Womex, onde o futuro da world music se decide
Edição do evento começa amanhã em Lisboa e termina no domingo, dia 23.
Pelo segundo ano seguido, a grande feira da world music, o Womex, decorre em Portugal. A edição deste ano decorre em Lisboa (no ano passado, foi no Porto), entre dia 19 (amanhã) e dia 23 (domingo).
O enorme evento do Womex é um combinado de conferências, feira, filmes, sets de DJ, e, muito importante e decisivo, atuações ao vivo. Os showcases decorrem junto ao coração histórico da capital, na Avenida da Liberdade e nos Restauradores: Teatro Tivoli, Cinema São Jorge, Parque Mayer, Cineteatro Capitólio e Coliseu dos Recreios.
Por vários dias, Lisboa vai ser a sede musical das nações (bem) unidas... para quem tem sede para descobrir nova música. Mas o Womex é, acima de tudo, um encontro transcontinental entre milhares profissionais de todo o mundo: promotores, agentes, editores, artistas. As agendas ao vivo dos músicos vão-se decidir nestes dias em Lisboa.
Toda a programação do Womex neste link.
António Miguel Guimarães, o organizador, faz-nos um retrato geral do que se vai passar.
O que é que esta edição do Womex vai ter de especial este ano?
Esta grande edição do Womex já ultrapassou em números a edição do Porto. É a primeira sem aquelas condicionantes do covid. Vai ser um evento pós-pandemia, o que é ótimo. Vai permitir-nos ter as salas bastante compostas e ter muita gente que vem do mundo inteiro para assistir a cerca de 60 concertos em sete salas, basicamente na Avenida da Liberdade: no Coliseu [dos Recreios], no Tivoli, no São Jorge, no Capitólio, na tenda, e mais à noite, às duas da manhã, no Lisboa Ao Vivo, para música mais eletrónica. Vamos ter um evento livre e com artistas vindo de quarenta países em sessenta espetáculos.
Vão estar presentes cerca de 2500 profissionais. Do público geral, são esperados quantos espectadores?
A maioria das pessoas são os profissionais. O que aqui se passa são artistas a mostrar-se e o público que está lá são compradores de espetáculos, diretores de centros culturais e de festivais pelo mundo inteiro, que se deslocam a Lisboa para fazerem as programações para os próximos dois/três anos. Será fantástico para uma pessoa que não tem muito a ver com este meio conseguir perceber e antecipar os artistas que vão estar nos cartazes dos próximos dois anos.
O circuito ao vivo está concentrado na Avenida da Liberdade e nos Restauradores. É uma das vantagens do evento esta densidade de salas e teatros num curto espaço da cidade, não é?
É uma grande vantagem, as pessoas podem deslocar-se entre as salas. Nós temos alguma dessincronia de horários e fazemos questão de os cumprir para que as pessoas possam assistir ao maior número de espetáculos. Vão ter que optar, não conseguem ver todos, mas vão poder ver muitos. Pelo menos, uma pessoa consegue ver seis a oito espetáculos em cada noite.
Todas as atividades do Womex - conferências, feira, concertos, sets de DJs e filmes - ocorrem em espaços fechados. Falta ao Womex ocupar a rua?
Acho que não. Já ocupamos a rua. A movida de pessoas nas ruas já faz parte do Womex. Também estamos no Parque Mayer, entre a tenda e o Capitólio. Na realidade, este é um evento que se dirige a um público muito especial, que gosta de world music. São profissionais que vêm ver, conhecer e comprar os artistas que vão aparecer nos cartazes dos próximos dois anos, portanto no mundo inteiro. É preciso espaço e qualidade para poder ver, porque estas pessoas estão a fazer grandes investimentos. Vêm ver espetáculos de fado, de world music português ou asiático, para os levar para outra parte do mundo. São grandes investimentos que os produtores fazem. Eles precisam de ver e de ter a certeza que o artista que ali está à frente vai funcionar bem nos festivais deles, ou nos seus centros culturais, ou nas salas que vão alugar. Portanto, fazemos questão de dar o melhor possível de condições técnicas e artísticas para que o público que ali está consiga analisar e compreender isto. Claro que para o chamado público normal que vai ver um espetáculo, isto também é muito curioso, porque está a ver dois anos antes em antecipação aquilo que vai ver, quem sabe, no NOS Alive ou no Festival Músicas do Mundo de Sines, ou em qualquer outro espetáculo.
Em que medida há um antes e depois para a música em Portugal com estas duas edições?
O Womex existe há 28 anos. Nós já tivemos bastantes artistas a atuar no Womex à escala internacional. O que é que aconteceu a esses artistas a seguir ao Womex. Muitos deles conseguiram garantir turnés que os levaram pelo mundo fora, a partir dali. O público vem de noventa e tal países, são promotores de espetáculos. Se conseguires fazer um bom concerto e uma música inspiradora para os promotores, tu consegues dar um salto gigantesco no teu esforço de internacionalização. A Mariza estoirou no Womex, as Danças Ocultas também, inúmeros artistas de fado [como a] Ana Moura, os Deolinda. Muitos artistas têm como experiência o antes e o depois do Womex. Muitos declaram que o Womex foi vital para o salto na carreira deles. Portanto, acredito piamente que vai haver um pós-Womex significativo para a música portuguesa. É preciso não esquecer que o mercado mundial esteve quase parado durante dois anos. Só agora é que está a retomar. Ainda está a repor espetáculos cancelados. Mas começa a haver música nova. Por termos feito o Womex em Portugal nestes dois anos, nós conseguimos apresentar em cada uma das edições 15 artistas. Estamos a falar de 30 artistas diferentes que mostaram muito mais diversidade da nossa música além do fado. Estamos a mostrar desde música eletrónica, música tradicional, músicas de portugueses ligados aos PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa], e por aí fora. Estes promotores que olham muito para Portugal a pensar que existe só fado, descobriram todo um mundo diferente. Na prática, estes dois anos equivalem a vinte anos de Womex, porque não é garantido que cada país consiga pôr um artista no evento. Já é uma sorte ter um artista português em cada Womex. E de repente, apresentámos quase 30 artistas. De certeza que isto já está a ter resultados, mesmo para os grupos que estiveram no Porto, temos começaram a circular muito mais pela Europa do que dantes.
Amanhã, publicamos a entrevista a Selma Uamusse, uma das artistas nacionais do cartaz do Womex.
