U2 condenam "ações imorais" de Netanyahu

Quatro comunicados consertados foram publicados, em nome de cada um dos membros da banda. O mais duro texto com Netanyahu é o de The Edge.

Pela primeira vez, os irlandeses U2 tomam uma posição consertada de condenação ao massacre militar continuado de Israel contra a Faixa de Gaza e a sua população, através de quatro comunicados individuais publicados no site da banda de Dublin e no Instagram. Bono e The Edge já haviam manifestado posições críticas em relação às decisões do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no endurecimento dos ataques militares na vizinha Palestina.

Dos quatro textos publicados, o mais longo é o de Bono, que procura conciliar a sua visão crítica do ataque terrorista do Hamas a 7 de outubro no festival de eletrónica israelita Nova – “a violação, assassinato e rapto de israelitas no festival de música Nova foram malignos” – com a condenação a Netanyahu, onde se alonga. “Será que o mundo aprendeu com pensamento tão tão radical da extrema direita? Sabemos onde isto vai acabar, na guerra mundial, no milenarianismo”. E questiona: “estão os israelitas preparados para deixar Benjamin Netanyahu fazer a Israel o que os seus inimigos falharam nos últimos 77 anos”.

Bono lembra outra tragédia humanitária: “as imagens de crianças esfomeadas em Gaza leva-me de volta a uma viagem de trabalho a uma estação alimentar na Etiópia, que fiz com a minha mulher Ali, que fiz há 40 anos, no mês seguinte à participação dos U2 no Live Aid”.   

Autor da música dos U2 de 1983, ‘Sunday, Bloody Sunday’, que lembra o massacre militar britânico contra a população católica revoltosa na Irlanda do Norte, o cantor de Dublin diz compreender que “o Hamas não é o povo palestiniano... Um povo que sofreu e continua a sofrer durante décadas a marginalização, a opressão, a ocupação e o roubo sistemático de terras que lhe pertencem por direito. Dada a nossa própria experiência histórica de opressão e ocupação, não é de admirar que tantos aqui na Irlanda tenham lutado durante décadas por justiça para o povo palestiniano”. Bono adianta ainda que os U2 vão fazer donativos para a entidade humanitária britânica Medical Aid for Palestinians.

O guitarrista The Edge inspira-se também no passado oprimido da Irlanda face a vizinho poderoso e imperial do Reino Unido: “Sabemos, por experiência própria na Irlanda, que a paz não se constrói através do domínio. A paz constrói-se quando as pessoas se sentam com os seus adversários, quando reconhecem a igual dignidade de todos, mesmo daqueles que antes temiam ou desprezavam”. E lança três questões para Netanyahu. A primeira: “acredita mesmo que tamanha devastação - infligida de forma tão intencional e implacável à população civil - pode acontecer sem causar vergonha geracional aos responsáveis?”. A segunda questão: “Se o objetivo final é, como sugere a plataforma do Likud [o partido de Netanyahu], a remoção dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia para abrir caminho a um "Grande Israel", então isso não é paz, é expropriação; é a limpeza étnica e, segundo muitos juristas, o genocídio colonial”. Terceira e última questão ao Primeiro-Ministro de Israel: “Se rejeita a solução de dois Estados - como o seu governo faz agora abertamente -, qual é a sua visão política? Simplesmente conflito perpétuo? Um futuro de muros, bloqueios e ocupação militar? Um estado de desigualdade permanente?”. The Edge classifica a situação geo-política como um Estado de Apartheid, em alusão ao antigo regime racialista e racista que vigorou na África do Sul até há mais de três décadas. 

O baixista Adam Clayton assina o texto mais curto. Mas a crítica ao Estado de Israel é similar. “Se Israel decidir colonizar a Faixa de Gaza, isso anulará para sempre qualquer possibilidade de paz duradoura ou de solução para as hostilidades”. O baterista Larry Mullen Jr. lança o repto: “o poder de mudar esta obscenidade está nas mãos de Israel. Sem dúvida que apoio o direito de Israel à existência e também acredito que os palestinianos merecem o mesmo direito e um Estado próprio”. E alarga o repto à comunidade internacional: “o silêncio não serve nenhum de nós”.

Na Irlanda, tem havido enorme solidariedade para com o povo palestiniano. É comum ver em janelas de casas de irlandeses bandeiras da Palestina, tal como a que se vê no palco da banda de Dublin, Fontaines D.C. O coletivo de hip hop Kneecap, de Belfast, tem sido boicotado ao vivo, em face da sua atitude crítica contra os ataques de Israel à Palestina.