O rock voltou a abanar o planeta há 30 anos
"Álbum Preto" dos Metallica dá início a uma sequência de discos marcantes, como os dos Pearl Jam, Guns N' Roses ou Nirvana.
Em abril de 1991, o álbum de estreia dos Massive Attack, "Blue Lines", iniciava uma revolução sonora subtil que gradualmente foi tomando conta dos anos 90, num combinado tão sombrio quanto revelador de hip hop, dub, electrónica e rock. A essa banda sonora apocalíptica, descobrir-se-ia mais tarde o termo de trip hop, numa era que se provaria de abundância criativa para a cultura dee-jay na década final do século XX.
Mas o rock puro e duro agitar-se-ia novamente no segundo semestre de 1991, de forma catalisadora e global. Um dos grandes epicentros da música urbana, Los Angeles, continuava com ação musical para dar e sobrar, junto às grandes sedes da indústria fonográfica. O meio indie britânico continuava vivo e apto para continuar a escrever novos capítulos à história do rock - desta vez muito graças à loucura da editora Creation. Seattle impunha-se na geografia musical do rock como uma cidade a seguir, com sons cinzentos e bandas carismáticas para exorcizar a revolta da crise económica e social que se viveu nos Estados Unidos em 1991-92 (e que contribuiria para que George Bush não fosse reeleito como Presidente dos Estados Unidos en 1992). E aquela banda irlandesa que todos conhecemos resolveu parodiar-se de forma bem inesperada e inspirada.
Entre agosto e novembro de 1991, há um encadeamento de álbuns esmagadores que ainda hoje se ouvem. O rock voltava a surpreender e a fazer estremecer o planeta. Foi o alcunhado "Álbum Preto" dos Metallica que a 12 de agosto de 1991, há precisamente 30 anos, iniciava uma sequência mítica de obras discográficas relevantes. Vamos relembrá-las.
12 de agosto - "Metallica" dos Metallica
Consumado o domínio no reino do thrash-metal ao longo de toda a década dos 80s, os Metallica sabiam que bastava moderar um pouco a sua agressividade para terem o rock mainstream à sua mercê. Foi o que aconteceu em 1991 no que os fãs chamam de "Black Album" (por causa da capa preta), o título oficioso já quase oficial do grande disco embaixador do metal. O mundo do heavy expôs-se como nunca ao grande público graças a canções que estremeciam o éter radiofónico como 'Enter Sandman', 'The Unforgiven' e 'Wherever I May Roam', ou a balada que qualquer metaleiro sabe de cor, 'Nothing Else Matters'. Tal foi o impacto deste álbum que ao fim de três anos ainda o estavam a promover ao vivo de forma direta. Se calhar, sem quererem, ainda o estão... mesmo que de forma mais indireta. A vida dos Metallica nunca mais foi a mesma desde 12 de agosto de 1991. Gostar de Metallica deixou de implicar ser metaleiro. Bastava gostar de rock.
27 de agosto - "Ten" dos Pearl Jam
O impacto glorioso do álbum de estreia dos Pearl Jam não foi tão imediato como o de Nevermind dos Nirvana, mas "Ten" foi lançado quatro semanas antes da obra-prima dos seus grandes rivais. Essa glória mais demorada e alongada de "Ten" tornou-se benéfica para a banda de Eddie Vedder. A rotação repetida dos seus vídeos na MTV e não só - os retratos do rebuliço em palco de 'Alive' e 'Even Flow' ou o clipe premiado de 'Jeremy' - ajudou o público a familiarizar-se com o visual e os preceitos do que é ser grunger: a conjugação de calções largos com botas Dr. Martens, camisas de flanelas abertas como se fossem casacos, cabelos compridos que ultrapassavam folgadamente os ombros e o stagedive e o crowdsurf como desportos urbanos adquiridos nas capelas rock de Seattle. "Ten" tornou-se de tal forma um clássico que cada faixa do disco é ela própria um clássico. A partir de 1991, o rock ganhava em definitivo mais uma voz poderosa: a do então jovial acrobata de estruturas de palco Eddie Vedder.
17 de setembro – "Use Your Illusion I" e "Use Your Illusion II" dos Guns N' Roses
Como se já não fossem afamados o suficiente por êxitos dos anos 80 como 'Sweet Child O' Mine' ou 'Paradise City', os Guns N' Roses resolveram ser extravagantes na sua glória quando lançaram de rajada dois discos talhados para o sucesso: "Use Your Illusion I" e "Use Your Illusion II". Milhões tiveram que comprar os dois discos. Estava ali um amontoado de hits que perduram até hoje. A banda estava no pico das suas forças, com a sua formação mais mítica de sempre (o vocalista Axl Rose auxiliado pelas guitarras de Slash e Izzy Stradlin, pelo baixo de Duff McKagan, pelas teclas de Dizzy Reed e pelo ex-The Cult, Matt Sorum, na bateria). O ciclo de "Use Your Illusion" foi de tal forma apoteótico que aquela imagem de Axl Rose magro em reviravoltas com a estrutura do microfone e a correr pelo palco cristalizou-se na memória coletiva, como se o Axl Rose de hoje (mais pesado e de chapéu) fosse já outra pessoa. O rock podia ser clássico e ao mesmo tempo incendiário e rebelde. Foi essa a lição que os Guns deram em 1991.
23 de setembro - "Screamadelica" dos Primal Scream
O rock & roll foi à rave em "Screamadelica". O esguio e guedelhudo Bobby Gillespie serpenteava o corpo a cantar de maracas ou de pandeireta na mão, cheio de pinta. Ao lado, uma cantora soul acalorava aquela nova mescla de rock com eletrónica que a cena de Madchester (Happy Mondays, The Stone Roses, Inspiral Carpets) andava a celebrar. Mas os escoceses Primal Scream foram ainda mais longe na noite alucinogénia. Já em estado de after-hours, "Screamadelica" é iluminado por um clarão redondo ao longe a iniciar a sua subida pelos céus. O rock acelerava na sua modernidade e o madrugador "Screamadelica" era o marco.
24 de setembro - "Blood Sugar Sex Magik" dos Red Hot Chili Peppers
O pequeno interregno de drogas duras na banda valeu a inspiração para o álbum mais carismático de sempre dos Chili Peppers, gravado na fantasmagórica The Mansion, do produtor Rick Rubin. As canções estavam mais melodiosas e radiofónicas. Portanto, o funk dos Red Hot Chili Peppers estava pronto para conquistar o mundo. A grande invasão de palco durante a atuação dos Red Hot Chili Peppers nos MTV Video Music Awards de 1992 mostrava que os 13 milhões de cópias vendidas de "Blood Sugar Sex Magik" não foram um mero dado estatístico.
24 de setembro - "Nevermind" dos Nirvana
Uma figura com cabelos loiros desgrenhados a tapar-lhe os olhos e a encostar-se de modo marreco à câmara de filmar iria tornar-se familiar para todos os telespetadores da MTV e não só: o guitarrista canhoto Kurt Cobain, de ar alienígena, magnetizava as atenções no videoclipe 'Smells Like Teen Spirit', que terminava com uma mosh caótica num ginásio com cestos de basquete. Esse tema era só a primeira bomba atómica de um álbum poderoso que iria mundializar o termo de grunge no léxico musical. Num ápice, bastando aquele segundo álbum da banda, os Nirvana passavam de promessas de uma grande cena local a gigantes do rock mundial.
4 de Novembro - "Loveless" dos My Bloody Valentine
É uma das obras de Santa Engrácia do rock, demorou a ser terminado e levou o editor da Creation, Alan McGee, a perder a paciência. Mas quando saiu finalmente em 1991, foi defendido por muitos como o apogeu do movimento de shoegazer que se fazia notar no indie britânico. A minúcia perfecionista do seu líder Kevin Shields valeu a pena, num disco que é um primor de engenharia de som, repleto de camadas e camadas de distorção. 'Soon' é o tema mais emblemático, uma abstração pop giratória, tão sumida e etérea quanto o resto do disco. Raramente o ruído foi tão paradisíaco.
18 de Novembro - "Achtung Baby" dos U2
Depois da fase americanizada do final dos anos 80, os U2 foram em 1990 à procura da mudança, na cidade que mais tinha mudado, a recentemente reunificada Berlim, onde já não morava o velho muro. A banda irlandesa encontrou a mudança nela própria, no álbum de renovação mais radical de sempre dos U2. Bono, de grandes óculos escuros e de cigarrilha na mão, torna-se humorístico, caricaturando o estatuto de estrela rock em que se tinha tornado, através das personagens que encorpa, de Fly a MacPhisto, que marcam os espetáculos da Zoo TV Tour. A parafernália tecnológica e a sociedade multimédia não são apenas o conteúdo temático, tomam conta do ambiente sonoro do álbum. Os U2 atraíram-se pelo risco estético e sobreviveram bem mais fortes.
