Noiserv: "em certas fases da nossa vida é mesmo difícil perceber quem somos e quem não somos"

O músico tem novo disco. Chama-se "Uma Palavra Começada por N" e vai ser apresentado no dia 12 no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e no dia 13 no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa. Os concertos começam às 20h00.

"Uma Palavra Começada por N" é o novo disco de Noiserv. O quarto álbum da discografia do músico chegou em português e em boa hora para ser ouvido como uma viagem sonora. E que bem que sabe ter um horizonte por estes dias. Sendo um perfecionista convicto, o músico e compositor não entrega nada ao acaso, muito menos a sua arte. E, atenção, falamos de arte no sentido mais amplo da palavra porque nesta nova proeza discográfica de 11 faixas Noiserv volta a entrosar uma série de universos artísticos. Além de haver um cuidado evidente no apuramento dos sons e no manuseamento poético das palavras, a narrativa do disco foi ilustrada, ao detalhe e sob uma ordem narrativa, com uma série de vídeos que têm sido lançados mensalmente desde dezembro. Os videoclipes foram o resultado da união criativa de David Santos com os leirienses Casota Collective e refletem todos os pontos por onde passa a tal viagem - uma jornada existencial pelo rico e labiríntico mundo interior do músico. Um vídeo por mês para dar o "mesmo tempo de vida" às canções. A distribuição foi democrática e teve um propósito: servir a disponibilidade de ouvir. A disponibilidade de ouvir com tempo

'Uma Palavra Começada por N', disco lançado a 25 de setembro, entrou diretamente para o pódio dos discos mais vendidos em Portugal e já anda a ser mostrado em várias salas do país. A 12 de novembro, o músico vai subir ao palco do Teatro Sá da Bandeira, no Porto. No dia 13, Noiserv toca no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa. Ambos os concertos têm início marcado para as 20h00

outro concerto marcado para o Teatro Municipal de Vila Real. Será a 20 de novembro, às 21h00Todos os concertos vão decorrer de acordo com as orientações da Direção-Geral da Saúde.


Conversámos com o David Santos sobre o novo disco. Eis a nossa entrevista:


O disco chama-se "Uma Palavra Começada por N", sendo que o "N" pode servir todas as palavras começadas por essa letra ou pode ser apenas de Noiserv. Qual é que foi a tua intenção? 

A ideia do título é precisamente essa, a de não ser fechado numa palavra fixa. Se Noiserv não começasse por "N", se calhar o título não seria esse, mas a piada está na especulação que pode haver à volta da palavra. Todos nós temos as nossas memórias, as nossas coisas. Todas as pessoas poderão pensar numa palavra começada por "N" que não é necessariamente a mesma. Essa piada ou brincadeira cria uma ligação maior entre o disco e quem o ouve. É um título aberto. Não há uma palavra certa. 

E já ouviste muitas teorias?

A maior teoria de todas é o "N" ser de Noiserv. É a possibilidade de ser um disco homónimo, embora a ideia não seja essa. Quando surge essa pergunta as pessoas assumem logo essa hipótese. Até hoje ainda não ouvi nenhuma teoria com uma palavra começada por "N" que melhor representasse as músicas. Se um dia isso acontecer, poderei mudar de ideias. 

É mais um disco com um grande cuidado na forma como é mostrado, o que costuma acontecer com os teus álbuns. Lançaste uma canção por mês, sem destacar singles. Porquê esta opção?

Acho que tudo na minha vida surge de várias coisas que vou pensando ao longo do tempo. Quando essas coisas se juntam acabo por tomar decisões. Sobretudo nos concertos, sinto muitas vezes que as pessoas acabam por conhecer mais músicas que outras. Refiro-me não só a este disco mas também aos anteriores. Parece que há um género de ditadura do single em que, dependendo do trabalho de promoção, um disco tem de ter no máximo quatro singles, sendo que quatro já é um número acima da média. As restantes músicas acabam por ficar verdadeiramente perdidas lá pelo meio. São músicas que só são ouvidas quando o álbum é ouvido na íntegra e parece-me que hoje em dia temos cada vez menos tempo para que isso aconteça. Quis cortar um bocado com essa ditadura do single. Tenho noção que há músicas mais radiofónicas, outras que são mais diretas e com as quais as pessoas se ligam mais rapidamente mas não quero ser eu a fazer essa escolha. Na fase de apresentação do álbum, em que lancei um tema por mês, cada música teve o mesmo tempo de vida. Gosto de fazer as coisas com muita antecedência. Como o disco está preparado há muito tempo, consegui dar um mês a cada música. Também consegui criar uma dinâmica para os videoclipes dos temas. Fez-me sentido que todos estivessem ligados de alguma forma. Foi uma sucessão de fatores que justificaram essa decisão.  
 


Sentes que estamos com menos disponibilidade para ouvir?

Durante estes últimos meses, em que estivemos parados, voltámos a ganhar mais tempo para ouvir discos. Contudo, sem contar com este período, a internet e a oferta diária de música fazem com que os discos se gastem e envelheçam mais rapidamente. Todos os dias há uma série de álbuns a sair ao mesmo tempo. Acabamos por ficar com um ou dois dias para ouvir um disco a partir do momento em que é lançado. Se por algum motivo não conseguimos ouvi-lo nessa altura, já está outro para sair. Ainda ontem questionaram-me sobre as minhas referências. Tanto eu como quem me fez a pergunta chegámos à mesma conclusão, a de que já não consigo destacar uma banda como destacava há vinte anos. Hoje em dia destaco um conjunto de coisas. Já não destaco um disco, destaco uma música. Há um acesso facilitado a tanta coisa que é complicado dar o tempo que costumava dar a um disco de Pearl Jam quando tinha 14 anos. Nessa altura, era capaz de ficar a ouvir o mesmo disco durante um mês. Por um lado é bom haver esta facilidade em chegar às coisas, mas, por outro lado, há menos tempo para ouvi-las. Acredito, no entanto, que ainda há muita gente que ouve os discos com tempo e está atenta aos pormenores. As pessoas que gostam muito de ouvir os discos e que os ouvem repetidamente merecem que esse trabalho de pormenor esteja lá. À quarta, quinta audição de cada música ouvem-se os pormenores que não sobressaíram nas primeiras audições. A cada nova audição descobrem-se novos elementos. São elementos que estiveram sempre lá mas que passaram despercebidos.

Sempre tiveste os ouvidos despertos para todos os pormenores que podem estar numa canção, num disco? 

Acho que fui desenvolvendo a maneira de ouvir música ao mesmo tempo que fui desenvolvendo o prazer de pensar nos pormenores quando estou a fazer música. Aos 12, 13, 14 anos, quando ouvia Nirvana, Soundgarden ou Pearl Jam, ouvia a música como um todo, como um bloco. Não pensava muito em distinguir as guitarras, o baixo ou a bateria. Ouvia a massa sonora que cada uma das músicas tinha. Mais tarde, por volta dos 18 anos, quando descobri os Radiohead, que para mim são uma das maiores referências nesse campo, comecei a perceber que as músicas que mais gostava eram as que tinham mais pormenoresos elementos menos óbvios e menos repetições nos mesmos sítios. Agora tenho 38 por isso terá sido há cerca de 20 anos que comecei a ter um gosto maior a apreciar os pormenores. Fui ganhando esse gosto por cada som, por cada introdução ou por cada ruído. É precisamente isso que gosto de sentir nas minhas canções. O que gosto mais de ouvir numa música são os pormenores, as coisas que me surpreendem. Gosto de cada som de uma forma específica e, enquanto não o encontro, a música não fica feita. Só dou por terminada uma canção quando estou a gostar muito do que estou a ouvir. Felizmente, tenho conseguido sempre chegar ao resultado que me deixa satisfeito.
 

 

Sei que ligas bastante à ordem das canções no disco. Qual foi a tua narrativa mental para o lançamento dos temas e para a ordem do alinhamento do disco?

Houve várias pessoas que me perguntaram porque é que a ordem de lançamento dos temas não foi a mesma que coloquei no alinhamento do disco. Isso aconteceu porque a ordem que está no álbum é a que faz mais sentido quando o disco é ouvido de uma ponta à outra. A ligação entre as canções, falo das que ia lançando todos os meses, não é assim tão forte. Sou um bocado obcecado com os alinhamentos. Até posso estar a exagerar mas acho que tenho entre 20 a 30 alinhamentos diferentes para cada disco. Ando com os alinhamentos no telemóvel e, onde quer que esteja, se não tiver nada para fazer, oiço-os repetidamente para perceber como é que funciona a viagem de ouvir o disco todo. Quero perceber como é que as músicas encaixam.

Se juntarmos os títulos das faixas na ordem do disco temos uma frase: "Eram 27 metros de salto/ mas/parou/meio/picotado/neste andar/neutro/sem tempo/por arrasto/sempre rente ao chão." O que é que esta frase significa para ti?

Sim. Foi uma das maiores lutas deste disco. (risos) Todas as músicas foram feitas num período específico, ao longo de dois anos. É como se fosse uma autobiografia sobre o período em que criei as canções. As temáticas dos temas não são as mesmas, mas há pontos que se cruzam. Já andava a pensar na ideia de juntar os títulos numa frase desde o último álbum que lancei, há quatro anos. A frase acaba por ser a sinopse do disco. Os títulos são um mini resumo do álbum quando é ouvido de uma ponta à outra. Depois desse processo, ainda houve outro. Quis que cada um dos títulos tivesse uma palavra ou um conjunto de palavras que estivessem dentro da letra. Quis escolher as palavras que para mim fossem as mais fortes ou que simbolicamente tivessem uma relação forte com a música em particular. Quis que tudo isso fizesse algum sentido, embora não tenham sido os títulos a condicionar o alinhamento. O que ditou o alinhamento foi a questão sonora.  
 


Tens duas músicas instrumentais. Uma a abrir e outra lá mais para o meio... 

Sim. Isso vem no seguimento daquilo que considero ser o alinhamento perfeito. Por exemplo, havia uma música que era para ser a 12ª do disco, não necessariamente a última, que acabei por não incluir no alinhamento. Não consegui inseri-la na tal viagem que é ouvir o disco todo. Se calhar é algo que inevitavelmente vou repetir em todos os discos, mas faz-me sentido que a primeira música não tenha voz. Aliás, a primeira música tem voz, mas não tem palavras ditas de uma maneira clara. Faz-me sentido que exista sempre uma introdução, uma respiração inicial para que depois eu possa começar a dizer o que quero dizer em cada uma das músicas. Como este disco juntava algumas texturas e partes rítmicas mais complicadas e diferentes umas das outras, fez-me sentido que no meio existisse uma espécie de corta-sabores. A ideia de ter essa música no meio [tema que se chama 'Meio'] foi para que funcionasse como um momento de viragem do disco. Na edição em vinil esse tema aparece precisamente na altura em que o disco dá a volta. Percebi que a música, que até foi a que lancei em dezembro, era a que as pessoas achavam mais estranha. Acho que essa estranheza ajuda a continuar a audição do resto do disco. 

 


 

 


 

Há também uma ligação visual e estética entre os temas que se reflete nos vídeos. Quiseste unir os vídeos numa só narrativa, que narrativa é essa?

Mais uma vez não foi algo que tenha surgido de um dia para o outro. Veio na sequência de pensamentos atrás de pensamentos e de conversas atrás de conversas. As coisas vão crescendo criativamente dessa forma. Desde a altura em que decidi que ia lançar uma música por mês que queria que os vídeos se ligassem uns aos outros. Queria que houvesse uma única história a ser contada. Como havia muitas letras do disco que se ligavam dessa forma, queria criar uma única realidade que fosse vista de diferentes perspetivas. Quando falei com os Casota Collective foi com esse intuito. A ideia foi a de criar um espaço onde está tudo a acontecer ao mesmo tempo. As situações que acontecem nos vídeos não são performances para o início ou fim de uma música específica. É algo que está a acontecer no mesmo espaço, espaço esse que pode ser visto como o interior da minha cabeça ou não. Há uma série de personagens, todas com características diferentes, que estão dentro daquele espaço, a fazer o seu dia-a-dia, embora de uma forma estranha. Em cada um dos vídeos vê-se isoladamente cada uma das personagens, mas, no último vídeo, decidimos abrir o campo de filmagem para explicar que a ação dos vários vídeos está a acontecer no mesmo sítio e ao mesmo tempo. 

O que é que representam as várias situações e as diferentes personagens?

Uma das leituras de base é que aquele espaço representa o interior da minha cabeça. Por exemplo, há um vídeo que tem uns quadros com caras na parede e um dos quadros está por preencher. Partimos daquela ideia de um caçador que mete o animal caçado, embalsamado, na parede. Essa ideia  representa as emoções. Não é mais que o meu interior emocional, quando aprendi a chorar, a rir ou a ficar irritado. Era isso que estava na parede. Representa a forma como vou assimilando emocionalmente as coisas. Isto serve para todos os vídeos e personagens. Cada um deles representa as minhas dúvidas, incertezas e os meus receios
 



Precisamente no tema desse vídeo - 'Por Arrasto' - cantas: "eu só tentei ver-me de pé/ forma incerta p'ra entender-me de cor". Também te interrogas sobre o entendimento que tens de ti próprio?

Existem muitas interrogações. Essa música em particular vive muito da maneira com que devíamos ser capazes de sair um bocadinho de nós para percebermos o que é que está a acontecer quando nos vemos de fora. Acho que em certas fases da nossa vida é mesmo difícil perceber quem somos, quem não somos, quem é que decidimos ser, porque é que decidimos ser, o que é que um dia fomos e o que é que podemos vir a ser. Tenho estas dúvidas existenciais desde que me lembro. Sempre fui assim. Como é que num espaço tão pequenino, que é a nossa cabeça, conseguimos guardar tantas ideias e pensamentos. Às vezes parece que é um entendimento maior do que aquilo que somos enquanto seres humanos.

O que é que fazes para tentar encontrar as respostas?

A música tem um papel muito grande nessa procura. Nunca vou tendo grandes respostas, mas o facto de falar dessas questões nas músicas acaba por funcionar como uma resposta. Sinto mesmo isso. Quando uma música fala de um assunto parece que esse assunto fica mais resolvido. Não fica entendido mas fica resolvido. Isto acontece, por exemplo, quando canto sobre pessoas próximas que morreram, de outras pessoas que passaram por determinados problemas ou sobre o medo de que possa acontecer algo. Em quase todos os meus discos há um ou dois momentos, que estão escondidos dentro de histórias nas letras, em que há referências a essas pessoas. Da mesma forma que presto homenagem a alguém também posso homenagear um sentimento ou uma dúvida que esteja a ter. Nesses momentos as coisas não se resolvem mas parece que fazem um pouco mais sentido. 

Neste disco a palavra "cansaço" aparece algumas vezes. Porquê?

Não é que me sinta cansado, mas, por vezes, acho que há dificuldade em perceber que o cansaço pode ser algo importante para termos noção do que estamos a fazer. Falo da importância de nos sentirmos cansados, de valorizarmos o tempo com que as coisas demoram a acontecer ou sobre termos de perceber que uma mudança, seja ela qual for, nunca é de um dia para o outro. É o meu quarto disco. Penso sobre o que ainda tenho para dizer e sobre o que já não tenho para dizer. Percebo depois que afinal o que tenho para dizer é sobre o medo de um dia deixar de ter coisas para dizer. Estas questões também estão dentro deste disco.  

 

 

E sobre estes tempos que estamos a viver, como é que olhas para as consequências que a pandemia está a ter no setor da cultura? 

Quando tudo isto começou, no mês de março, tentou-se que, de alguma forma, a versão digital conseguisse substituir a atividade. Os músicos faziam concertos online e depois distribuíam as receitas dos concertos pelas equipas. Tentámos fazer isso da maneira que era possível. Mas os espetáculos de música, teatro ou de dança foram criados com um intuito: o de existir um palco e uma plateia. Sem isso os espetáculos nunca terão a mesma intensidade. Quando vemos um espetáculo de dança ficamos apaixonados por estarmos a ver pessoas no palco a dar-nos movimentos de corpo. É isso que provoca uma sensação absurda de intensidade, o que não acontece no ecrã ou na televisão. Temos de manter essa relação entre os espectadores e os artistas que estão no palco. Temos de fazer com que essa ligação não acabe e que não seja substituída por outra. Acho que é algo insubstituível. É preciso proximidade. Estamos a fazer o melhor que conseguimos, mesmo que seja às oito da noite ou às oito da manhã. É importante que não se proíba esta relação.