Jim Morrison: o homem que levou o drama para o rock

Faz hoje 50 anos que morreu o vocalista dos Doors, em Paris.

Faz hoje 50 anos que morreu Jim Morrison, o carismático vocalista dos Doors e uma das grandes lendas do rock. O cantor e poeta morreu com 27 anos, a 3 de julho de 1971, em Paris. 

Se Elvis Presley encorpou o rock de uma performance despudorada, se os Beatles e os Beach Boys deram ao género uma dimensão quase sinfónica, se Bob Dylan transferiu para o formato elétrico um conteúdo mais literário... Jim Morrison dos Doors levou o drama. Onde acabava o performer e começava o ator, era um enigma que jogava com o público.  

O segundo grande atributo do vocalista dos Doors, Jim Morrison, eram as suas letras. O principal atributo era o carisma da sua presença. O homem que começou tímido em palco, de costas viradas para o público, tornar-se-ia um monstro omnipotente, derrubando os limites à performance, ainda que o fizesse dopado pelos efeitos dos ácidos.  


 
Sempre usando calças de couro, Jim Morrison ganhou cedo o estatuto de lenda, tornando-se um espectáculo à parte dentro dos próprios Doors. Adorava a idolatria das multidões e gostava de se misturar no meio do público, mas sempre com o seu estatuto de jovem Deus. 
 
Com ele, o rock nunca foi tão perigoso e rebelde, sem nunca perder o jazz de vista. Ray Manzarek era esse homem do jazz, substituindo no órgão a função do baixista, com uma mão no ritmo e outra na melodia.

Ana Cristina Ferrão, que durante tantos anos colaborou nos programas de rádio do seu marido António Sérgio (1950-2009), é das pessoas que mais se debruçou em Portugal sobre a obra de Jim Morrison e dos Doors, de que é exemplo a série Rei Lagarto e Outras Histórias, feita para a Rádio Comercial, no início dos anos 90. O carinho de Ana Cristina Ferrão pelo retratado é imenso na hora de lhe traçar um perfil: “o Jim Morrison é daquelas personalidades que quando as encontramos, é muito difícil tirar da nossa epiderme. Colam-se, são adesivas. E é um adesivo que nos contamina, porque tem um carisma enorme e além disso tem um quê de humano, tem um quê de pessoa, de ser, que ultrapassa um pouco a sua imagem mediática. Isso conseguimos encontrar quando lemos os seus trabalhos mais profundos, nomeadamente a componente poética que ele tanto prezava”. 

 

Para Ana Cristina Ferrão, há uma rebeldia em Jim Morrison que faria falta nesta época atual. "Estamos a viver uma fase - nestas décadas de 2000, de 2010s e agora no início dos 20s - muito bem comportada, muito certinha, muito direitinha, muito correta. Mesmo o que parece incorreto advém de um quê de correto. E naqueles anos 60 havia uma incorreção muito grande em termos da forma como as pessoas se expressavam, nomeadamente os artistas. E o Jim calha nessa bomba explosiva que são aquele final dos anos 60 e anos 70, em que na realidade consegue dar ainda mais gasolina àquele fogo interior que ele tinha". 

 

Jim Morrison simbolizava também a emancipação precoce face ao seu seio familiar, que foi sempre um mistério pela ausência, especialmente o pai, um militar norte-americano que comandou uma divisão de porta-aviões na Guerra do Vietname, enquanto o filho brilhava nos palcos e entrava na mitologia do rock.  
 
Menos misteriosa é a criação dos Doors. Jim Morrison conhece o organista Ray Manzarek na escola de cinema de Los Angeles, no UCLA. A banda é formada por ambos, e pelo guitarrista Robbie Krieger, com experiência de flamenco, e pelo baterista John Densmore, vindo do mundo do jazz. 
 
Passaram a ensaiar numa casa alugada junto à praia. Ao fim de pouco tempo, já estavam a mitificar o clube de Los Angeles Whiskey-a-Go-Go, onde estrearam pela primeira vez uma travessia da linha vermelha dramatizada por Jim Morrison, chamada 'The End'. Essa música faria parte do álbum de estreia homónimo dos Doors, que foi gravado em poucos dias num gravador de quatro pistas. "The Doors" tem o recheio de canções mais significativo, desde o êxito de 'Light My Fire', a bravura frontal de 'Break On Through... To the Other Side' e a adaptação de 'Alabama Song' (de Berthol Brecht e Kurt Weil).

 

No final dos anos 60, há um jovem de Almada chamado António Manuel Ribeiro, mais tarde conhecido como o líder dos UHF, que atravessava o rio Tejo, em direção às lojas de discos e de eletrodomésticos da Baixa de Lisboa. Numa dessas idas, António Manuel Ribeiro mal descobre o álbum de estreia homónimo dos Doors, esconde-o na seção de folclore nacional para que ninguém o comprasse. Passados uns dias, e já com o dinheiro no bolso, reencontrou o desejado álbum dos Doors no sítio desarrumado onde o deixara, e comprou-o. Regressado a Almada com o disco debaixo do braço, António Manuel Ribeiro viveria uma das sessões de escuta mais reveladoras da sua vida, descobrindo uma versão mais longa de 'Light My Fire' do que aquela que conhecia. Foi através dos programas de rádio que António Manuel Ribeiro ouvira pela primeira vez a música dos Doors. "O que um miúdo de 14 anos como eu sentiu foi a diferença. Na altura, eu não conseguia saber nada. Não havia vídeos, eles não apareciam na televisão, tinha lido um ou dois artigos de passagem na imprensa. Portanto, aquilo foi em bruto. O que me bate é a forma como ele (Jim Morrison) está a cantar".

 

O influente radialista Luís Filipe Barros, que dava a voz ao programa da Rádio Comercial, "Rock em Stock", descobriu os Doors na posição de ouvinte, antes de se tornar um profissional do microfone. O álbum de estreia dos Doors cativou-o então. "Vivia-se a época dos hippies e da Guerra do Vietname. Este álbum, que saiu em 1967, contrastava com a euforia hippie vivenciada no Verão do Amor".

   

O sucesso dos Doors foi célere e o amadurecimento da banda também, como comprovou o segundo disco, lançado ainda em 1967, de título "Strange Days". O quarteto de LA refinava a sua elegância poética, inspirada pela qualidade das letras de Jim Morrison. 'People Are Strange', 'Love Me Two Times' ou 'Moonlight Drive' eram alguns dos maiores feitiços daquele que é um dos mais notáveis e complexos trabalhos dos Doors: “Strange Days”. 
 

De Los Angeles, Califórnia, vinham os Doors. De uma América sem lei, vinha o seu vocalista Jim Morrison. Meteu-se com todas as drogas que havia e com todas as transgressões, sem parar de arriscar os limites do corpo, também posto à prova pelo excesso de álcool.  
 
A banda era a plataforma funcional para o disfuncional e imprevisível Jim Morrison. Mas não havia milagres. O quarto álbum dos Doors, "Soft Parade", demora 11 meses a ser gravado, no meio dos devaneios erráticos de Jim Morrison.  


 
Se muitos fãs dos Beatles iam aos concertos mais para os ver do que para os ouvir, quem ia ver Doors ia muitas vezes para ver as diabruras de Jim Morrison, não tanto para ouvir a música.  
 
Um dos concertos mais inflamados da história do rock acontece em Miami, com os Doors, a 1 de Março de 1969. Jim Morrison provoca o público, torna-se desagradável e ameaça mostrar o seu sexo à multidão. Ao fim de uma hora, o concerto torna-se um imenso tumulto. O que se seguiu foi um inferno em tribunais, com um mandato de crime sexual grave de que o cantor era inocente.  
 
O rebelde omnipotente Jim Morrison caía perante a moral americana, com a ameaça de pena de prisão de três anos e meio. "Ele não era uma alma complacente, nem pela paz. Era uma alma fervilhante, em ebulição, a transbordar de energia. Essa energia às vezes chamuscava os outros e principalmente a ele, como nós sabemos", entende Ana Cristina Ferrão.


 
A América é violenta e isso traduz-se bem na música mórbida e sexual dos Doors. Não havia propriamente paz e amor. O mais próximo que os Doors estiveram do idílio hippie foi, talvez, no tema 'Love Street', uma dedicatória de Jim Morrison à sua namorada Pamela Courson. O tema faz parte do álbum de 1968, "Waiting for the Sun", antes da derrocada da banda. 

1969 é um ano mau para os Doors, que falham o festival de Woodstock. O grupo vai testemunhando a destruição desse ser humano chamado Jim Morrison, que vai alucinado para palco, atrasado para concertos e falhando voos de avião.  
 
Em 1969, a carreira literária de Jim Morrison é mais produtiva que a música dos Doors. O cantor publica nesse ano dois livros de poesia. Mas em 1970, depois de falhado o Woodstock, os Doors actuam no Festival da Ilha de Wight diante de quase 500 mil pessoas, com um Jim Morrison mais inchado. “Ele vai com aquela capa meio mexicana, barbudo, a fumar um cigarro e a cantar sem se mexer. Havia ali quase uma negação. A forma como o trataram foi muito duro”, diz o vocalista dos UHF, referindo-se ao processo criminal movido contra Jim Morrison.  


 
Seis meses antes, os Doors lançavam o seu quinto álbum, “Morrison Hotel”. Nesse disco, o produtor Paul Rothchild conseguiu levar a banda para sessões mais instintivas e menos perfeccionistas, afirmando-se “Morrison Hotel” como um álbum mais marcado pelos blues. 
 
Os anos 60 estavam a morrer já em 1969, com a seita genocida de Charles Manson e a má aura dos Hell Angels na (in)segurança ao festival de Altamont, encabeçado pelos Rolling Stones. No início dos anos 70, morrem três dos maiores ícones, dos anos 60, os três com 27 anos: Jimi Hendrix, Janis Joplin e, por fim, Jim Morrison.  

O vocalista dos Doors tinha-se refugiado em Paris, onde continuou a escrever poesia e a viver com a sua namorada Pamela Courson. Três meses depois de ter chegado à capital francesa, o cantor morreu na cidade francesa em circunstâncias misteriosas, a 3 de julho de 1971. A sua morte tem alimentado especulações, nomeadamente sobre uma fatal overdose de heroína. 

"Foi um grande choque, que fez dele um dos grandes mitos do rock. Essa morte nunca foi (investigada). Não houve autópsia, não houve nada, o caixão estava fechado. A morte sempre foi misteriosa. Ele morreu em Paris, ao lado de tantos poetas que ele admirava. Procurou resgatar em Paris a inspiração que achava ter perdido. Diziam que entraram de cabeça na heroína. Os factos relativos aos derradeiros dias estão envoltos em mistério ainda hoje. O que se sabe é que a 3 de julho de 1971, morreu na banheira do apartamento onde morava", comenta Luís Filipe Barros, pouco convencido da versão oficial de morte de Jim Morrison.


 
António Manuel Ribeiro soube da morte de Jim Morrison naquele mesmo dia, pela voz da sua mãe: "'Olha, aquele rapaz que tu gostas muito morreu hoje'. ‘Como?’ Eu acho que a música nesse dia morreu para mim. Tu ouves o 'Riders on the Storm', como eu ouvi, num pequeno gira-discos do meu quarto, aquilo é qualquer coisa que acontece”. 

 

Essa travessia mística de Riders on the Storm integra o último álbum em vida de Jim Morrison, "L.A. Woman", onde os Doors recuperam a magia antiga, com uma série de grandes canções, e que marca um corte com o produtor de sempre Paul A. Rothchild.  


Jim Morrison está sepultado no cemitério parisiense de Pére Lachaise. "Vou regularmente a Paris. É a minha segunda cidade, a seguir a Lisboa. Já várias vezes amigos meus me tentaram levar ao cemitério de Pére Lachaise. Não me interessa ver uma campa. É um cerimonial patético onde as pessoas vão orar, dançar, cantar e drogar-se, à volta de uma pedra mármore. Isso não me diz rigorosamente nada", critica António Manuel Ribeiro. 


 
Jim Morrison era uma figura luminosa e a luz das suas próprias sombras. O cantor era também o sol da própria banda, que se perdeu sem ele, com dois álbuns inconsequentes e a rotação perdida e às escuras a seguir à sua morte, no início dos anos 70. A banda só se reencontrou quando voltou a trabalhar a voz de Jim Morrison, no álbum de spoken word de 1978, "An American Prayer", com poesia lida por Jim Morrison e com música dos restantes três membros dos Doors. 

 

O legado dos Doors foi sendo continuado de várias outras formas, incluindo no cinema. O antigo colega de curso de cinema de Jim Morrison, Francis Ford Coppola, pegou em 'The End' para o seu filme de guerra, Apocalypse Now. "Tenho a impressão que a minha primeira relação forte com a música dos Doors foi no cinema, quando vi o Apocalypse Now. E foi a utilização da canção, que já teria ouvido, que se juntava ao poder das imagens e àquelas sequências de abertura. Foi um pico de interesse na minha relação com os Doors. Ali, era um contexto forte e o momento-chave foi esse”, recorda o crítico literário e comentador político Pedro Mexia, que admira mais a personalidade Jim Morrison do que a música dos Doors.

 

Outro enquadramento cinematográfico, este direto a Jim Morrison e aos Doors, é o biopic de Oliver Stone, "The Doors - O Mito de uma Geração". "Embora o filme não tenha tido boa crítica, tanto quanto me lembro, gostei do Val Kilmer, achei que era um Jim Morrison muito convincente. O problema dos filmes biográficos, seja de um cantor rock, seja do que for, tendem em concentrar-se em meia-dúzia de clichés e portanto a maioria dos filmes biográficos não é muito interessante”, analisa Pedro Mexia.

 

Ana Cristina Ferrão tem boas recordações do filme de Oliver Stone, quando o foi ver ao cinema. "Vi o filme quando estreou no Nimas, próximo do Saldanha, e onde encontrei o Zé Pedro a entrar também e fizemos uma festa. Houve aqui um momento de uma grande nostalgia de duas pessoas que me são muito queridas por terem lá estado: o Zé Pedro e o António Sérgio. Também levei a minha filha, que tem hoje 40 anos, mas que na altura não tinha. Toda a gente ficou assim a olhar de lado, entre eles o Ricardo Camacho (teclista dos Sétima Legião e produtor), que estava nas filas da frente, disse-me: ‘trouxeste a tua bebé’. Mas o Jim era tão presente na nossa casa que eu achei que era um momento importante para a minha filha, que era adolescente na altura, conhecer o que era a personagem de Jim Morrison. Não fiquei defraudada com aquilo que vi. Há alguns momentos interessantes, como a sua relação com a Nico. Mas não me chocou profundamente".

 

Nos anos depois de Jim Morrison, a imponência magnética em palco do vocalista dos Doors e o seu dramatismo colérico elevaram a fasquia da performance de um rocker. Iggy Pop, da geração de Jim Morrison, não teve medo das comparações com o homem dos Doors, mas teve sempre personalidade suficientemente forte para fazer as diabruras à sua maneira, de uma forma mais hilariante e traquinas. Ian Curtis (dos Joy Division) ou Nick Cave foram ainda mais longe na qualidade das letras do que Morrison, e também fizeram do palco um espaço de tensão e de hipnose, com carisma e génio para fintarem quem eles ouviam. 

Menos descolados dos Doors, por convicção e devoção, estiveram os Stranglers ou os Echo & The Bunnymen, onde o órgão foi muitas vezes um tapete voador para algumas das suas maiores canções. Menos óbvia na ligação estética, mas com a mesma simplicidade e a mesma facilidade de articulação de engrenagem entre vários géneros musicais americanos que os Doors, os Violent Femmes e os Morphine também criaram as suas máquinas desdobráveis peculiares, com mais ou menos blues, com mais ou menos jazz. Se excluirmos a figura endiabrada e à solta de Jim Morrison a que os restantes Doors tinham que responder no momento e noutro momento e noutro momento, há nestes trios de instrumentistas (com as suas dinâmicas próprias) um desenrascanço, mesmo que comprometidos com estruturas de canções. Há mais pioneirismo dos Doors no subconsciente enciclopédico da música popular do que pensamos. A imprevisibilidade de Jim Morrison determinou essa hibridez improvisada. 

 

Recai sobre Ian Astbury, dos Cult, o rótulo de Jim Morrison do movimento de rock gótico. Esse rótulo tomou conta dele de vez quando aceitou o desafio de fazer digressões revivalistas com os três instrumentistas dos Doors, nos espetáculos Doors of the 21st Century, que o público português pôde assistir no Pavilhão Atlântico (atual Altice Arena), em Lisboa, em 2003. Com uma voz muito similar à de Astbury, é o vocalista dos Gun Club, Jefrey Lee Pierce, a quem se deve atribuir o estatuto de filho musical pródigo de Jim Morrison, com uma autenticidade sombria, uma voz luminosa e uma personalidade provocadora em palco e auto-destrutiva. Ana Cristina Ferrão tem a mesma sensação sobre a descendência. "O Jeffrey Lee Pierce acaba por ser o digno sucessor do Jim Morrison, décadas mais tarde. Tive a experiência única de o entrevistar quando veio dar um concerto a Portugal - com o Kid Congo Powers e com a Romi (membros da formação da altura dos Gun Club) que, na altura, era a baixista. Foi no (cinema lisboeta) Império, com primeira parte dos Mão Morta. Enquanto expulsavam N pessoas dos camarins, eu entrei e disse-lhe: 'olha, estou a fazer um programa sobre o Jim Morrison e venho pedir-te uma apreciação de Los Angeles para o meu programa. O homem ficou completamente desmontado e pura e simplesmente deu-me uma entrevista de mais de uma hora, com o Kid Congo Powers. 'Eu falar de Jim Morrison e da minha cidade é uma coisa que me enche de alegria'", recorda Ana Cristina Ferrão, no que se tornou no único concerto dos Gun Club em Portugal, ocorrido em outubro de 1987.