Tremor, o festival em que "a ilha" de São Miguel "é o cabeça-de-cartaz"

Ana Lua Caiano figura num programa que vai muito além da música. Entrevista ao diretor artístico António Pedro Lopes.

O festival interdisciplinar Tremor começa nesta terça-feira e termina no sábado, na ilha de São Miguel, em Ponta Delgada e seus imensos arrabaldes, com um programa cultural transbordante, que não cabe apenas nos conceitos que temos de arte.

A programação musical do Tremor é tão eclética quanto o próprio evento micaelense, propondo desde a eletro-étnica portuguesa Ana Lua Caiano à cantora experimental inglesa Keeley Forsyth, dos futuristas congolenses Fulu Miziki aos portuenses José Pinhal Post-Mortem Experience. O resto é quase tudo, ou muito, entre experiências e exposições, caminhadas e conversas.

Para o diretor artístico do festival, António Pedro Lopes, o Tremor “é um passaporte de 5 dias para interagir com as comunidades locais e com a maravilha que é aquele lugar. É uma ilha que se torna um cabeça-de-cartaz e um palco para 60 artistas do mundo inteiro e que inclui várias ativações na paisagem, em casas das pessoas, de mãos dadas com as comunidades. Portanto, o Tremor é um convite a um mergulho na cultura e nas artes. É uma forma de ver o mundo, mas também de perceber que mundo é que está ali. E são os Açores, é uma maravilha natural, mas é uma maravilha cultural também. É um lugar muito rico em tradições, em bom comer, em paisagens, em experiências que são imersivas que têm que se sentir de corpo inteiro. É um Portugal que deu certo, que felizmente ainda mantém estas características de preservação e, como tal, precisa de continuar a ser cuidado. O Tremor ajuda a ativar espaços, vilas e cidades e a contar a narrativa de muitas das comunidades que estão ali e que são muito criativas, originais, resistentes também. Acho que urge contar uma pouca a história porque também fala de esperança, de comunidade e fala de persistirmos e de acreditarmos na beleza de estarmos juntos e na beleza da arte e da música e que quando o mundo parece estar a cair, ali no nosso entorno juntarmo-nos à volta de uma prática, de uma experiência, de uma situação, em que podemos nos sentir mais fortes e mais críticos e mais felizes”.

António Pedro Lopes

O Tremor procura a diversidade mas não a massificação de gente. “Como o festival tem uma dimensão de familiaridade, ou seja, é um festival para 1500 pessoas por dia, multiplicado por cinco dias, as pessoas começam a reconhecer-se. Elas apoiam-se. Como o festival tem uma dimensão de surpresa, as pessoas dão boleias umas às outras, vêem-se sentadas à mesa, encontram-se dentro de águas quentes.  Ou seja, [o festival] é pequeno e humano o suficiente para as pessoas criarem relações e criarem uma sensação de lugar feliz.  Eu acho que os artistas sentem isso também. Cria-se uma espécie de efeito de comunidade mesmo que seja efémera”. 

“Em vez de criarmos, por exemplo, temas no festival, nós deixamos que os artistas falem o que têm a falar, que se posicionem, criem esses posicionamentos”, encoraja António Pedro Lopes, para quem há no Tremor “um desafiar constante, uma espécie de jogo de caça ao tesouro, um convite a ser-se aberto, poroso, curioso. Muitos dos artistas que vêm ao Festival de Tremor, a maior parte do público não conhece ou conhece pouco. Portanto, o grande convite também é conhecer”. O saxofonista alemão Julius Gabriel, com um jazz muito ritmado, ou o artista queniano Kabeaushé, com uma pop de sucção global, são dois nomes dos muitos nomes do cartaz desconhecidos e que podem surpreender a tribo festivaleira. 

“Acho que o nosso maior interesse é essa coexistência da diversidade. Num mundo tão atomizado, onde depois de uma pandemia, com a consequência de cada um estar fechado no seu clã e no seu grupo, acreditamos em criar espaços de encontro e de conversa, mas também em criar espaços de choque, em última instância.  Porque para nós é importante que esse choque aconteça, que estejamos em contato não só com a palavra diversidade, como também no reconhecimento do outro, diferente de nós”, afirma António Pedro Lopes, sobre um festival que é uma esponja cultural que inclui gastronomia, artes performativas e residências criativas.

António Pedro Lopes

Diversidade e coerência conciliam-se num festival que parece um radar de longo alcance e com uma boa máquina de triagem. “Nós somos cinco pessoas: eu, o Márcio Laranjeira, o Joaquim Durães (que vem da Lovers & Lollypops), e o Luís Banrezes (que tem um projeto, a Associação Cultural Silêncio Sonoro). E temos uma curadora convidada que é a Marina Rei, uma curadora que trabalha entre as artes visuais e a música, que é muito sensível às questões de género, de migração, das crises sociais, e é muito ligada ao clubbing e a manifestações musicais mais urbanas. Nós falamos várias vezes numa espécie de assembleia. Cada um traz 100 propostas… logo são 500.  E depois há propostas de pessoas que nos enviam e-mails e que dizem que querem tocar no festival e que nós analisamos. Há espaços que são muito específicos, desde o Coliseu, a igrejas, paisagens, teatros, lojas, mercados, portos de pescas.  São lugares muito especiais que têm uma marca muito forte e que importam. Há esse trabalho de match entre essa ligação ao mundo e essa ligação também ao lugar”. 

Podem ver o programa completo do Tremor na página oficial, clicando neste link.