Três Tristes Tigres: auto da (b)Arca do Inferno
Entrevista a Ana Deus e a Alexandre Soares, sobre o novo álbum.
O Mar Mediterrâneo tem sido uma vala comum de migrantes africanos. Já morreram mais de 28 mil pessoas nos últimos dez anos no antigo “mare nostrum” do Império Romano, quase vinte vezes mais que o propalado naufrágio do Titanic em 1912 no Atlântico Norte (1500 pessoas perderam a vida). Essas 28 mil pessoas nunca caberiam no Titanic, nem sequer na Arca de Noé. Nem Noé lhes poderia valer de grande coisa. Não é. A humanidade naufraga massivamente ao pé de nós e o iceberg fatal tem sido a frieza e o egoísmo atroz de quem lhes vira costas.
Os Três Tristes Tigres desamarraram a barca e o seu espírito ativista para um álbum recém-lançado, “Arca”, sobre as tormentas dos miseráveis que fogem da fome, no Mediterrâneo, no Atlântico – quem sabe na selva de Darién (se forem latino-americanos, o fatalismo é o mesmo) -, num musical abroad way e a fundo, e não da Broadway. “Somos a ruga no mapa, o vento fora do rumo”, canta Ana Deus em ‘Exodus’, num disco de navegação musical pela ‘Rota da sede’, tema em que palavras destas ecoam: “ao mar, ao sol, ao vento, à vez, mas sobretudo ao relento”.
O ativismo dos Três Tristes Tigres está mais evidente do que nunca, clamando-se pela paz em ‘Guerra’ - “Aos crimes chamam bravura”, lamenta Ana Deus – e pela ecologia em ‘Animália’ – “Não há bicho ou vegetal que a nafta não mate”. Desamarrado o ativismo, a música dos Três Tristes Tigres volta a desarmar almas e ouvidos. Oxalá desarmasse a artilharia militar e política dos dias de hoje.
“Arca” é razão de sobra para se entrevistar dois dos três criadores dos Três Tristes Tigres: a cantora Ana Deus e o instrumentista Alexandre Soares.
“Arca” parece ser o vosso álbum mais interventivo de sempre. Esse espírito interventivo foi semeado por quem? Pela letrista Regina Guimarães? Ou foram vocês que desafiaram a Regina?
Ana Deus - Acho que partiu de ambas as partes, ou de todas as partes, porque as conversas andam à volta da preocupação em relação àquilo que acontece e à discrepância entre os muito ricos e a pobreza e a precariedade das gerações mais novas e de toda a gente. Portanto, as conversas andavam à volta disso e o assunto do disco acabou por parar aí. Nós sempre tivemos a preocupação de falar das fragilidades, mas este sim está mais exposto, nota-se mais do que é que estamos a falar, não está tão sujeito a interpretações mais subjetivas, mais isto ou mais aquilo, portanto acho que se é mais declarado.
Há também aqui um trabalho tremendo, já habitual em ti, Alexandre, de sonoplastia. Trabalhas muito um cenário de fundo com muitos efeitos sonoros à volta das próprias canções. Isto vem da influência do vosso trabalho para o teatro?
Alexandre Soares - Eu tenho uma ligação muito forte aos materiais que uso e aos poucos fui criando. Já tenho um set em que eu posso desenhar e fazer os meus próprios sons. Eu uso sintetizadores modelares que têm arquitetura aberta e, portanto, têm toda essa zona muito livre para eu poder pegar e procurar os sons que me dizem alguma coisa hoje. Criar os próprios sons. Não ando à procura de os encontrar feitos em nenhum lado e então acabo por ter essa sorte de ter os meus materiais aqui muito à mão e de poder explorar muito. E depois há uma escolha.
Há aqui várias temáticas que vocês levantam: a mortandade dos imigrantes, a poluição, as alterações climáticas, a extinção da vida animal e a guerra. É um olhar mais global. Tiveram vontade de se debruçar sobre o que se passa cá dentro?
AD - Nós temos um pequeno atraso, mas a coisa está cada vez mais acelerada: o que se passa cá dentro é contaminado pelo que se passa lá fora. O que falamos na “Arca” é do todo. Nós fazemos parte desse todo. Ninguém está isolado, nós não estamos isolados.
A capa tem o trabalho plástico da Hilda Reis e o design gráfico da Catarina Coelho. Qual é o conceito da capa e qual o motivo do título do álbum, “Arca”?
AD - Bem, a “Arca” é onde nós estamos todos enfiados. Estamos todos no mesmo sítio. Apesar de não parecer, com a invenção dos bunkers ou das idas para a estratosfera, nós estamos todos na mesma arca que é o planeta. A imagem da capa feita pela Hilda Reis é uma montagem, uma espécie de colagem. De todas as imagens que ela nos fez, ela fez várias, escolhemos a que tinha mais a ver com o sentido do disco, com as pessoas todas unidas por fios e a fazer as próprias letras. E no final vês alguém a tentar sair ou a tentar cair. Na contracapa, há alguém que é agarrado. Há duas imagens pequeninas em que há alguém a ser agarrado por outro. Portanto, há essa necessidade de nos salvarmos uns aos outros. Ou esse desejo. É para isso que servem as canções também. Eu acho que estas canções também têm muito mais de desejo do que de retrato negro.
Vocês fizeram o vosso álbum mais interventivo de sempre, os Mão Morta também e a própria Lena D’ Água está mais ativista. Temos ainda a Garota Não, que participa curiosamente no vosso disco, a Capicua, o Xullaji, os Cara d’ Espelho, a Luta Livre, o Carlão, que também continua muito ativista, e até há fado de intervenção na voz da Aldina Duarte (com as letras de Capicua). A música portuguesa está cada vez mais interventiva?
AD - Pelos vistos, sim, eu já tinha pensado nisso. O caso dos Mão Morta é curioso, porque sempre foram contestatários nas letras do Adolfo. Mas só agora é que houve pessoas que perceberam o que é que eles queriam dizer e algumas ficaram bastante aborrecidas com a banda pelo facto de acharem que eles... eram de esquerda. De repente, foram atacados porque nunca tinham entendido muito bem as letras que estavam ali. No nosso caso, não sei, vamos ver o que é vai acontecer, mas talvez se perceba melhor com este disco quem é que nós somos.
Vocês gostavam de ter mais bandas sonoras de filmes do que as que vos encomendam, sobretudo a ti, Alexandre? Sinto que o pessoal do cinema anda um bocado distraído convosco.
AS - Nos anos 90, estive mais ligado, principalmente aos filmes do João Caniço. Ainda fiz quatro bandas sonoras com ele, que gostei imenso de fazer. Depois, fiz também uma banda sonora com uma alemã, [Maria Hengge] e depois fiz um trabalho na Áustria e tal e depois desliguei um bocado. Coisas de teatro têm aparecido, a Ana está mais ligada à poesia e ao texto. O cinema não tem aparecido. Olha, digam qualquer coisa. Eu gosto de fazer música para cinema.
Eu sinto muito esse potencial cinematográfico na forma como fazes música, tal como sinto também no Tó Trips, com os trabalhos que vai fazendo. Se eu fosse cineasta, era um de vocês que chamava. Eu tinha que fazer esta pergunta porque sinto alguma injustiça.
AD – Fazes bem. Já agora, fica a dica: no dia 4, Teatro Municipal, em Vila do Conde, vai haver um espetáculo onde o Alexandre e o Tó Trips estarão a colaborar os dois. E eu também, com o Pedro Lamares, será uma residência que vamos fazer em Vila de Conde à volta de textos inspirados no Alexandre O’ Neill [a partir do poema colectivo “Ó Portugal, se fosses só três sílabas”, às 22h00].
Que Três Tristes Tigres vamos ter em palco?
AS - Ao vivo temos as colaborações que temos tido, que já tivemos para o desenvolvimento da recriação do outro disco [“Mínima Luz”, de 2020]. A Eleonor Picas, que toca a harpa no disco, fará partes de guitarra. Nós vamos fazer uma recriação deste disco ao vivo, como já fizemos do outro. Como temos mais elementos, faremos a coisa de uma forma diferente, para o espetáculo em si também ser uma coisa única. Não é só chegarmos e tocarmos o disco como ele foi feito, que foi grande parte feito entre mim e a Ana e eu toquei a grande parte dos instrumentos. Quando entram os outros, o Fred na bateria também, o Miguel Ferreira nas teclas e o Rui Martelo no baixo, fazemos um desdobramento. Há um rearranjo e há também uma preparação para podermos fazer aquilo que também no disco acontece, que é ter momentos de improvisação e de experimentação, sem controle de tempo, para improvisar, para os músicos terem a liberdade de se exprimirem, afim de darmos coisas que não estão no disco também. Na Culturgest [em Lisboa, a 18 de dezembro], vamos ter a Clara Saleiro na flauta. A Clara é uma excelente flautista, ligada à música contemporânea, normalmente a grupos de música contemporânea e que no tema ‘Água’ tocou. Além da Clara e da Cátia [Garota Não], tivemos o Pedro Oliveira [baterista dos Clã e dos peixe:avião] também.
Vai haver algum trabalho mais cenográfico?
AD - Eu gosto de vídeos, gosto de fazer imagens. Portanto vou esforçar-me para fazer alguma coisa decente para trás de nós, para distrair as pessoas. Não, não é para distrair. É um complemento, é uma interpretação do tema. Não é uma ilustração, é uma interpretação. E eu gosto e como gosto, faço. Olha, eu faço aquilo que gosto na minha banda.
