Concerto dos Capitão Fausto com a Orquestra das Beiras em formato digital e vinil
O concerto aconteceu a 7 de março de 2020 no Campo Pequeno, em Lisboa, dias antes do primeiro confinamento.
Foi a 7 de março de 2020 que os Capitão Fausto subiram ao palco do Campo Pequeno, em Lisboa, para partilhá-lo com 27 músicos da Orquestra das Beiras. A direção artística e arranjos estiveram a cargo do Maestro Martim Sousa Tavares e da banda lisboeta.
O concerto teve lugar poucos dias antes do primeiro confinamento devido à Covid-19 e serviu para a banda lisboeta assinalar a passagem de um ano sobre a edição do quarto álbum de originais, "A Invenção do Dia Claro". O registo áudio do espetáculo já está disponível nos formatos digital e duplo vinil.
Alinhamento (versão digital):
1. Quiet Village (Les Baxter)
2. Lentamente
3. Faço as Vontades
4. Corazón
5. Sempre Bem
6. Semana em Semana
7. Dias Contados
8. Maneiras Más
9. Certeza
10. Córtex
11. Amor, a Nossa Vida
12. Outro Lado
13. Lameira
14. Amanhã Tou Melhor
15. Morro na Praia
16. Santana
17. Boa Memória (Intro: Jupiter, the Bringer of Jollity)
18. Alvalade Chama por Mim
19. Final
A vida continuou. Ainda que dificilmente acreditássemos, se nos contassem o que se seguiria, ou mesmo que não chamássemos a isto vida, a verdade é que a vida continuou. Este foi o derradeiro concerto, no limiar do abismo, de uma vida que não voltou como a conhecemos e de um tempo que teima em não andar para trás. E não é como se tudo tivesse sido um sonho. Foi nítido, demorado e detalhado como só a realidade permite. O que durante anos sonhámos em jeito de desafio entre amigos e durante meses nos levantou da cama com os cabelos em riste e o coração a 130, o que nos juntou numa noite fria de teimoso inverno tardio e era um encontro, na verdade foi uma despedida. Sem que o soubéssemos, este concerto havia de perdurar, mais que não fosse como um marco obstinado a provar que mesmo quando tudo muda, a vida segue em frente. O Manuel era pai, o Tomás foi pai, o Salvador em breve será. Como se vê, a vida continuou - há mais vida que isto? Tocaram-se concertos, amigos juntaram-se e dançaram. Apertos de mão passaram a punhos cerrados, abraços amplos passaram a cotovelos em ângulo agudo e sorrisos continuaram a ser sorrisos, só que com os olhos. É evidente que a vida está aí, só não é a mesma. Só não era dado saber que a reunião era um adeus e que o acto do encontro era o último acto antes do mergulho de olhos bem abertos no tempo escuro e disforme, estranho e silencioso, ao qual nos fizemos habituados e conhecidos para que pudéssemos continuar a ser quem éramos. Este disco é a memória que estica os seus dedos em gesto de salvação. A memória que recupera, para quantos lá estiveram e desejavam ter estado, a impressão de que ainda somos as mesmas pessoas de ontem, para quem a vida continuou sendo tal e qual. A memória prega partidas mas os microfones não mentem. O que ficou gravado, gravado está e agora está aqui. O que foi bonito ontem será bonito sempre e merece ser lembrado. Por isso se fez este disco, porque nunca quisemos o adeus.
Martim Sousa Tavares
