Tiago Bettencourt: "sinto-me sempre muito aconchegado no palco"
O músico vai andar pelo país para mostrar "2019 - Rumo ao Eclipse", o disco que editou no passado mês de outubro.
Tiago Bettencourt está de volta à estrada. O músico e compositor leva consigo o disco "2019 - Rumo ao Eclipse", álbum que editou em outubro de 2020. Foi também por essa altura, no intervalo dos confinamentos, que o ex-Toranja andou a mostrar o disco numa série de sessões intimistas que funcionaram como uma espécie de listening party. O Tiago levou uma guitarra, um gira-discos, uma planta e o peito aberto para falar das 13 faixas do sétimo disco da discografia que assina.
"Será uma celebração honesta da verdade por detrás das canções, uma conversa sobre as palavras, sons e histórias à volta do disco", prometeu o músico para a ronda de encontros intimistas com o público. E cumpriu.
"2019 - Rumo ao Eclipse" conta com uma série de colaborações. A voz de Mariza acalma a 'Nuvem' e o ator Ivo Canelas dá corpo à intro da faixa 'Fachada'. Tiago Bettencourt também recrutou Cláudia Pascoal e Mariana Norton para ajudar nos coros.
Durante os confinamentos, o músico recuperou Tiago na Toca, um formato antigo que adaptou a tributos a artistas que o inspiram e à nova adrenalina dos diretos a partir do Instagram.
Agora, com os palcos abertos, Tiago Bettencourt segue viagem para, finalmente, apresentar, de forma mais musculada, o novo álbum que continua a fervilhar de novidade. O primeiro concerto foi em Viana do Castelo, no passado mês de abril. Amanhã, 16 de maio, o encontro com o público está marcado para Loulé. Pode conferir as restantes datas em baixo.
Finalmente, o regresso aos palcos
Como é que te sentiste quando voltaste a pisar o palco?
A sensação foi ótima. Apesar do distanciamento entre as pessoas e das máscaras que o público ainda tem de usar, senti uma alegria muito grande na sala. Sentimos isso mesmo com a lotação a 50 por cento. Estávamos todos muito animados. Tanto nós, músicos, como o público. Estava toda a gente muito entusiasmada naquele teatro.
Depois dos confinamentos, o prazer de voltar à estrada é redobrado?
Acho que, acima de tudo, estamos todos um pouco ansiosos. As saudades do palco são gigantes. O disco foi lançado em outubro, mesmo antes de fechar tudo pela segunda vez, e ainda não tínhamos conseguido tocá-lo ao vivo. A digressão de apresentação do álbum foi adiada uma série de vezes até que acabou por ser cancelada. Estamos ansiosos por finalmente levar o álbum para o palco. Estamos muito entusiasmados com isso.
Voltaste a sentir borboletas antes dos concertos?
Já não sinto borboletas antes de subir ao palco. Por outro lado, senti borboletas durante os diretos que fiz no Instagram na altura do confinamento. Isso, sim, deixou-me mais nervoso do que qualquer concerto. Ter de estar sozinho em casa obrigava-me a ser responsável por todas as questões técnicas. Se houvesse um problema, era eu que tinha de ir lá resolvê-lo. Nos concertos não sinto nervos, sinto apenas um prazer gigante de estar ali. Estou sempre muito tranquilo. Já conheço a minha banda há muito tempo, damo-nos todos muito bem. Somos praticamente família. Sinto-me muito acompanhado no palco. Sinto-me sempre aconchegado. É como se fosse um jantar com amigos.
O regresso do Tiago na Toca em dias de confinamento
Os diretos Tiago na Toca, nos quais tocaste versões e originais, serviram para ajudar a equipa que te acompanha. As pessoas que estavam a assistir podiam contribuir com o valor que quisessem durante a tua atuação. Essa experiência uniu-vos ainda mais?
Não sei dizer ao certo porque sempre fomos muito unidos, mas notei que a equipa estava muito contente no primeiro concerto. Estávamos todos com muitas saudades uns dos outros. Na primeira temporada juntei dinheiro para a minha equipa, mas na segunda resolvi angariar dinheiro para a União Audiovisual, [a associação que tem estado a ajudar os trabalhadores do setor da Cultura]. Achei por bem encaminhar os fundos para essa associação. O trabalho que a União Audiovisual está a fazer é incrível e continua a ser muito importante. A recuperação ainda vai demorar algum tempo.
O novo disco "2019 - Rumo ao Eclipse"
Com o ano 2020 a trocar-nos as voltas, focas o ano anterior no título. É curioso manteres o título original...
Acho que 2019 foi um ano bastante estranho e agressivo para muita gente. Já ninguém se lembra disso porque 2020 foi o que foi. (risos) Gravei o álbum em 2019. Era suposto ter saído em fevereiro ou março de 2020, mas sempre mantendo a referência a 2019. Em dezembro desse ano, liguei para uma amiga minha, que hoje em dia é astróloga, entre outras coisas. Já sabia que queria usar o ano de 2019 no título do disco mas sentia que faltava uma continuação, algo do género "2001: Odisseia no Espaço". Como percebo zero de astrologia perguntei a essa minha amiga o que é que, a nível planetário, tinha acontecido em 2019 para poder usar no nome do disco. Foi engraçado. Ela falou numa série de tensões a nível mundial e nas relações entre as pessoas. Disse-me que nesse ano houve um ou dois eclipses que iam reordenar tudo. Bem, a verdade é que reordenaram tudo de uma forma um pouco estranha. (risos) A ideia de um rumo ao eclipse tem a ver com essa mudança, mudança essa que ainda não percebemos muito bem. Acho que só agora, na fase da ressaca, é que vamos conseguir perceber o que é que mudou.
Qual é a primeira coisa que vais querer fazer quando recuperarmos a liberdade total?
Quero viajar. Preciso muito de fazer uma grande viagem, de mochila às costas.
Onde?
Há vários lugares que quero visitar. Quero ir a Buenos Aires, à Patagónia, à Nova Zelândia...
Isso também significa novo álbum. Sei que compões muito em viagem…
Sim, é verdade.
Este disco tem temas que compuseste no Brasil, certo?
Sim. Escrevi alguns temas na Ilha Grande, que fica localizada entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Estive lá uns dias e aproveitei para compor uns quatro ou cinco temas.
E uma das faixas chama-se precisamente 'Viagem'. O tema abre o álbum, mas sei que gostarias que essa canção tembém fosse a última...
Acho que é o desejo de boa viagem e de bom regresso ao mesmo tempo. Acho que seria interessante ter essa no início e no fim do alinhamento do disco. É uma música que retrata bem a maluquice que é o álbum inteiro. É um disco que vai acima e vai abaixo. Tem músicas mais calmas, outras menos. Fala de amor, de ganância. É um álbum meio doido mas muito humano. Acho que a justificação deste álbum está precisamente nessa música.
Sobre a ideia do vídeo para ilustrar 'Viagem'. O videoclipe foi realizado por FT Wolfe. O argumento é de Tiago Bettencourt. A direção de fotografia ficou nas mãos de Bruno Grilo.
O tema 'Nuvem' tem a voz da Mariza. Como é que surgiu a ideia para este dueto?
O refrão dessa música lembrava-me a música 'Sister', dos Antony and the Johnsons, em que, a certa altura, parece que é o Boy George que está a cantar o refrão, com uma voz quente, muito bonita, muito de casa. Percebi que a 'Nuvem' também estava a precisar de algo assim no refrão. Estava a precisar de uma voz potente mas sem ser esforçada. Acho muito interessante pôr a cantar vozes potentes que cantam sem esforço. Quem ouve percebe que a voz consegue ir muito mais longe mas, precisamente por não estar a ir, acaba por transmitir uma certa serenidade. O refrão dessa música diz algo como: dói por dentro como um sonho/vai passar. Senti que este "vai passar" precisava de ser dito de uma forma serena. Achei que a Mariza era a pessoa perfeita para transmitir essa serenidade.
Este disco tem algumas inquietações mas também tem pontos de luz. Que pontos de luz é que podemos encontrar a ouvi-lo?
Acho que depende de cada um. Eu escrevo sempre com pontos de luz. Já lá vai o tempo em que escrevia coisas muito para baixo. Fartei-me disso no segundo álbum dos Toranja. Era demasiado romântico-adolescente. Gosto de ter luzinhas ao longo dos discos. Gosto de falar de momentos difíceis, como é óbvio, mas faço questão de também falar do caminho de regresso, da maneira como se pode sair desses momentos. A vida é feita de altos e baixos. Temos de aceitá-los. As minhas canções são fotografias desses momentos.
Sobre a apresentação do disco na série de sessões intimistas que fez no intervalo dos confinamentos:
16 de maio - Cine-Teatro Louletano, em Loulé
21 de maio - Cineteatro Alba, em Albergaria-a-Velha
22 de maio - Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão
18 de junho - Teatro Municipal Pax Julia, em Beja
26 de junho - Teatro Virgínia, em Torres Novas
4 de julho - Convento São Francisco, em Coimbra
15 de julho - Festival dos Canais, em Aveiro
11 de setembro - Fórum da Juventude de Alcanena
17 de setembro - Theatro Circo, em Braga
18 de setembro - Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria
1 de outubro - Centro de Arte de Ovar
20 de novembro - Cine-Teatro de Estarreja
4 de dezembro - Teatro Garcia Resende, em Évora
11 de dezembro - Centro de Artes de Águeda
