Camané: na voz, um íman para o fado

Sai hoje o novo álbum "Horas Vazias". É o primeiro longo de estúdio após a morte do seu produtor de há muito, José Mário Branco.

Camané tem o poder talentoso e empático de aglutinar os melhores à sua volta, incluindo aqueles que se movem fora do mundo do fado. Camané agrega e adapta para a sua voz de fadista as criações de gente de referência da música portuguesa como Jorge Palma, Sérgio Godinho, Vitorino, Pedro Abrunhosa, Mário Laginha ou Amélia Muge. É o que acontece no seu novo álbum que sai hoje, "Horas Vazias", com Pedro Moreira aos comandos, na produção e arranjos. 

O homem que vê no seu horizonte palavras cantadas como "noite" ou "mar", tem em mente, nesta entrevista, duas preocupações metódicas: o transporte para o fado e a continuidade. Naquele que é o primeiro álbum após a morte de José Mário Branco (produtor e arranjador dos álbuns de Camané), o fadista continua, voltando a fazer da tradição novas tradições. Conseque ser antigo e classicista e ao mesmo tempo um cantor inovador e desconcertante, porque o passado é e será o ponto de partida para o futuro. Por exemplo, pode desdobrar este novo e antigo 'Fado Rosa', gravado à capela e com Ricardo Toscano ao saxofone, e levá-lo para a rua ou para uma estação de metro. É onde também imaginamos Camané em "Horas Vazias".

Dessas e de outras preciosidades, fala-nos Camané, nesta entrevista telefónica. Oiçamo-lo mais uma vez.  

O que mudou na forma de gravares, ao teres agora na produção o Pedro Moreira?
A ideia foi dar continuidade ao que foi uma aprendizagem na minha vida. Mudaram algumas coisas, mas a base de transporte para o fado destas músicas está lá toda. A ideia não é mudar, mas dar continuidade ao que tem sido o meu trabalho e o meu registo de fado.

Sentiste as horas vazias perante as dúvidas que a súbita ausência de José Mário Branco provocou?
O José Mário está lá sempre, no meu crescimento. As horas vazias é quando estamos recetivos e queremos preencher com qualquer coisa. Quando estamos preparados para ouvir ou para dar qualquer coisa. É aí que preenchemos o nosso vazio. Estamos preparados para receber e para dar. É nesse sentido que se dão as horas vazias. Em relação ao José Mário, ele está presente em tudo: nos arranjos, na forma como transportamos músicas que não são fados para o meu registo de fadista, no conceito que tínhamos de acompanhar a palavra e o registo emocional. Em tudo isso, o José Mário está presente. 

 

Como é que se dá este processo do fado 'Tenho Dois Corações', com letra de Amália Rodrigues e música de José Mário Branco?
Esse é um tema que me foi sugerido pelo David Ferreira [o seu antigo editor na EMI e EMI-Valentim de Carvalho] e que faz parte há algum tempo do reportório de Amélia Muge. Regravámos este tema do José Mário com um poema de Amália. O tema tem um ambiente de música popular portuguesa. É um bocadinho o que a Amália fazia, juntando um pouco de música tradicional portuguesa ao fado. Nós fizemos este arranjo desta forma, transportando-o para a minha forma de cantar. De certeza que se fosse com o José Mário, ele faria assim. Foi um arranjo do Pedro Moreira, que está lindíssimo. Por outro lado, tínhamos que reproduzir a linguagem do José Mário, porque a música é dele.

Gravar o 'Aves Agoirentas' era um sonho antigo? 
Sim, era. É um tema do David Mourão-Ferreira [letrista], do [Alain] Oulman [compositor] e da Amália [intérprete] que adoro. Acho que tem tudo a ver comigo, faz parte das minhas memórias. Foi a primeira vez que o cantei, quando o gravei no disco. 

Tu cantas neste disco composições de referências vivas como o Vitorino, o Jorge Palma, o Pedro Abrunhosa ou o Sérgio Godinho. Como é que se deram estes reencontros?
Todos eles já fizeram parte de discos meus, mesmo com o José Mário. Já tinha havido uma participação minha num tema com o Pedro Abrunhosa, mas que não era um fado ['Para Os Braços Da Minha Mãe']. Foi num disco do Pedro ["Contramão", de 2013]. Foram coisas que aconteceram do acaso. Falei com o Vitorino e ele veio a um estúdio de Algés, tocou o tema no piano e cantámo-lo logo. Fiquei logo com uma ideia do que seria o tema ['Foste Embora']. Transportei-o para o fado, que tem a ver com a minha forma de estar, com a viola, a guitarra [portuguesa] e o contrabaixo. No outro tema do Vitorino [Marcha de Alcântara], transportei uma marcha, tal como tinha feito com o José Mário na 'Marcha do Bairro Alto', em que teria um registo mais fadista. Em relação ao Jorge Palma, há muito tempo pensava ter um tema dele. E ele fez aquele tema fantástico, o 'Noite Transfigurada'. Foi mesmo até à última. Eu disse mesmo: "não vou para estúdio, nem vou para os ensaios enquanto eu não tiver um tema do Palma". De repente, mandou-me às quatro da manhã e é um tema fantástico. O Pedro Abrunhosa tinha feito o 'Que Flor Se Abre No Peito' para o Carlos do Carmo que não conseguiu gravar, porque faleceu antes. Ligou-me a perguntar se eu queria gravar o tema. Mostrou-me o tema, eu gostei imenso e percebi que poderia ser um fado. Houve muito mais temas de outras pessoas que acabei por não gravar. As músicas eram boas, mas não as consegui transformar em fado. Neste caso, foi fantástico, porque o tema do Abrunhosa era mesmo fado.  
Depois houve uma série de pessoas novas que fui encontrando, como o Sebastião Cerqueira, que é um poeta. A minha mulher foi assistir a umas sessões de leitura de poetas novos do Jorge Silva Melo. E trouxe um livro para casa [de Sebastião Cerqueira] de que gostei imenso, de poemas que não eram para serem cantados. Eu liguei para o Sebastião e perguntei-lhe se ele não queria escrever para fados ou para música, e ele disse que, por acaso, o doutoramento dele tinha sido baseado em letras para hip hop. Mandei-lhe dois fados tradicionais, o 'Fado da Bica' do Jaime Santos e o 'Fado Rosa', em que ele escreveu dois poemas fantásticos. Depois, fez também um poema para uma música ['Meu Amor'] do Miguel Amaral, que é um músico fantástico do Porto, de guitarra portuguesa. 

 

Há palavras que encantam o fado e a que tu não foges, como a "noite", o "mar", o "rio", o "barco". Que palavra abre mais sentidos para ti quando a cantas?
Acho que é um bocado a vida, o amor, a saudade. Quando falo em saudade, não é de uma maneira saudosista. Tem a ver com o sentimento. Para mim é sempre do futuro. É uma coisa que tive no passado e que quero voltar a ter. Todas as histórias que me fazem refletir ou sentir são para mim importantes no fado e na poesia. É isso que acontece no fado, que é fantástico 

Gostas da solenidade que o contrabaixo pode dar ao fado? 
Sim. O contrabaixo foi uma ideia do José Mário no meu segundo disco ["Na Linha da Vida"]. Convidámos o Carlos Bica, que vivia e continua a viver em Berlim. Quando gravamos em estúdio, vem sempre. Quando fazíamos concertos no norte da Europa e na Bélgica e Holanda, ele vinha tocar. Temos outro contrabaixista que toca connosco que é o Paulo Paes, que faz os outros concertos todos. Na altura, quando pensámos num contrabaixista, todos os baixistas acústicos de fado eram muito bons. Mas na altura, não havia ninguém disponível e pensámos no contrabaixo e assim ficou. Foi uma coisa muito normal e natural. A partir daí, passámos a contratar um contrabaixista. 

 

O que é que este disco tem mais de inesperado para ti?
Houve coisas fantásticas, como o cantar à capela o 'Fado Rosa' só com o Ricardo Toscano no saxofone. Acima de tudo, este é um trabalho de continuidade, tem a ver comigo. É a minha forma de estar no fado. Inesperado foi reunir os temas que eu queria cantar. Consegui um reportório novo. As coisas aconteceram muito rapidamente e por acaso. O José Manuel Neto [na guitarra portuguesa] mostrou-me uma música nos ensaios e de repente ligámos para o João Monge e no dia seguinte tínhamos a letra [para 'Quem És']. A Carminho ligou-me a dizer que tinha uma música com letra do Júlio Dinis ['Nova Vénus']. De repente, convidei um músico que sabia da existência dele. O Tomás Wallenstein dos Capitão Fausto ligou-me a convidar-me para um espetáculo com esse acordeonista [João Barradas]. Eu ainda não tinha ouvido esse acordeonista: "o que é que eu faço?". Falei com o Pedro Moreira e liguei para o acordeonista. Funcionou muito bem. O Pedro Moreira tinha-me dito que ele era muito bom. Tudo aconteceu por acaso. Quando convidei o Pedro Moreira para produzir o disco, é porque sabia que ele gostava imenso do meu trabalho e que conhecia muito bem os meus discos. E que podia dar continuidade da melhor forma. De repente, convidei o Laginha para fazer um tema para mais um disco meu ['Falsa Partida']. Fez um tema fantástico, de uma forma muito verdadeira e honesta.  

Fiquei muito surpreendido com a parte final do disco quando te ouvi a cantar à capela o 'Às Vezes Há Um Silêncio (Fado Rosa)' com o saxofone do Ricardo Toscano e depois o 'Havemos de Nos Ver Outra Vez' com o acompanhamento de cordas.
É com um sexteto. Cantei com uma orquestra sinfónica da Macedónia. Experimentei terminar esse tema da Teresa Muge. Quando fiz os concertos com orquestra em Portugal, acabava com esse tema. O Pedro Moreira fez um arranjo de cordas desse tema com um sexteto para terminar o disco, com uma despedida que não é uma despedida: 'Havemos de Nos Ver Outra Vez'. Havemos de nos reencontrar. As pessoas ouvem este disco e dois anos depois vai haver outro. 
Já tinha cantado ['Às Vezes Há Um Silêncio (Fado Rosa)'] à capela com o Toscano num espetáculo no Campo Pequeno [em Lisboa] e no Pavilhão Rosa Mota [no Porto]. Quando fomos gravar, foi só num take. A ideia era cantar o 'Fado Rosa', que é um fado antigo dos anos 40, que tem o tempo de um fado tradicional, com aqueles silêncios e o Toscano entrou muito bem naquilo, com um registo de guitarra portuguesa só que com o saxofone. A simplicidade e a expressão do fado estão lá todas na forma como ele toca.

Já estás a planear os espetáculos à volta deste disco?
Estou a planear espetáculos com este disco, mas também espetáculos diferentes. Até ao final do ano ainda tenho que fazer espetáculos que tinham ficado para trás. Para o ano, quero fazer espetáculos só com este disco. Foi sempre um sonho meu fazer um espetáculo só com um disco. Lembro-me de em muito novo ver espetáculos de artistas só com um disco que deixavam as pessoas muito admiradas. Não olhavam nem para trás, nem para a frente. Acho isso fantástico. Este é o disco mais comprido da minha carreira, com 16 temas. Nunca tido atingido os 16 temas, acho eu. Haveria muito mais temas para gravar mas que não faziam sentido. Toda a gente à minha volta, que trabalha comigo, disse-me que poderia gravar estes temas todos.