Marco Rodrigues: "a inquietude na alma de um fadista tem de ser constante"
Esta noite, 27 de agosto, o fadista sobe ao palco do festival Música no Parque. Carminho também atua hoje no festival de Cascais.
O Música no Parque continua a celebrar a música portuguesa no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais. Mais logo celebra-se o fado com as atuações de Marco Rodrigues e Carminho. Marco Rodrigues sobe ao palco do hipódromo às 20h00. O concerto da fadista Carminho começa às 21h00. As portas do recinto abrem às 18h30.
Marco Rodrigues conversou com a nossa rádio sobre o concerto. O fadista está feliz por voltar a partilhar o palco com Carminho. "Nós crescemos nos mesmos ambientes de fado. Somos da mesma geração. Tenho uma admiração gigante pela Carminho. Poder partilhar o palco com ela, para apresentarmos a nossa forma de ver a música e o fado deixa-me muito feliz", contou-nos. Além disso, e depois da suspensão forçada dos concertos, Marco Rodrigues destaca a importância de voltarmos a sentir a vitalidade da música ao vivo. "É essencial sentirmos que 'estamos vivos'. Nós, o público, os técnicos, as pessoas que produzem, organizam, vendem e promovem concertos", acrescentou o fadista.
Marco Rodrigues está a caminho do sexto disco, mas ainda não foi anunciada a data de lançamento. O novo álbum tem dois singles de apresentação - 'Eu Sou do Roque' e o 'Fado Fantasma' - e já foi terminado durante a "era pandémica".
O que é que um artista sente por estes dias quando sobe ao palco?
Estamos nisto há um ano e tal. Já senti uma série de coisas diferentes. Sinto que passei por várias fases. Na fase do primeiro desconfinamento, consegui dar alguns concertos mas sentia alguma insegurança artística devido a esta forma de trabalhar tão intermitente. Depois, veio a fase em que senti que o público ainda se estava a ajustar a esta nova realidade. As pessoas não estavam tão efusivas e calorosas como antes. Isso acabou por mudar, numa fase seguinte, em que era nítido que o público estava mesmo a precisar de estar ali. Sentia-se até uma espécie de euforia no ar. Apesar de ter tido mais de trinta concertos cancelados ou adiados, o que naturalmente tem peso nas contas no final do ano, acho que não me posso queixar, se tiver em conta o contexto. Tenho a felicidade de poder dizer que dei uma média de doze concertos no ano passado - o que acaba por ser fantástico. Consegui manter a minha equipa minimamente a trabalhar.
E conseguiste dedicar-te ao álbum que começaste a fazer antes da pandemia...
Sim, mas, além dos confinamentos, aconteceram outras coisas na minha vida que me levaram a alterar o material que já tinha gravado. O disco foi alterado depois do falecimento da minha mãe que morreu um pouco tempo antes da pandemia. A perda da minha mãe foi uma experiência muito mais profunda que a pandemia. Mas não foi só isso que aconteceu. Passados uns meses, já durante o período de confinamento, fui pai outra vez. Com isto tudo a acontecer, o disco acabou por ser reajustado. Quero que faça sentido quando sair.
Foi reajustado em que medida?
Principalmente nas letras. Havia letras que faziam mais sentido nesta fase, depois de tudo o que aconteceu. O desaparecimento de uma mãe é algo que tem uma profundidade incalculável. A perda da mãe altera qualquer pessoa. Pelo menos, muda as pessoas que têm com as mães o tipo de relação que eu tinha com a minha. O percurso que fiz com a minha mãe é muito profundo. Perdê-la, mudou muita coisa em mim. Foi graças a ela que consegui construir a minha carreira e, de repente, vi-me a fazer um disco sem a ter por perto.
Poderá ser então um disco de agradecimento à tua mãe?
Não posso adiantar ainda muito sobre o disco mas posso dizer que é o meu disco mais profundo até agora. É um disco mais virado para quem eu sou enquanto pessoa e não tanto enquanto intérprete. Acho que isso até se reflete nas próprias interpretações.
Já estão dois singles cá fora: 'Eu Sou do Roque' e 'Fado Fantasma'. 'Eu Sou do Roque' foi escrito pelo David Fonseca e o vídeo foi feito pela Cláudia Pascoal. Como é que te juntaste a estes dois?
Em praticamente todos os discos, excetuando o primeiro, tenho convidados que nada têm a ver com a minha linguagem musical. São pessoas (compositores e letristas) que admiro. Convido-os para acrescentar algo diferente à minha linguagem, ao fado. Um fadista pode cantar o que quer que seja que não deixa de ser fadista por isso. Já queria ter convidado o David Fonseca há algum tempo, mas só agora é que surgiu a oportunidade. Deixei-o completamente à vontade para escrever, não lhe dei qualquer tipo de mote e ele apareceu com o 'Eu Sou do Roque', que é um tema incrível.
Conheça a história do single 'Eu Sou do Roque':
Sobre o vídeo para 'Eu Sou do Roque' que teve o dedo criativo da cantora Cláudia Pascoal:
A personagem criada para o tema 'Eu Sou do Roque' define-se como uma "alma inquieta". Tens uma alma inquieta? Qual é o teu nível de inquietude nesta fase da tua vida?
Creio que nesta altura as minhas maiores inquietações são as típicas preocupações de pai. Acho, contudo, que quando um músico, um artista ou um intérprete deixa de ter uma alma inquieta também deixa de conseguir transmitir a mensagem que quer às pessoas. Deixa de ser transparente. Claro que depende do tipo de inquietação, mas a inquietude na alma de um artista, de um músico ou de um fadista tem de ser constante, se não a música deixa de fazer sentido. Temos de ter sempre algo que mexa com a nossa alma, que nos faça sentir, que nos arrepie, que nos sensibilize ou até que nos faça rir. Tudo isso tem de vir de dentro e tem de ser sincero.
Já que convidas intervenientes de outros universos musicais para a tua linguagem, em que medida é que o fado pode ter submundos?
Só comecei a gostar de fado quando vi pela primeira vez uma atuação de fado ao vivo quando tinha 15 anos. Até então, embora consumisse muita música, não gostava e não ouvia fado. Só depois é que passei para uma fase em que praticamente só ouvia fado e queria muito aprender a linguagem que estava além da que fui adquirindo com a experiência das casas de fado.
A verdade é que nunca reneguei o facto de ouvir Xutos & Pontapés quando era mais novo. Não fazia sentido excluir as minhas influências. Gosto de rock, pop, flamenco, tango, jazz e adoro música popular brasileira. Acho que um músico nasce com talento e sensibilidade suficientes para ser um reflexo daquilo que ouve, tal como pode nascer com um timbre bonito. A partir daí, é um processo evolutivo ou não. Aquilo que um músico ou intérprete ouve, sente e as pessoas que o rodeiam influenciam diretamente a música que faz.
A bonita e profunda história do 'Fado Fantasma':
Mais informações sobre o Música no Parque: Por questões de segurança, o público terá de mostrar o certificado de vacinação (e cartão de cidadão) ou teste negativo à Covid-19 para entrar no recinto - testes esses que devem ser feitos num dos postos de testagem que estão à porta do hipódromo.
O festival de Cascais arrancou a 19 de agosto, com as atuações de Pedro Mafama e Dino D'Santiago (pode ler a reportagem do primeiro dia aqui). No dia 20, atuaram os Quatro e Meia e a cantora Mimi Froes. Ontem, 26 de agosto, foi a noite do espetáculo Deixem o Pimba em Paz (com Manuela Azevedo e Bruno Nogueira) e Filho da Mãe. Amanhã, dia 28 de agosto, atuam os veteranos Xutos & Pontapés. A primeira parte vai estar a cargo de Churky.
