Eleições em França: quem é quem?

Emmanuel Macron e Marine Le Pen discutem a segunda volta das eleições no domingo.

A segunda volta das eleições presidenciais francesas está marcada para domingo e será disputada entre o Presidente cessante, Emmanuel Macron, e Marine Le Pen.

Nas eleições do passado dia 10, o Presidente cessante obteve 27,8% dos votos, enquanto a candidata de extrema-direita recolheu 23,2% dos votos.

As sondagens mais recentes apontam um aumento da vantagem de Emmanuel Macron em relação a Marine Le Pen.

Quem é Emmanuel Macron?

"Refundar" a França é o mote para o próximo mandato de Emmanuel Macron, que em 2017 se apresentou como candidato presidencial descomprometido com a vida política, mas que enfrenta agora críticas por falta de diálogo nos últimos cinco anos.

"Eu vou confessar-vos uma coisa: eu não tenho vontade nenhuma de fazer mais cinco ano de mandato. Eu não quero fazer mais cinco anos, eu quero cinco anos de refundação. O que se joga a 24 de abril não é apenas uma continuação, é uma reinvenção, uma nova ambição", disse Emmanuel Macron no seu comício de Marselha, no dia 16 de abril, na reta final para a segunda volta das eleições presidenciais, em que enfrenta a candidata da extrema-direita Marine Pe Len.

Chegado às eleições de 2017 com a imagem de um jovem desconhecido nos meandros políticos e figura independente, Macron volta a jogar a carta da refundação da República francesa para convencer o eleitorado a dar-lhe uma nova oportunidade, mas uma parte dos franceses que lhe deram um voto de confiança há cinco anos mostram-se agora relutantes.

Filho de médicos, Macron nasceu em 1977, em Amiens. Distinguindo-se desde jovem no campo das letras, o Presidente encontrou a atual mulher quando tinha 14 ou 15 anos e frequentava o ensino básico. Brigitte Macron, então Trogneux, era professora de teatro e tinha mais 24 anos que o seu aluno. A ligação levou a família do jovem Macron a retirá-lo da escola e a enviá-lo para o liceu Henri IV, em Paris.

Macron frequentou depois a Sciences Po, também em Paris, integrando a alta função pública francesa em 2004, após dois anos de formação em Estrasburgo. Em 2008, vira-se para o setor privado, trabalhando na banca de investimentos.

Antes de colaborar diretamente com François Hollande como secretário-geral adjunto do Eliseu a partir de 2012, Macron já contava com várias incursões na vida política, especialmente a nível local, a maior parte delas mal sucedidas. Foi com o ex-Presidente francês que o seu futuro começou a delinear-se, tendo sido nomeado ministro da Economia e das Finanças em 2014.

No final de 2016 surge como o candidato da “verdadeira indignação” e da renovação, face “às mesmas caras” da classe política desde “há 30 anos”. Apresentou nessa altura um programa de inspiração social-liberal, que cumpriu em grande parte reformando o subsídio de desemprego e simplificando o regime de impostos para os privados e empresas ao vencer as eleições face a Marine Le Pen.

O seu mandato foi atravessado por diferentes crises políticas nacionais, internacionais e por uma pandemia global, dificultando a aplicação na integralidade das suas ideias, mas a sua determinação continua, nomeadamente na questão da reforma do sistema das pensões e o estabelecimento da idade da reforma aos 65 anos.

Alguns dias antes do início oficial da campanha, as ligações de Macron no setor privado vieram ensombrar a sua candidatura, com o Senado a publicar um relatório em que mostra que em 2021, o Governo francês terá gasto 900 milhões de euros com empresas de consultoria, com a empresa McKinsey a ter recebido entre 28 a 50 milhões de euros.

Ao ser eleito o Presidente mais jovem da quinta República, Macron começou o seu mandato com uma grande popularidade, mas diferentes episódios com frases menos felizes acabaram por afastá-lo dos franceses, criando a imagem de um Presidente alcunhado de 'Júpiter' por decidir sozinho e à volta do qual deve circular o país.

"Eu tenho culpa pela minha inaptidão. Às vezes quis ir demasiado depressa em determinadas reformas e as coisas só funcionam bem com debate", desculpou-se Macron numa entrevista em 2020.

Talvez seja tarde para um pedido de desculpas, já que apesar de os níveis do desemprego estarem no nível mais baixo dos últimos 20 anos e, em média, o poder de compra dos franceses ter subido, muitos eleitores vão às urnas no domingo com o lema "todos menos Macron" em mente.

 

Quem é Marine Le Pen?

Herdeira do apelido sinónimo do ultra-nacionalismo em França, Marine Le Pen vê finalmente a possibilidade de uma eleição presidencial, comprovando a apreciação do seu pai, Jean-Marie, de que "a filha do diabo pode ser muito sedutora".

Mais de 10 anos após a sua subida à liderança da Frente Nacional, que rebatizou de União Nacional, e a poucos dias de enfrentar Emmannuel Macron na segunda volta das eleições presidenciais francesas, Marine Le Pen conseguiu criar uma nova dinâmica política para o seu partido e para a extrema-direita em França, acumulando vitórias que podem culminar na chegada ao Eliseu.

Marion Anne Perrine Le Pen, conhecida como Marine Le Pen, nasceu em 1968 e é a mais nova de três irmãs. Exposta desde cedo à vida política, terá sido um atentado à bomba de que a família Le Pen foi vítima quando tinha apenas oito anos que despertou a consciência política de Marine.

Militante da Frente Nacional desde os 18 anos, a líder da extrema-direita formou-se em Direito e chegou mesmo a exercer durante seis anos. Desde cedo que Marine terá demonstrado dons de oratória, reconhecidos pelo pai e pelos colaboradores mais próximos do partido.

No documentário "O Diabo da República" sobre os 40 anos da Frente Nacional em França, realizado em 2012, Jean-Marie Le Pen dizia sobre Marine Le Pen que "a filha do diabo pode ser muito sedutora". Mas as divergências entre ambos foram crescendo e a relação degradou-se.

A candidata ao Eliseu assumiu a liderança da Frente Nacional em 2011, estando na arena política como eleita local desde 1998 e tendo sido eleita eurodeputada pela primeira vez em 2004 - renovando consecutivamente mandatos no Parlamento Europeu até 2017, altura em que foi eleita deputada em França.

Tendo observado de perto a liderança do pai, Marine optou por não enveredar pelo negacionismo do Holocausto ou por declarar que há uma "desigualdade entre as raças" como Jean-Marie Le Pen. No entanto, as suas intervenções públicas não levantam dúvidas em relação às suas ideias. 

Em 2007, a candidata disse que "a imigração seria o grande problema do século XXI", em 2010 disse que era favorável à pena de morte, em 2011 que não se devia abrir o casamento a pessoas do mesmo sexo e em 2017 que a França não era responsável pelo Vél' d'Hiv onde 13 mil judeus foram remetidos pelo regime de Vichy aos alemães em plena Segunda Guerra Mundial.

Já em fevereiro de 2022 disse que se opunha à utilização do véu muçulmano na rua.

Esta é a terceira eleição presidencial de Marine Le Pen e o choque da eliminação da segunda volta em 2017, que aconteceu sobretudo devido a uma má prestação no debate frente a Emmanuel Macron, fê-la assumir uma nova postura pública, mudando o nome do partido para União Nacional e também deixando de defender abertamente a saída da França da União Europeia.

Partindo como uma candidata em dificuldades no início desta pré-campanha devido a problemas financeiros do partido e à ameaça do ex-jornalista Eric Zémmour, que dizia que Marine Le Pen era "de esquerda" por apresentar medidas "pouco duras" contra a imigração, a líder da extrema-direita apostou no poder de compra e receio da globalização para galvanizar o eleitorado, tendo conseguido colocar-se numa posição que a pode levar agora ao Eliseu.

Uma pedra no sapato da candidata são as acusações por parte das autoridades europeias, agora investigadas pelas autoridades francesas, de desvios de fundos enquanto era eurodeputada. Segundo o Parlamento Europeu, Marine Le Pen terá burlado pessoalmente em 140 mil euros os cofres europeus, numa quantia final de mais de 600 mil euros repartidos entre vários eurodeputados.

Já as contas do próprio partido também são questionadas, com a União Nacional a ter recebido um empréstimo de 10,6 milhões de euros de um banco húngaro próximo do regime de Órban. Em 2014, para as eleições regionais, o partido tinha pedido nove milhões de euros a um banco russo.

Com um divórcio muito público dos seus pais quando era adolescente, Marine Le Pen escolheu manter a sua vida privada longe dos holofotes, nunca aparecendo publicamente com os seus três filhos. Agora, pela primeira vez, a candidata dá a conhecer-se na intimidade, mostrando fotos nas redes sociais com os seus gatos.

Algo que Marine Le Pen não consegue manter na esfera privada é a relação com o seu pai. Em 2015, Jean-Marie Le Pen foi expulso do partido que ajudou a fundar e continua a ser ativo mediaticamente, falando muitas vezes contra a sua filha. Marine continua a dizer que o pai "é o homem da sua vida", mas que a relação entre os dois "é uma tragédia grega".

"[Se eu for eleita] Estou convencida de que ele ficará feliz. É um patriota, convicto, que lutou toda a sua vida. Apesar das diferenças que podemos ter, é claro que ele ficará feliz ao ver que a França se dá uma oportunidade para romper com políticas que foram nocivas para o país", disse há algumas semanas Marine Le Pen.