Vêm aí 31 dias de Atlàntida Film Festival

A atriz Marion Cotillard interpreta a escritora Carole Achache, no documentário invulgar "Little Girl Blue".

Entre os días 7 de novembro e 7 de dezembro, decorre mais uma edição do Atlàntida Film Festival na plataforma televisiva da Filmin, em Portugal. Com uma programação de 15 longas-metragens e curtas-metragens, o festival capta algumas da produção cinematográfica mais pertinente da Europa e até mesmo da Ásia.  

Para melhor se compreender a essência do Atlàntida Film Festival e o que norteia a edição deste ano, entrevistámos o director editorial e programador Jaume Ripoll. Para Ripoll, é importante que haja festivais como este, “porque se não existissem seria muito difícil que estas obras chegassem a um grande público. Penso que para mim o grande valor [do Atlàntida Film Festival] é colocar à disposição dos cidadãos obras que talvez nunca tivessem conhecido”. O programador maiorquino dá o seu exemplo pessoal: “sou uma pessoa de 47 anos e cresci em lojas de aluguer de vídeo, numa cidade onde não existiam cinematecas. E, felizmente, graças às lojas de aluguer, pude ver os filmes. Portanto, em casa em VHS no formato 4/3 e no nosso caso em Espanha, também dobrado para espanhol, sem sequer termos o luxo de ver a versão original. Assim penso que nesse sentido temos de valorizar mais, celebrar mais festivais como o Atlàntida e como tantos outros que se atrevem a fazer esta aventura online". 

O documentário do Mark Cousins sobre a pintora escocesa Wilhelmina Barns-Graham, “Um Súbito Vislumbre de Coisas Mais Profundas”, ou o documentário sobra a escritora Carole Achache, “Little Girl Blue”, são dois dos pontos altos do festival. “Little Girl Blue” tem ainda a força extra da retratada do documentário ser interpretada pela atriz Marion Cotillard, num filme que é realizado pela própria filha da escritora, Mona Achache. “Creio que de alguma forma damos continuidade em Portugal ao que temos vindo a fazer no Atlàntida, nos últimos anos. Passámos há dois anos o documentário da Patricia Highsmith [“Loving Highsmith”, de Eva Vitija-Scheidegger], sobre artistas e romancistas. São os casos [dos documentários] da Mona Achache, sobra a escritora Carole Achache, “Little Girl Blue”, e do Mark Cousins sobre Wilhelmina Barns-Graham. São abordagens muito singulares a figuras muito relevantes e pouco conhecidas da literatura e da pintura. Lembro-me que quando vi o documentário de Mark Cousins este verão, mal tinha visto uma pintura dela. É uma pintora de quem já vi algumas pinturas em Edimburgo, no Museu de Edimburgo, mas é pouco conhecida e penso que é essa a importância do documentário e principalmente do tratamento do documentário. Penso que há algumas chaves para estas duas obras, tanto “Little Girl Blue”, como “Um Súbito Vislumbre de Coisas Mais Profundas, que são obras de cinema sobre literatura e pintura. No caso do “Little Girl Blue”, também há muitas camadas de cinema. Esta ideia é de Mona Achache, a realizadora do filme, que usa Marion Cotillard para, de alguma forma, ressuscitar a figura da mãe. Há algo de extraordinário nisso e que é muito significativo”.

Os filmes da edição deste ano Atlàntida Film Festival estão marcados pelas tensões na Europa. “Sim, infelizmente vivemos um presente tenso. Estamos a conversar um dia e meio antes das eleições norte-americanas, numa altura em que estamos em guerra de facto: a guerra de Israel, ou a situação na Rússia e na Ucrânia, que está por resolver há mais de dois anos. Digamos que o mundo está numa situação de crise, de tensão. Não diria que é a guerra mundial, mas estamos num momento que não se via há meio século, que está a ser vivido em todo o mundo, uma situação de tensão em diferentes zonas. E a Europa não é estranha a isso. Como uma plataforma europeia que somos, estejamos em Lisboa, ou em Barcelona, compreendemos que temos de falar sobre isto. Se tivermos em conta um filme como “A Professora de Literatura”, que fala da realidade da Hungria, de Víctor Orbán, através relação entre a liberdade dos professores e dos alunos, cumpre-se uma das funções do cinema: não a parte demagógica, nem a parte formativa, mas o questionamento. Para mim, a principal diferença entre cultura e entretenimento é que o entretenimento impede que se façam perguntas e a cultura levanta questões. Eu acho que, de alguma forma, é importante que se faça perguntas. Algumas incomodam, claro. Na vida, muitas perguntas incomodam e quase todas não têm uma resposta clara. 

Não há qualquer filme português entre as 20 obras do Atlàntida Film Festival de 2024. “Acreditamos que o cinema português tem [outras] formas de encontrar o seu público. O Atlàntida Film Festival tem de ser um espaço para aqueles que tenham dificuldades em ter visibilidade. Seria fácil para nós termos três, quatro ou cinco filmes portugueses. Mas acreditamos que é mais relevante mostrar filmes europeus, não espanhóis. Aliás, quase não é uma questão de nacionalidade, mas sim uma questão de visibilidade e é possível que seja um erro. Vale a pena apostar num tipo de cinema português mais arriscado, de gente que se estreia, de gente que tem mais dificuldade em chegar aos nossos públicos e, se assim for, então no próximo ano quando fizermos 15 anos será uma edição fantástica em que vamos poder focar-nos não só na edição portuguesa mas também na edição nacional de Espanha e noutras possíveis que possam chegar. Através do Atlàntida descobri muitos filmes portugueses porque a equipa de cinema em Portugal está a enviar-nos filmes que eu não conhecia”, afirma Jaume Ripoll. 

O tipo de festivais como o Atlàntida Film Festival está mais do que consolidado na plataforma Filmin, defende Jaume Ripoll, que antevê a continuidade do seu crescimento. “Penso que ficou algo de significativo durante a pandemia. Houve a necessidade de garantir festivais que já não podiam ser físicos. E depois da pandemia, houve esta ideia que vamos desfazer, de voltar a fazer um festival presencial, como se o que era online fosse uma competição direta com o que era presencial. E isso não é verdade. Porque não se procura um público maior? Porque nos limitamos ao público de uma cidade, quando poderemos chegar a todo o país? Ou podemos alcançar públicos internacionais? Porque nos limitamos a uma sala de 120, 250, 300 pessoas quando podemos chegar às 3.000 ou 8000 ou 50.000 pessoas?”.

Podem consultar a programação do Atlàntida Film Festival 2024 neste link.