Ucrânia denuncia ataque russo perto de depósito de combustível nuclear

Não há registo de fuga radioativa.

A Ucrânia acusou hoje a Rússia de ter atingido com um drone as imediações de um depósito de combustível nuclear usado na zona de exclusão da central de Chernobil, sem registo de fuga radioativa.

O ataque ocorreu pelas 02:10 locais (00:10 em Lisboa) e provocou um incêndio nas instalações do Centro de Armazenamento Centralizado de Combustível Nuclear Irradiado (CSSF, na sigla em inglês), anunciou a operadora estatal Energoatom.

O drone atingiu um edifício de receção de contentores e causou graves danos materiais, referiu o organismo responsável pelas centrais nucleares ucranianas, citado pela agência de notícias espanhola Europa Press (EP).

“O foco do incêndio, com uma superfície de 40 metros quadrados, foi rapidamente localizado e completamente extinto. Não há feridos entre o pessoal”, disse a Energoatom.

“A situação radiológica na instalação central de armazenamento de combustível nuclear mantém-se dentro dos limites normais”, explicou a empresa ucraniana.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, qualificou o ataque russo como “extremamente vil” e precisou que foi usado um drone “Shahed”, de fabrico iraniano.

“O Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Ministério da Energia e todos os nossos serviços já estão a trabalhar para garantir que cada um dos parceiros saiba o que aconteceu”, disse numa mensagem citada pela agência noticiosa Ukrinform.

Zelensky apelou à comunidade internacional para que “tome novas medidas concretas que obriguem o agressor a sentir as consequências da sua guerra terrorista”, acrescentou a agência ucraniana.

A Ucrânia informou de imediato a Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), cuja equipa em Chernobil “visitará em breve as instalações para inspecionar o impacto”.

Numa declaração divulgada pela AIEA nas redes sociais, o diretor-geral da agência especializada da ONU, Rafael Mariano Grossi, considerou o incidente “profundamente preocupante”.

O ataque “ocorreu numa instalação que contém grandes quantidades de material nuclear, armazenado a poucos metros do edifício atacado”, disse Grossi.

“Os ataques contra instalações nucleares são totalmente inaceitáveis e constituem uma violação direta dos princípios fundamentais de segurança nuclear, em particular os sete pilares indispensáveis para a segurança nuclear durante um conflito militar”, acrescentou.

A central de Chernobil está desativada desde o acidente ali ocorrido em 26 de abril de 1986, quando a Ucrânia integrava a então União Soviética.

O número de vítimas do acidente permanece desconhecido, com uma contagem oficial de 31 mortos divulgada na altura, mas as estimativas variam entre quatro mil e centenas de milhares, devido a doenças contraídas por exposição à radiação.

O reator que esteve na origem do acidente foi coberto por um sarcófago construído em pouco tempo, cuja segurança tem sido posta em causa, nomeadamente devido à guerra iniciada pela Rússia em fevereiro de 2022.

A Ucrânia, que se tornou independente em 1991, pouco antes da dissolução do bloco político controlado pela Rússia, tem atualmente quatro centrais de energia com um total de 15 reatores nucleares.

Uma delas, a de Zaporijia (sul), a maior da Europa, está ocupada por tropas russas desde a invasão de 2022.