Sónar Lisboa começa hoje

É a estreia por cá do maior festival de eletrónica ibérico. Falámos com o diretor do Sónar, Enrique Palau, um dos músicos do cartaz, Branko, e o programador nacional Gustavo Pereira.

Entre hoje e domingo decorre a edição de estreia do Sónar em Lisboa, em espaços de quatro zonas da capital diferentes: no Coliseu dos Recreios (junto da Baixa), no recuperado Pavilhão Carlos Lopes (no Parque Eduardo VII), no Centro de Congressos de Lisboa (em Alcântara) e no Hub Criativo do Beato (em Xabregas).

Os nomes musicais do cartaz mais sonantes são Arca, Thundercat ou Floating Points, num festival que se identifica como de Música, Criatividade & Tecnologia, e que por essa razão sempre teve uma abordagem mais vasta que abrange preocupações como o futuro, os direitos humanos e a sustentabilidade, e que não se circunscreve apenas à música eletrónica. As conferências do Sónar +D no Hub Criativo do Beato envolvem por isso gente das comunidades da ciência, da economia digital, da tecnologia e, muito importante, das artes visuais, com uma grande presença de convidados portugueses.

Um dos três fundadores do conceito do Sónar, um dos maiores eventos internacionais de Barcelona, é Enrique Palau, um dos co-diretores, que esteve presente na conferência de imprensa de apresentação do Sónar Lisboa, que decorreu no Hub Criativo do Beato. Para Palau, a aposta em Lisboa justifica-se: "é uma cidade muito viva. Percebemos que há novos espaços de oferta que nos permitiram estar aqui, como o Hub Criativo do Beato. Há muitas sinergias e uma nova cena musical lisboeta. Há por aqui uma série de criadores, não só na música como na arte digital. Sentimos que Lisboa pode tornar-se a cidade irmã de Barcelona, no sentido de acolher uma edição do Sónar, como um encontro dois meses antes do festival em Barcelona, atraindo artistas e profissionais de todos os pontos do mundo, que estejam ligados à eletrónica”.

 

Gustavo Pereira faz parte do staff local do Sónar Lisboa, na função de programador, com carta branca para uma aposta nas editoras e artistas nacionais neste festival: "A ideia é coloca-los ao mesmo nível e dar as mesmas oportunidades, que normalmente não têm noutros eventos e pô-los lado a lado com outros artistas reconhecidos, que já têm um público gigante e que fazem turnés a nível mundial. Dessa forma, damos-lhes oportunidade de se promoverem e de terem a atenção do público para mostrarem o que valem".

 

As editoras nacionais Príncipe Discos e a Enchufada (através da "Enchufada na Zona") tomam conta do Pavilhão Carlos Lopes, respetivamente nas noites longas de sexta-feira e sábado. Nessa madrugada de sábado, está em ação nada mais nada menos que Branko, fundador e idealizador da Enchufada, ex-membro do coletivo nacional de eletrónica mais internacional de sempre, os Buraka Som Sistema, e que tem vincado bem o seu nome próprio, através do qual lança hoje o álbum novo "OBG". Depois de várias idas ao Sónar de Barcelona, Branko marca presença neste Sónar Lisboa. "O Sónar é um festival muito marcante, onde tento ir, mesmo que não toque. É um festival que olha para a música da mesma forma que eu olho. Gosto da mistura que apresenta entre artistas consagrados e mais novos e a crescer. Quando ainda não se falava de música eletrónica, já eles faziam estes programas com as eletrónicas e os DJ sets em Barcelona. Lisboa tem as características e a identidade para receber estes conceitos e este festival. Estou muito feliz por poder participar nesta primeira edição, e mais ainda com a curadoria de um palco durante uma noite inteira, sob a alçada da minha editora, a Enchufada. Ficámos muito felizes com este convite, porque nem sempre os festivais têm a abertura de interagirem com a cidade e localmente com as pessoas que fazem música nessas cidades. Tens muitos festivais que falam simplesmente para estrangeiros. Poderia ser mais um festival para atrair turistas, mas neste caso acho que souberam bem ir buscar alguns agentes ativos da música eletrónica nacional. Fiquei muito feliz de ter sido um deles".  

 

Branko alia-se ao ganês Gafacci. A sessão de dee-jaying intitulada Branko b2b Gafacci, decorre entre as 03:20 e as 04:45 de sábado, 9 de abril, no Pavilhão Carlos Lopes. "O Gafacci é um produtor de quem eu passo muita música nos meus sets por todo o lado. Ele participa inclusivamente numa série documental que fiz para a RTP, o "Club Atlas", no episódio dedicado a Accra [a capital do Gana]. Além disso, já trabalhei com ele em várias produções e em muitas edições da Enchufada, principalmente as compilações Enchufada na Zona, que dão nome ao palco do Sónar. É um produtor e um artista com quem tenho tanta conexão. Acima de tudo, é uma noite de celebração do lançamento do disco e deste momento que estamos a viver agora, na fronteira entre o que acabámos de viver nestes dois últimos anos e o possível futuro social normal. Para isso acontecer, senti que tinha que fazer uma noite de dança à antiga, mesmo à séria. O Gafacci é a pessoa certa para me acompanhar”.

Tal como outro grande festival de música de Barcelona, o Primavera Sound, também o Sónar se tornou num evento transcontinental. Mas o co-fundador Enrique Palau não tem um zelo expansionista. "Nunca quisemos ser um franchise que quer estar em todo o lado. Empenhamo-nos em todos os festivais que organizamos, trabalhando juntamente com as equipas locais, como acontece aqui com o pessoal do Porto e de Lisboa. Sentimo-nos totalmente envolvidos com os eventos que levamos a cabo, não conseguimos corresponder a muitos eventos num só ano. Lisboa é a segunda cidade mais importante do Sónar, esperando que Hong-Kong e a cidade do México voltem a receber o Sónar, tal como Atenas, na Grécia. Essas são as cidades onde temos trabalhado nos últimos anos. Não queremos expandir-nos demasiado. Preferimos fixarmo-nos nos locais certos, com os parceiros certos, o ambiente certo, a cena criativa certa e as salas certas, para continuarmos a fazer o que gostamos".  

O olhar transversal ao futuro, trazendo à tona as artes visuais, a ciência e a tecnologia, é uma missão para Enrique Palau. "É preciso trabalhar para o futuro. Não confio demasiado em lotarias. Os objetivos do festival são a celebração e a descoberta, na forma como os artistas usam a tecnologia, sejam na música de dança, sejam numa peça muito experimental. Pode ser interligada não só através da música, mas noutras sinergias e plataformas. O futuro existe e a tecnologia está para durar. A tecnologia é uma das ferramentas fundamentais para o novo século, no sentido da criatividade. Há 26 anos que trabalhamos nisto no Sónar, mas sinto que ainda temos um longo caminho pela frente, que está mãos dos artistas na forma como vão usar a tecnologia para criar nova música que compromete as pessoas a agregarem-se”. 

Todas as informações sobre o festival Sónar Lisboa relativas aos bilhetes e ao programa podem sen consultadas no site oficial do evento, neste link.
 

O depoimento de Gustavo Pereira foi recolhido por Inês Henriques, da Vodafone FM.