Caos é menos visível nas ruas, mas persistem carências e traumas na Venezuela

A Assistência Médica Internacional alerta que o caos provocado pelo duplo sismo de junho é cada vez menos visível nas ruas de La Guaira.

A Assistência Médica Internacional alertou esta segunda feira que o caos provocado pelo duplo sismo de junho é cada vez menos visível nas ruas de La Guaira, o estado mais afetado da Venezuela, mas persistem carências e a fragilidade da população.

"A situação melhora gradualmente, face ao tempo, mas não significativamente face àquilo que se esperaria", disse o coordenador da missão da Assistência Médica Internacional (AMI) na Venezuela.

Daniel Viegas Rocha explicou à Lusa que, "efetivamente, vê-se menos caos, mas vê-se igualmente destruição, pessoas sem lar, em tendas".

"Vê-se e sente-se igualmente a fome. Portanto, a situação não melhorou significativamente. A situação está dispersa. E quando está dispersa, é mais fácil não vermos o caos", disse.

O responsável da AMI frisou que "há mesmo muita vulnerabilidade" entre as crianças e os idosos: "Efetivamente, as dificuldades são notórias nas crianças, no trauma. E neste momento de retoma das aulas, da vida escolar, tem-se notado isso".

Daniel Viegas Rocha explicou ainda que a situação atual é diferente de quando a AMI chegou à Venezuela, duas semanas depois do duplo sismo de junho, quando "havia um caos gerado nas ruas".

"Hoje isso não se vê, mas quanto mais entramos nas comunidades percebemos que a fome e a vulnerabilidade imperam e [essa] é uma preocupação que se deve ter sobre La Guaira, nos próximos meses", disse.

O responsável da organização portuguesa alertou ainda que a ajuda humanitária está a cair, não apenas a internacional, mas também a da própria população, que após o duplo sismo se mobilizou para ajudar os afetados.

"Criaram os centros de recolha de alimentos, de tudo o que era necessário. Isso foi algo feito de imediato pela população venezuelana que é de tirar o chapéu. No entanto, voltamos à normalidade das pessoas", disse.

Daniel Viegas Rocha acrescentou que há "centenas de pessoas a tentar ajudar nos escombros, que já não têm água, nem comida, e que também desistem de vir, porque não têm nem os meios para sobreviver durante um dia sob um calor abrasador".

Daniel Viegas Rocha frisou ainda que é percetível também o efeito da "falta de mediatismo". "As emergências também são feitas com base no mediatismo que lhes é dado e, com outras emergências que existem no mundo, La Guaira acaba por estar esquecida", disse.

O coordenador da AMI recordou que a intervenção da missão na Venezuela foi feita apenas com base em ajudas individuais e empresariais em Portugal, e com o seu próprio fundo de emergência.

Também a AMI prevê deixar a Venezuela a 31 de outubro, devido a limitações orçamentárias, tendo, durante o tempo que permaneceu no país, apostado na capacitação local a venezuelanos para dar continuidade ao trabalho psicossocial e comunitário realizado.

"É importante que estejamos atentos ao mundo, sem esperar que as redes sociais e os meios tradicionais nos deem essa informação. Pesquisemos também. Não estejamos sempre dependentes [apenas] daquilo que surge aos nossos olhos, sem procurar, porque isso não significa que a desgraça, ou a emergência terminou. Ela simplesmente foi apagada dos nossos algoritmos, e ao ser apagada, deixamos de ter sensibilidade sobre ela", concluiu.

O duplo sismo de 24 de junho causou danos graves em infraestruturas, vítimas mortais e feridos em sete estados da Venezuela: Caracas, Miranda, Arágua, Carabobo, Lara, Yaracuy e La Guaira.

Segundo o último balanço atualizado divulgado pelas autoridades, 6.509 pessoas morreram e 226.696 feridos foram assistidos nos hospitais venezuelanos depois dos sismos.

Entre as vítimas mortais, há pelo menos 138 portugueses e lusodescendentes.