Axl Rose chegou aos 60
Celebramos a data com dez curiosidades sobre o histórico homem dos Guns N' Roses.
Axl Rose, o controverso frontman dos reagrupados Guns N' Roses, completa hoje 60 anos. O irrequieto William Bruce Rose Jr. nasceu a 6 de fevereiro de 1962 em Lafayette, Indiana, nos Estados Unidos. O mundo conhece-o por Axl Rose, pela forma endiabrada de estar em palco e por uma série de polémicas que alimentaram jornais no mundo inteiro. É um dos grandes vultos do rock n' roll e o homem que entregou o vozeirão à banda que em tempos foi considerada "a mais perigosa do mundo".
O menino de coro
William, criado no seio de uma família com fortes convicções religiosas e de conduta extremamente conservadora, começou a cantar no coro da igreja quando tinha apenas cinco anos. Cantava ladeado pelos dois irmãos, Amy e Stuart. Os três manos eram presenças assíduas nos encontros religiosos - e isto por obrigação dos pais. Formavam o Bailey Trio.
Durante as "dores de crescimento" da adolescência, aliadas a um infeliz cúmulo de experiências de infância traumáticas, a música continuou a funcionar como uma espécie de luz de presença na vida de Rose, muitas vezes até de forma clandestina devido à postura rígida do padrasto. O jovem Bill, que por essa altura já sabia brilhar ao piano, tinha de pedir aos amigos para que lhe mostrassem música "mais arrojada" pelo telefone.
O rapaz tímido (e precocemente corroído por tumultos internos complexos) começou a experimentar a textura da voz e a manobrá-la em diferentes registos. Acabou por abandonar a escola, apesar de ser um dos alunos mais inteligentes da turma, para poder dedicar-se à música.
A infância complicada e o sonho recorrente com um cavalo
Axl Rose teve uma infância complicada, confusa e traumática. O músico cresceu a acreditar que o padrasto, Stephen Bailey, era o seu pai biológico - uma ideia que acabaria por ser desfeita mais tarde. Quando tinha 17 anos, Axl descobriu documentos que mostravam que afinal quem ele julgava ser o seu pai era na verdade o padrasto. A descoberta deu ainda mais volume à instabilidade emocional que o músico carregava e refletiu-se nas opções erráticas que o levaram várias vezes a questionar a noção de autoridade e a ter problemas com a polícia.
Em várias entrevistas, incluindo uma dada à Rolling Stone em 1992, o homem dos Guns relata autênticas atrocidades que sofreu às mãos do padrasto, referindo-se a abusos físicos e verbais constantes. Mas há mais. Na mesma entrevista, Axl Rose contou que também fora abusado sexualmente pelo pai biológico quando tinha apenas dois anos. Grande parte dos episódios que o vocalista vivenciou na infância foram recuperados na terapia, com recurso à regressão. "Apaguei grande parte das minhas memórias de infância", disse Axl à publicação norte-americana. "Tinha muitos pesadelos e lembro-me de um sonho em particular. Sonhava que era um cavalo. Era um mustang selvagem que acabava por ser apanhado para ser metido num filme estúpido. Nunca entendi esse sonho", acrescentou o músico.
Mochila às costas e um objetivo: chegar a Los Angeles
Axl Rose, que foi detido mais de vinte vezes em Lafayette (sob acusações de delinquência), mudou-se para Los Angeles, Califórnia, em 1982. O músico, na altura com 20 anos, apanhou um autocarro rumo a terreno novo para explorar. Era também em L.A. - mais precisamente em Fullerton - que estava o amigo de infância (e futuro guitarrista dos Guns) Izzy Stradlin. Axl Rose tinha a ideia que Fullerton era um sítio bem mais pequeno do que realmente era e que seria relativamente fácil encontrar o arrojado Izzy, que se aventurou na mudança algum tempo antes. Não foi o que aconteceu. Perdido na dimensão da cidade californiana Axl Rose andou de autocarro, à procura do sítio, durante dois dias. A experiência atribulada da viagem e a chegada à agitada Los Angeles marcou-o de tal forma que está omnipresente em vários temas da banda. 'Welcome To The Jungle', do disco "Appetite For Destruction", e 'One In a Million', do EP GNR' Lies, são dois exemplos.
A primeira canção composta para os Guns N' Roses
Foi escrita em 1985 e é a monumental balada 'Don't Cry' que foi editada com duas versões nos discos "Use Your Illusion I e II" (1991). Foi composta quando os Guns N' Roses estavam a emergir dos projetos Hollywood Rose e L.A. Guns e fazia parte do alinhamento dos concertos que a banda, praticamente anónima e sem retorno financeiro, dava nos clubes noturnos de Los Angeles.
"Fui a casa do Izzy e atirei algumas pedras à janela. Ele apareceu, a pensar que eu ia dar-lhe um raspanete. Andávamos a discutir há meses. Nesse dia concordámos que tínhamos de voltar a unir a banda [os Hollywood Rose]. A dada altura, sentámo-nos. Virei-me para ele e disse-lhe: 'hey, tenho aqui uma letra verdadeiramente depressiva'. Ao que o Izzy respondeu: 'boa, eu tenho aqui um som de guitarra muito depressivo. Foi perfeito. Ficou feita", contou Axl Rose num concerto que os Guns N' Roses deram em Nova Jérsia, Estados Unidos, em 2021. A letra original ficou no disco I e a que foi incluída no II conta com a voz do malogrado Shannon Hoon, dos Blind Melon.
As cartas de amor a Erin Everly, a musa de 'Sweet Child O'Mine'
Axl Rose casou com Erin Everly, filha do músico Don Everly, em 1990. O casal, que começou a namorar nos anos 80, esteve casado durante apenas alguns meses. A relação era de tal forma turbulenta que acabou por não resistir às "intempéries" emocionais - sobretudo as de Axl. Desde então, pouco se soube sobre Erin, mas, em 2013, a ex-mulher do músico decidiu pegar numa série de lembranças do tempo da relação para vendê-las a uma famosa leiloeira de Los Angeles.
No amontoado de memórias físicas de Erin havia fotografias, letras de canções escritas à mão, roupa que o rocker usou nos videoclipes, a certidão de casamento e cartas que foram parar à imprensa. Um excerto de uma dessas cartas, que foi publicado pela Rolling Stone em 2013, dizia o seguinte: "peço desculpa por ter sido tão duro contigo. Não fizeste nada de mal. Eu é que estava frustrado e não sabia como verbalizar os meus sentimentos, escreveu o músico num bilhete. "Nunca um amor foi tão verdadeiro. Amo-te, Erin".
Os encontros com Elton John, uma das grandes influências de Axl
'Bennie and the Jets', canção escrita pela dupla Elton John e Bernie Taupin, precipitou a vontade do jovem William em ser artista. Foi o próprio Axl quem "responsabilizou" a relíquia de 1973 pelo caminho que seguiu, somando a isso a forma como Elton John dominava as teclas do piano. O cantor chegou a confidenciar à imprensa que, quando era criança, tinha em casa uma coleção de pautas de canções do histórico britânico. A vida deu umas quantas voltas e, para a longa posteridade da narrativa do rock n' roll, ficam os momentos em que as duas figuras da música se cruzaram. Destacamos dois:
O primeiro leva-nos a 20 de abril de 1992. Aconteceu à frente de mais de 70 mil pessoas, no histórico concerto de homenagem a Freddie Mercury que teve lugar no londrino estádio de Wembley. Elton e Axl juntaram-se aos Queen no clássico 'Bohemian Rhapsody'.
1994. Foi Axl Rose quem discursou na cerimónia de indigitação de Elton John no Rock & Roll Hall of Fame. O que disse? Isto: "nunca fiz isto antes. Até parece simples. Nunca entendi o conceito do Rock & Roll Hall of Fame mas esta noite vou aprender. Estou grato por isso. Quando penso em Rock & Roll Hall of Fame penso na minha coleção de discos, no meu rádio, agora também na MTV, mas, mais importante que isso, é esse conceito estar nos corações e pensamentos. O Rock & Roll Hall of Fame honra os músicos que criam a música que não só faz parte da banda sonora das nossas vidas como nos ajuda a ultrapassar cada um dos dias das nossas vidas. Para mim e para tantos outros nunca houve uma inspiração maior do que o Elton John. Esta noite, o Elton deve ser honrado pelo grande trabalho que tem feito e também pela luta que tem travado contra o VIH. Também deve ser homenageado pela coragem que tem em expor os triunfos e tragédias pessoais, sabendo que isso vai ajudar outras pessoas. Quando ouvi a 'Bennie and the Jets' pela primeira vez soube que queria ser um artista".
Por falar em Rock & Roll Hall of Fame
Em 2012, quase 20 anos depois da separação do core original do grupo, os Guns N' Roses foram indigitados na grande casa do rock n' roll. Axl Rose não foi. O frontman não só recusou estar presente como rejeitou ser representado na cerimónia de Cleveland. Embora tivesse salvaguardado que não queria desapontar os fãs, parece que ainda não tinha conseguido superar as quezílias e danos consequentes que levaram ao fim dos Guns como os conhecíamos. A banda histórica de L.A. foi indigitada pelos Green Day. Slash, Duff McKagan, Matt Sorum e Steven Adler foram os elementos que a representaram na cerimónia.
A icónica correria no palco
A constante correria de uma ponta à outra do palco é praticamente uma "marca registada" de Axl Rose. Em 2012, numa entrevista televisiva dada ao norte-americano Jimmy Kimmel, o músico explicou a razão para os sprints artísticos que tão bem o caracterizam. "Eu não gosto nada de ficar parado no mesmo sítio durante os solos. Acho que pareço um idiota se ficar no mesmo sítio. Assim, aproveito, vou trocar de roupa e penso no que vou fazer na canção a seguir", disse Rose.
O trono, os AC\DC e a guitarra (escolhida por Slash) que Axl Rose deu a Dave Grohl
Grande parte da formação original dos Guns N' Roses voltou aos palcos em 2016, com a histórica digressão "Not In This Lifetime Tour" que passou por Portugal (Passeio Marítimo de Algés) um ano mais tarde. Também 2016, além de ter ido para a estrada com os Guns, Axl Rose fez uma substituição de última hora nos AC/DC, ocupando o lugar do histórico Brian Johnson que teve de abandonar a digressão devido a problemas de saúde.
Por aqui que vê que o ano foi agitado para Rose. Agitado, entusiasmante mas também com direito a um percalço num dos concertos de reunião com os antigos camaradas de banda. Axl caiu no palco e partiu o pé. "Isto é o que acontece quando fazemos uma coisa que já não fazíamos há mais de 23 anos", escreveu no Twitter. Sem grandes dramas, o problema ficou resolvido com um trono - o mesmo que Dave Grohl usou na digressão dos Foo Fighters quando partiu a perna em 2015. Foi o baixista Duff McKagan quem ligou ao homem dos Foos para pedir o trono emprestado.
"Portanto, o Axl levou a cadeira consigo para os Guns e depois levou-a com os AC/DC [quando substituiu Brian Johnson]. De repente, tornei-me no tipo com quem vens falar sempre que partes algum membro em digressão, como se eu fosse o Thrones R Us", disse Grohl numa entrevista recente à Classic Rock.
Como retribuição pelo trono, Axl Rose ofereceu uma guitarra elétrica a Grohl. E não foi uma guitarra qualquer. O modelo do início dos anos 60 da Gibson, uma Gibson ES-335, foi escolhido pelo guitarrista Slash e foi eleito por Grohl como a melhor guitarra que alguma vez teve.
A segunda mãe, Beta Lebeis
A brasileira Beta Lebeis é a assistente de Axl Rose desde 1993. Os dois conheceram-se através da modelo Stephanie Seymour, com quem o músico namorou no início dos anos noventa. Beta, que era a babysitter do pequeno Dylan, o filho de Seymour, foi trabalhar com Axl quando o namoro chegou ao fim e, desde então, tem sido uma segunda mãe para o músico. Em 2001, numa passagem dos Guns N' Roses pelo Rock In Rio original, o de Rio de Janeiro, Axl chamou a confidente ao palco para agradecer a confiança e a dedicação. A tradução da declaração de afeto de Rose foi feita pela própria Beta ao público carioca.
Os fãs portugueses vão poder celebrar os 60 anos de Axl Rose com o músico - o próprio - muito em breve. Os Guns N' Roses regressam ao Passeio Marítimo de Algés, em Lisboa, a 4 de junho. Parabéns, Axl!
