Três em cada dez portugueses não recebem cuidados de saúde a tempo

A população vulnerável é constituída pelas pessoas mais velhas, com mais necessidades de saúde, mas que acabam por reportar as maiores dificuldades de acesso.

Três em cada dez portugueses não recebem cuidados de saúde a tempo. É o que revela o estudo “Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, Acesso aos Cuidados e Uma Só Saúde”.

“Por muitos esforços que estejam a ser feitos, na população não se sente uma melhoria significativa no acesso aos serviços médicos. Isto significa que mais esforços precisam de ser feitos. É importante perceber, no terreno, como é que a assistência médica pode responder a essas necessidades”, adianta Tiago Correia, coordenador do estudo.

Neste estudo, Tiago Correia destaca três perfis: “A população vulnerável é constituída pelas pessoas mais velhas, com mais necessidades de saúde, mas que acabam por reportar as maiores dificuldades de acesso. Depois temos o grupo dos episódicos, que são pessoas mais novas, mais saudáveis e que não utilizam tantos cuidados médicos. Por fim, encontramos os integrados, o grupo da população ativa adulta, que tem níveis intermédios de saúde, mas que tem uma elevada continuidade no acompanhamento clínico, porque tem outros recursos financeiros e outras soluções que os mais velhos não têm.”

Tiago Correia explica que esta análise sublinha a necessidade de garantir respostas diferentes de saúde conforme o nível geográfico e etário: “As necessidades dos concelhos e regiões do país mais envelhecidos são completamente diferentes das necessidades de concelhos e de regiões onde há uma maior percentagem de população jovem. Nessa medida, a resposta dos cuidados de saúde também tem de ser adaptada.”

Pessoas descontentes estão mais vulneráveis a discursos extremistas

Na dimensão política, Tiago Correia considera que a falta de respostas sentida pelas pessoas é um problema: “Este estudo recorda-nos que as pessoas que não têm respostas nos serviços públicos estão descontentes e são mais facilmente permeáveis aos extremismos e populismos.

O investigador considera de extrema importância ouvir as pessoas e reconhecer que o que sentem "tem uma validade muito grande para os decisores políticos".

Tiago Correia considera que esta investigação é uma chamada de atenção para os políticos: "Devemos alertar os decisores políticos para a necessidade de criar uma consciencialização coletiva no que diz respeito à saúde. Existem realidades, oportunidades e dificuldades diferentes e ninguém pode ficar para trás. A construção dos sistemas de saúde tem na sua base a ideia da igualdade, de que somos todos parte das instituições e que todos temos direito às mesmas oportunidades."

Cuidadores informais desconhecem apoios

Tiago Correia destaca ainda a questão dos cuidadores informais, que muitas vezes não conhecem os seus direitos: “Quase 15% das pessoas são cuidadores informais e quase um terço desempenham esse papel de forma constante. Apesar de o Estatuto do Cuidador Informal ter sido aprovado recentemente, quase metade dos inquiridos dizem que esse apoio não tem um impacto significativo na saúde mental, no descanso, nem nas condições financeiras. Isto é um sinal de alerta para perceber até que ponto estas pessoas têm conhecimento dos seus direitos, ou se é necessário criar melhores mecanismos de implementação deste estatuto, ou até mesmo reforçá-lo."

O estudo “Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, Acesso aos Cuidados e Uma Só Saúde” é promovido pela Ordem dos Médicos e executado pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa.