"Vitória clara" de Seguro, "melhor percentagem" de Ventura e uma "derrota humilhante" para Marques Mendes

André Azevedo Alves acredita que Seguro vai beneficiar "da muito elevada taxa de rejeição de André Ventura", por outro lado, Ventura tem a seu favor o facto de o país estar hoje "sociologicamente mais à direita" e, portanto, vai tentar apresentar-se como "o candidato da direita contra o candidato socialista".

Numa análise aos resultados da primeira volta, André Azevedo Alves, politólogo e professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, destaca a vitória "clara" de António José Seguro e a derrota "humilhante" de Luís Marques Mendes.

Que análise faz aos resultados desta primeira volta?

Bem, o primeiro dado é que é uma vitória clara de António José Seguro, que se conseguiu afirmar como um candidato capaz de reunir o pleno das esquerdas, o que é patente nas votações muito reduzidas à sua esquerda e ir até um pouco além do espaço que será hoje o espaço socialista. Depois, é também um muito bom resultado de André Ventura. É a sua melhor percentagem em termos de votação de sempre. É também um resultado, ainda que não conseguindo passar à segunda volta, um bom resultado de João Cotrim de Figueiredo. E, pelo lado negativo, é uma derrota muitíssimo pesada para Luís Marques Mendes e também para Luís Montenegro, que enquanto líder do PSD e também enquanto primeiro-ministro, se associou a esta campanha. E é uma campanha que acaba por falhar de forma tremenda e por provocar um resultado humilhante, quer para o candidato, quer para o próprio PSD. 

Este resultado de Marques Mendes pode ter uma leitura quase de reprovação ou de sanção ao governo?

Eu acho que pela própria conduta de Luís Montenegro, essa leitura é inevitável. Ou seja, a partir do momento que Luís Montenegro não só apoiou Marques Mendes, mas que em vários momentos apelou ao voto em Marques Mendes, precisamente com o argumento da estabilidade governativa e da associação de Marques Mendes ao Governo, este resultado francamente dececionante de Marques Mendes, eu diria até de certa forma, mais do que o não passar à segunda volta, o quinto lugar e a margem pela qual Marques Mendes não passa à segunda volta, tem necessariamente uma leitura para o PSD e para o Governo, que, aliás, fica agora numa situação muito difícil, mesmo na campanha para esta segunda volta entre Seguro e André Ventura.

Este resultado dá, na sua opinião, alguma vantagem a Seguro para a segunda volta, ou esta segunda vola é uma nova eleição que será como "baralhar e dar tudo de novo"?

É uma nova eleição. A grande vantagem de António José Seguro não é tanto a vantagem que teve estes cerca de oito pontos percentuais na primeira volta, mas a muito elevada taxa de rejeição que André Ventura tem- ainda que ela tenha vindo a descer nos últimos anos- mas que continua a ser muito elevada junto de grande parte do eleitorado. É o facto de cerca de dois terços do eleitorado, nas sondagens mais recentes, anunciar que não votará em André Ventura. Esse é o grande ativo político de António José Seguro, mas que tem, no entanto, um problema, é que António José Seguro fez a primeira volta unindo as esquerdas. Não há, no entanto, na segunda volta, praticamente mais votos para ir buscar à sua esquerda, porque os candidatos à esquerda de António José Seguro ficaram reduzidos quase a zero e, portanto, António José Seguro tem necessariamente, na segunda volta, que ir buscar os cerca de dezanove pontos percentuais que lhe faltam para ter maioria à sua direita. E, André Ventura naturalmente, logicamente, sagazmente, como é seu hábito já se percebeu pelo discurso da noite eleitoral que vai precisamente procurar centrar a segunda volta num confronto entre o espaço socialista representado por António José Seguro e o espaço não socialista. Portanto, Seguro beneficia da muito elevada taxa de rejeição de André Ventura. André Ventura tem a seu favor o facto de o país estar hoje sociologicamente mais à direita e, portanto, vai tentar apresentar-se como o candidato da direita contra o candidato socialista.

Este posicionamento de António José Seguro de moderação pode não ajudar nesta segunda volta?

Eu acho que Seguro não tem alternativa a esse posicionamento, porque Seguro terá que procurar capitalizar a elevada taxa de rejeição que André Ventura continua a ter e a forma de António José Seguro poder capitalizar essa taxa de rejeição é precisamente apresentar-se como um moderado e procurar apresentar André Ventura como um perigoso extremista, cuja eleição colocaria em causa o regime, etc. E, portanto, eu creio que o grande ativo político de Seguro é precisamente essa figura de moderação. O grande ativo político de André Ventura será tentar mobilizar o espaço não socialista em seu torno para derrotar o candidato socialista e, portanto, eu julgo que a segunda volta vai ser muito marcada por estas duas mensagens fortes, quer por parte de Seguro, quer por parte de Ventura.