Tremor: bigue-bangue de cultura em São Miguel a partir de hoje
Entrevista a António Pedro Lopes, um dos diretores artísticos do festival.
O festival Tremor arranca hoje na ilha de São Miguel, para uma programação multicultural que cruza várias expressões e desafios, de performances a caminhadas, de experiências gastronómicas a residências artísticas.
A música é uma área fulcral, com uma programação que cruza artistas da ilha e do país com nomes e projetos de outros cantos do mundo. Poderíamos dizer que o indie-rocker português Vaiapraia, o guitarrista de flamenco Yerai Cortés, a cantora galesa Cate Le Bon ou o DJ chileno Matías Aguayo são alguns dos nomes fortes desta edição, mas o que sobressai ainda mais é o radar eficaz do festival, bem artilhado de revelações para o público. Os cincos sentidos vão estar à prova em São Miguel até ao sábado, dia 28.
Entrevistámos António Pedro Lopes, da direção artística do festival sediado em Ponta Delgada.
O Tremor é como um bigue-bangue cultural na ilha de São Miguel, não é? Agitam os clubes culturais e os projetos micaelenses de Ponta Delgada e de toda a ilha. E ainda trazem músicos de todos os cantos do mundo.
A génese do nome Tremor é a ideia de algo que vibra, e que vibra porque há um coletivo que faz essa vibração acontecer ao tomar, ao passar, ao habitar um lugar. Foi, foi assim que nós chegamos ao nome do festival. E, portanto, isso sim tem qualquer coisa de erupção, de explosão, de coisa que acontece e deixa uma marca ali e depois segue para a frente e ocupa outro espaço. Mas sim, também persistimos nessa lógica dos Açores para fora, do mundo para dentro dos Açores. E, portanto, as músicas, assim mesmo no plural, são diversas, vêm de continentes diferentes, da Europa, América do Norte, América do Sul, de África. Este ano há muita África. E isso continua a ser o que nos dá mais alegria de fazer e compor, porque é um menu de choques e de diferenças. Ora num momento é metal, ora no outro é techno, ora no outro é música de raiz tradicional de algum lugar, outra, noutro momento, é um cantautor.
Há até flamenco.
Exato. Esse é um lugar que nós ainda entendemos como sendo muito singular e importante de preservar, importante de alimentar, porque não existem muitos assim neste mundo. Não há também muitos cartazes de festivais a proporem esse tipo de choque de diversidade. Consideramos esse epicentro, esse bigue -bangue, como um lugar onde se podem convocar pessoas diferentes para, de alguma maneira, viverem a experiência que o festival propõe, que é, sem dúvida, o acumular de cinquenta a sessenta artistas, a gastronomia, passeios, enfim, todo o inebriamento que acontece por viver a ilha. A ideia do todo, a ideia de experiência, a ideia de diálogo com a ilha, com a paisagem, com as comunidades, que cria essa experiência total, essa roda-viva. O festival é uma roda-viva e é um organismo vivo nesse sentido.
A própria ilha tem vários climas em pouquíssimo tempo, que parece que se projetam no próprio festival, e vice-versa.
Nunca tinha pensado assim, mas é uma boa analogia. Sim, diz-se que em S. Miguel ou nos Açores há quatro estações num só dia. E, de facto, atravessas a ilha e ora está sol, ora está nublado, ou não vês um palmo à frente. E o festival propõe essa montanha-russa também.
Há isso tudo neste festival, da Tanzânia ao norte de Inglaterra.
Sim, porque apesar de tudo, a dimensão da ilha, e a ilha e as suas gentes marcam muito o que é a identidade do festival. O Tremor dialoga diretamente com as manifestações culturais e com as tradições da gastronomia, as danças, as músicas do lugar. Está tudo à mão de semear. Ou seja, a ilha é grande, mas a ilha também é acessível e permite, com rodas, estares num momento à beira-mar, noutra momento estás na montanha, noutra momento estás numa floresta, noutro estás numa piscina de água quente, noutro estás na cidade. É possível criar esse tipo de puzzles, de experiências, e brincar exatamente com essa ideia de desafio, de dinâmica, de contraste. Ora é uma coisa monumental, ora é uma coisa natural. Ora estás num espaço muito pequeno, ora estás num espaço muito grande. E nós sabemos que isso contribui para uma certa hipnose, um certo fascínio, uma certa ansiedade tipo: "Ai, o que é que é agora? O que é que vem a seguir? Agora para onde vão nos mandar? Agora qual é que é a surpresa? Agora que banda é que nos vai aparecer à frente?" Esta é a frescura do que caracteriza esta experiência: permites-te ir, confiares, e estares à descoberta. A ilha também vai falar, as pessoas do lugar também vão falar, também vão participar, também se vão impor.
O Tremor é um festival muito sensorial. É um festival que se ouve, que se vê e até que se saboreia. É um festival de todos os sentidos.
Sim, um dos meus colegas disse assim há alguns anos, que a ilha é o principal cabeça-de-cartaz do Tremor. E como ilha que é fantástica, São Miguel, ela é inebriante, é hipnotizante, é fascinante, é linda. Tira-te o chão, surpreende, frustra-te também.
É uma aventura, não é? É um festival muito expedicionário.
É uma boa descrição. É uma expedição à ilha de São Miguel, aos confins da cultura açoriana, em contacto com as manifestações artísticas do mundo.
Quais são os vossos critérios de seleção dos artistas? Vocês têm realmente uma panóplia muito eclética.
O festival tem, antes de tudo, uma missão que é estimular a música dos Açores e o que se faz ali. Depois, quer também participar nas discussões que marcam a atualidade e que fazem o mundo e que também são conversas que acontecem nos Açores. E tem como valor central a diversidade e, portanto, interessa-nos esta aventura no meio do Atlântico, um lugar onde possamos ver o mundo e a diversidade de manifestações que acontecem na música agora. Somos cinco pessoas a programar o festival. Há outros valores inerentes. Por exemplo, preocupa-nos sempre que os cartazes sejam representativos de diversidade, de que haja igualdade, paridade de género, que haja um equilíbrio entre artistas homens, mulheres, que haja representatividade trans, que possamos ter artistas de geografias diferentes que criem, que falem também sobre assuntos que sejam prementes, que sejam questões de identidade, questões ligadas à ecologia, artistas que estão de alguma maneira a desafiar de determinadas formas ou a levá-las à frente ou a mostrar alguma coisa. O Tremor tem uma missão específica e, portanto, programá-lo é responder a essa missão e é desafiar depois os circuitos e o tipo de experiência que o festival propõe ao público. Então, acho que é isso que serve de critério para escolhermos o programa, que, claro, que depois depende do que é que ouvimos, do que é que vimos, ou do que é que nos chegou, do que é que nos foi enviado, do que é que nós fomos descobrindo ao longo do ano. Somos cinco pessoas, somos melómanos, alguns de nós são agentes de artistas, têm labels, rádios comunitárias. Temos um prazer muito grande em sermos, antes de tudo, também, espectadores e melómanos e ouvir música em casa, em todas as horas do dia. Portanto, isso faz parte das nossas vidas, é um prazer, um gosto e um amor. O festival tem uma caixa de e-mail, tem canais e as pessoas vão-se apresentando, e que nós partilhamos uns com os outros e dizemos: "O que é isto?". “Isso é incrível”.
Todas as edições são diferentes. Qual é a diferença que esta edição tem face às outras?
Acho que há pequenos regressos que já tiveram importância noutra altura e que agora terão outra. Mas, por exemplo, há uma banda açoriana que são os Buried by Lava, que são uma banda de metal do Nordeste. Eles próprios organizam um festival que é o Lava Fest e que vão fazer parte do cartaz. E esse princípio também nos fez pensar num projeto comunitário participativo que vamos desenvolvendo ao longo dos anos, que se chama Som SIM Zero. Com a Onda Amarela de Guimarães e utentes da Associação de Surdos de São Miguel, que este ano trabalham com músicos de heavy metal dos Açores, que nos anos 90, anos 2000 teve uma cena metal, heavy, black, death, etc. De repente, todo um projeto comunitário participativo é à volta do metal. Vamos ter uma rádio, que é uma colaboração com a rádio Vaivém, que é uma rádio comunitária online de Ponta Delgada, e que isso vai criar um espaço. Portanto, é uma rádio ao vivo, em que não só convocamos e convidamos artistas a criarem conteúdo para essa rádio, desde DJ sets, programas de rádio, conversas, captações de som, enfim, todos os formatos da imaginação. Vai constar como uma espécie de lugar para estar. Era uma coisa que nós sentíamos falta durante o dia e curiosamente, isso também é uma coisa nova, esse lugar para estar, o centro dessa rádio é um espaço que se chama Rubro. E o Rubro é o novo espaço do Festival Tremor. Portanto, vamos inaugurar um espaço no centro de Ponta Delgada, e aproveitamos o festival e a boleia do festival para inaugurá-lo, que é um espaço, uma antiga garagem/armazém de quatrocentos metros quadrados, lindo, em pleno centro de Ponta Delgada, que será o centro da nossa missão, mas que também será um espaço para concertos, residências artísticas, exposições e coworking. De repente, o Tremor ganha em 2026 uma casa depois de treze anos [de existência]. Ponta Delgada, os Açores e Portugal, se quisermos, também ganham um novo espaço cultural.
