos na nossa imprensa escrita. A sua influência fez-se sentir nalgum rock nacional, não só nos Sétima Legião ou no single de Manuela Moura Guedes, 'Foram Cardos Foram Prosas', com até numa breve fase dos UHF. O interesse de algumas editoras em lançar livros (traduzidos) sobre os Joy Division - como o caso da Assírio & Alvim - ou já neste século, os vários filmes de ficção e de documentário que se fizeram sobre a banda inglesa - "24 Hour Party People" (mais centrado no seu editor da Factory, Tony Wilson), o biopic "Control" ou o doc "Joy Division" - ou a generalização de t-shirts com iconografia do quarteto de Manchester, ajudam a explicar este fenómeno de culto tão resistente, passados mais de 40 anos sobre a morte de Ian Curtis.
