Nadya dos Pussy Riot: "Putin está a cavar a sua própria cova"

Ativista punk russa veio agora a público falar sobre o atual conflito entre Rússia e Ucrânia, visando o Presidente do seu país.

A ativista punk russa perseguida por Putin, Nadezhda Tolokonnikova, mais conhecida como Nadya do grupo de intervenção Pussy Riot, falou para vários meios internacionais. 

Declarada pelo Kremlin como uma "agente estrangeira" em dezembro passado e já presa pelo regime de Putin durante dois anos pelos crimes de "desordem social" e "vandalismo por ódio religioso", Nadya Tolokonnikova deu as entrevistas através do zoom, a partir de um local secreto.

Em entrevista ao The Guardian, a ativista russa louva a resistência dos ucranianos contra a invasão militar ordenada pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin, citando a sua própria luta, com a greve de fome há alguns anos, quando esteve presa. "Ao ter começado [a greve de fome], estava preparada para morrer. Se combateres um ditador, tens que mostrar que vais lutar até ao fim. É por isso que eu acho que a Ucrânia está a ganhar: podem perder algumas cidades mas estão determinados a lutar até ao fim, e isso não acontece com a armada russa". Para Nadezhda Tolokonnikova, não pode haver margem de tolerância para com Putin. "Os ditadores agem como guardiões de uma prisão. Para ele, a simpatia é uma fraqueza".  

Derrubar Putin na Rússia implica uma grande dose de coragem. Seria necessário "um levantamento de milhões de pessoas nas ruas que se recusassem a sair enquanto Putin não abdicasse. Isto é obviamente perigoso. O Putin é louco, pode abrir fogo contra o seu próprio povo. Compreendo por que é que toda a gente ainda não está nas ruas".

Outra hipótese, menos sangrenta, é a de um golpe interno no seu próprio círculo, atendendo à desunião atual da elite moscovita. "Acho sinceramente que o Putin está a cavar a sua própria cova. É significativo o número de oligarcas próximos dele que publicamente apoiam a Ucrânia e que estão contra a guerra, e isso não tem acontecido nos últimos 20 anos". 

A ativista de 32 anos critica a complacência do passado da comunidade internacional perante as políticas de Putin, por razões que atribui à "hipocrisia" e à "ganância". Acrescenta que "as pessoas subestimam o quão perigosos os ditadores são". E repete a dica que deu em discursos proferidos em 2014 para a Câmara dos Comuns, no Reino Unido, ou no Senado dos Estados Unidos: "devem ser o mais estritos possível. Não se pode ser mole com Putin".   

Nadya diz que chora "todos os dias" quando vê as imagens da Ucrânia. "É um desastre que vai acabar com milhares de vidas". E lembra a opressão interna na Rússia com a nova lei criada por Putin, que prevê uma pena de prisão de 15 anos para quem contestar a guerra na Ucrânia. "Nem se pode chamar de guerra, mas apenas de operação militar especial". 

Nadezhda Tolokonnikova olha para o opositor perseguido por Putin, Alexei Navalny (atualmente na prisão), como o líder ideal para a Rússia no futuro. Tem "melhores programas sociais". "Conheço-o desde 2007. Tem sido interessante testemunhar a evolução da sua plataforma, cada vez mais social democrata, mesmo que ele não se defina como tal. Acho que ele é inteligente em evitar rótulos, porque não quer dividir as pessoas".

Noutra entrevista, dada ao canal noticioso norte-americano MSNBC, Nadezhda Tolokonnikova lembra a ausência de informação credível dentro da própria Rússia. "Não há Facebook ou Twitter, o YouTube tem sido bloqueado parcialmente. Todos os meios de comunicação social estão bloqueados. É impossível encontrar informação fiável na Rússia. É preciso ter o VPN, mas nem todos têm o conhecimento técnico para obter essas informações".

Sobre a bravura dos manifestantes nas ruas da Rússia, Nady Tolokonnikova atribui razões emocionais. "amamos o nosso país e queremos ter a certeza que tem futuro. É doloroso ver que o Putin está não só a destruir a Ucrânia, mas também o futuro da Rússia, incluindo a mim própria e à minha relação com o país. Queremos ser vistos como uma nação de gente pacifica e não como um país que invade outro e que mata civis inocentes, incluindo crianças”. 

A ativista russa alerta que os manifestantes "têm sido torturados nas esquadras, incluindo jovens mulheres. Há fitas de gravação desoladoras, em que se ouvem jovens mulheres a serem torturadas por causa do seu ativismo. Há o direito à escolha em ir ou não protestar, mas definitivamente admiro muito mais quem opta moralmente por não ficar silencioso e que expressa a sua posição, seja nas ruas, ou na internet. Usa a tua voz enquanto podes, porque a partir de amanhã não o poderás fazer nunca mais”.