Uma estrela negra ainda persegue grungers e ex-grungers
Mark Lanegan é mais uma figura da costa Pacífico a deixar-nos demasiado cedo.
Continua fatalista o destino dos ícones do grunge que, um a um, vão desaparecendo cedo de mais, como que perseguidos por um anjo negro que ainda não acalmou. Mark Lanegan foi mais uma alma desassossegada oriunda da costa do Pacífico que partiu com estrondo. Esta é uma perda tão pesada quanto foi a sua vida.
Aqui vai uma lista negra a que só Mark Arm (dos Mudhoney) e Eddie Vedder (dos Pearl Jam) escapam. Os outros grandes ligados ao grunge já nos deixaram.
Andrew Wood (1966-1990), dos Mother Love Bone
Quando muitos de nós ainda estavam a descobrir o que se estava a passar em Seattle, havia já uma aura negra in memoriam de tributo a um dos grandes da cidade, o precocemente desaparecido Andrew Wood, dos Mother Love Bone. O grupo de homenagem Temple of the Dog concentrou alguns dos talentos emergentes da cena - o amigo Chris Cornell e um contingente de músicos dos Soundgarden e dessa banda novinha em folha chamada Pearl Jam. Foram os amigos e depois o público que deram um misticismo a Andrew Wood que foi sempre póstumo. Quando morreu na sequência de uma overdose de heroína, o álbum único dos Mother Love Bone, "Apple", ainda não tinha sido editado.
Kurt Cobain (1967-1994), dos Nirvana
Com o seu power trio, foi o rosto principal do boom mediático do grunge em 1991-92. Sinal daqueles tempos, os Nirvana começaram a vender mais que Michael Jackson, com aquela avalanche de estremecimentos que era o álbum "Nevermind". Mas há um desconforto de Cobain com o sucesso a larga escala. O que era uma paixão passou a um emprego de grande pressão. A banda não se estava a divertir, muito menos Kurt Cobain. As coisas descambam em 1994 na única digressão que os traz a Portugal e ao Pavilhão Dramático de Cascais. Um mês depois de uma tentativa de suicídio falhada em Roma, Kurt Cobain é encontrado morto em casa, a 8 de Abril de 1994, alvo de uma bala de revolver.
Layne Staley (1967-2002), dos Alice in Chains
Por trás dos óculos escuros e de uma nuvem enigmática, Layne Staley foi uma das vozes mais sombrias da leva de grunge saída de Seattle no início dos anos 90. Muito cedo, afunda-se numa espiral auto-destrutiva das piores drogas (heroína e crack). A sua apatia e estado de saúde frágil na gravação do terceiro álbum dos Alice in Chains (de título homónimo) levam a que sua voz se tornasse um mero instrumento usado pelo compositor e guitarrista Jerry Cantrell. Em Abril de 2002, o seu corpo foi encontrado morto no seu apartamento, com sinais já avançados de decomposição. Layne Staley morreu com 34 anos de idade, vítima de um cocktail de heroína com cocaína, o tal speedball.
Scott Weiland (1967-2015), dos Stone Temple Pilots e dos Velvet Revolver
Já com o comboio do grunge a encarrilar há muito, os Stone Temple Pilots conseguiram apanhar a locomotiva e assinalar o seu nome, com o álbum de estreia, "Core". Na frente de palco, estava Scott Weiland. Foi ele que atraiu as luzes, mas a deriva para as sombras foi sempre maior. De 1995 a 2015, a sua vida foi um massacre de internamentos em clínicas de reabilitação. Sem fim à vista, veio o outro fim que se temia, a 3 de dezembro de 2015, quando Scott Weiland foi encontrado morto no autocarro de digressão, resultado de uma overdose de cocaína, drogas sintéticas e álcool.
Chris Cornell (1964-2017), dos Soundgarden
Chris Cornell foi tendo vários projectos, desde os Temple of the Dog aos mais recentes Audioslave, mas nada lhe deu mais projeção que os Soundgarden. Com um som marcadamente vertiginoso e com uma voz mais poderosa como a de Cornell, os Soundgarden já faziam grunge antes de este explodir pelo mundo fora. Mais tarde, em 1994, parte substancial do mundo cantarolou o tema mais famoso, a balada rock 'Black Hole Sun'. Suicídio por enforcamento foi a causa declarada da morte de Chris Cornell, que tinha apenas 52 anos de idade.
Mark Lanegan (1964-2022), dos Screaming Trees e dos Gutter Twins
A voz carismática e cavernosa de Mark Lanegan agigantou dramaticamente coisas tão diferentes como a banda grunger onde militou, os Screaming Trees, a dupla Gutter Twins (com Greg Dulli dos Afghan Whigs) ou projetos onde encaixou como convidado, como os Unkle ou os nacionais Dead Combo. Os Soulsavers, a sua parceria com a escocesa (ex-Belle and Sebastian) Isobel Campbell ou, ainda mais importante, a sua atividade a solo mostraram um cantor tão desdobrável como Mike Patton, mas com uma amargura profunda de alma em cada verso que cantava. Desconhecem-se ainda as causas da sua morte, na Irlanda, onde vivia.
Kristen Pfaff das Hole, John Baker Saunders dos Mad Season ou Mike Starr dos Alice in Chains foram outros músicos ligados ao grunge que também morreram precocemente.
